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Revista de psicología (Santiago)

versión impresa ISSN 0716-8039versión On-line ISSN 0719-0581

Rev. psicol. vol.28 no.1 Santiago jun. 2019

http://dx.doi.org/10.5354/0719-0581.2019.53955 

SECCIÓN TEMÁTICA

Processo criativo e envelhecimento em uma pesquisa-ação

Creative process and aging in an action-research

Bruna Improta de Oliveira Mendonça1 

Denise Maria Barreto  Coutinho1 

1Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil

Resume:

O objetivo deste artigo é examinar efeitos de oficinas de contação de histórias realizadas com idosos, em situação de vulnerabilidade social, participantes de uma organização não-governamental em Salvador, Bahia. O método foi a pesquisa-ação. A análise partiu de repetidas leituras das narrativas coletadas, visando à construção de categorias que emergiram, desde falas transcritas a posturas corporais registradas em vídeo. A leitura das transcrições foi conduzida no sentido de agrupar categorias emergentes e significativas a serem confrontadas com o estado da arte sobre a temática. Dentre os resultados obtidos, chamam a atenção: promoção de participação engajada pelos sujeitos; ressignificação de estereótipos socialmente construídos sobre a velhice; ampliação do senso crítico e de exigências por condições de vida mais respeitosas; alargamento de perspectivas futuras e realização de projetos pessoais; estabelecimento de vínculos em função da conscientização sobre senso de pertencimento; fortalecimento da memória; liberação da ludicidade e criatividade. Por fim, apontamos para a relevância e efetividade deste trabalho de pesquisa participativa, na qual todos os sujeitos implicados são pesquisadores e promotores de sua própria história e de processos criativos emancipatórios. É possível supor que tal intervenção pode ser replicada com outros grupos, respeitando-se as especificidades de cada contexto.

Palavras-chave:: envelhecimento; contação de historias; processo criativo; psicologia do desenvolvimento

Abstract:

The purpose of this article is examining the effects of storytelling workshops with elderly in a situation of social vulnerability, participants of a NGO in Salvador, Bahia. The method was action-research. The analysis was based on repeated readings of the collected narratives, aiming at the construction of categories that emerged, from transcribed lines to corporal postures recorded in video. The reading of the transcriptions was conducted in the sense of grouping emergent and significant categories to be confronted with the state of the art on the subject. Among the results obtained, attention is drawn to some aspects: the promoting of a more engaged and inclusive participation; resignification of socially constructed stereotypes about old age; expansion of the critical sense and demands for more respectful living conditions; strengthening future life prospects and realizing personal projects; group integration and strengthening of ties, strengthening of memory; liberation of playfulness and creativity. Finally, we point to the relevance and effectiveness of this participatory research, in which all subjects involved are researchers and promoters of their own history and of creative emancipatory processes. It is possible to suppose that such intervention can be replicated with other groups, respecting specificities of each context.

Keywords: aging; storytelling; creative process; development psychology

Introdução

A longevidade vem constituindo o destino humano mais comum no mundo e no Brasil (Felipe & Sousa, 2014). Não se pode negligenciar, contudo, um aspecto estrutural da lógica capitalista contemporânea que induz a ocupar o tempo livre com discursos e práticas sobre seguir determinado modelo de envelhecimento bem-sucedido. Esse padrão fortalece imagens preestabelecidas sobre pessoas velhas e embasa determinadas ações sociais com foco na medicalização e na saúde física ( Domingues, 2014 ; Loth & Silveira, 2014). Oliveira e Silva (2017) destacam, na mídia e na moda brasileiras, coexistência de anúncios que reforçam a imagem de uma velhice dependente, com outros que realçam prestígio, poder e participação, percebendo crescente tendência em representar o velho de forma positiva. Essa visão estimula a ideia de velhice dependente de escolha individual, voluntarista e na qual, consequentemente, caberia ao indivíduo e não à sociedade/Estado escolher entre envelhecer passivamente ou reagir e rejeitar o envelhecimento. A juventude transforma-se em um ideal em si, um bem valioso a ser conquistado, enquanto a velhice seria efeito da negligência de indivíduos que não se engajaram em atividades motivadoras e não consumiram produtos e serviços para combater o envelhecimento. Envelhecer torna-se sinônimo de desleixo diante de tantos recursos disponíveis, mecanismo que reforça e mantém iniquidades sociais (Oliveira & Silva, 2017).

Nesse contexto, envelhecer seria o negativo da vida saudável, bem-sucedida. A velhice passa a ser abordada por discursos especializados. Tal perspectiva impõe mecanismos de controle baseados no estabelecimento prévio de padrões de condutas esperados, incluindo formas padronizadas de envelhecer e invisibilizando experiências singulares ( Domingues, 2014 ). Essa concepção encobre a heterogeneidade dos processos de envelhecer, esvaziando sentidos construídos em outras direções. Em cada marca corporal, muitas vezes encoberta por procedimentos estéticos, estão traços da passagem do tempo, testemunhos de uma história e um tempo.

Na contramão dessa lógica, experiências nas quais se garanta ao velho o lugar de narrador privilegiado das transformações ao longo do tempo e das relações interpessoais e geracionais podem propiciar saúde, bem-estar e percepções positivas de pertencimento (Bosi, 2004; Domingues, 2014 ). A criação artística por meio de oficinas de contação de histórias de vida reflete o que May (1975) denomina coragem de criar. Trata-se de um convite para realizar algo novo e, por isso, sem guias ou referências, a não ser as próprias histórias. May (1975) considera criatividade como “a manifestação básica de um homem realizando o seu eu no mundo” (p. 38), sugerindo que deve ser estudada como a representação do nível mais alto de saúde emocional, expressão de si na ação de atingir a própria realidade.

A estratégia metodológica adotada para a realização deste estudo foi a pesquisa-ação que configura um tipo de pesquisa participante engajada, distinta da pesquisa tradicional, considerada não-reativa e objetiva ( Engel, 2000 ). A pesquisa-ação procura unir a pesquisa à ação prática, desenvolver o conhecimento e a compreensão como parte de uma prática. Este artigo, portanto, tem por objetivo descrever e examinar efeitos de uma pesquisa-ação, através de oficinas de contação de histórias com sujeitos velhos, em situação de vulnerabilidade social, frequentadores do Programa de Idosos de uma organização não-governamental (ONG) no Subúrbio Ferroviário de Salvador, Bahia, facilitadas por uma psicóloga e uma diretora de teatro. Como objetivos específicos, destacam-se: investigar eventuais ganhos de construção de autonomia e melhoria de qualidade de vida e discutir efeitos da pesquisa-ação para ressignificação do processo de envelhecimento.

Na primeira parte, descrevemos a pesquisa-ação e, em seguida, destacamos estruturação, organização, planejamento e desenvolvimento das oficinas de contação de histórias. Por fim, discutimos os resultados obtidos, com uma reflexão sobre a condução do processo, por parte das facilitadoras e dos sujeitos que aceitaram participar das oficinas. A memória é considerada neste estudo como fonte inesgotável de experiências, construídas por cada um numa coletividade (Bosi, 2004).

Configurando o desafio de uma pesquisa-ação

Na década de 1960, na área de sociologia, rapidamente tomou corpo a ideia de que o cientista social deveria sair de seu isolamento, assumindo as consequências dos resultados de suas pesquisas, com vistas a interferir no curso dos acontecimentos ( Engel, 2000 ). Um dos pioneiros da pesquisa-ação foi Kurt Lewin (1890-1947) que ousou ir além do estudo ou da observação do problema in loco, mas participar dele, conviver com a dor dos sujeitos para compreender clinicamente seus problemas; observar, descrever, analisar e devolver a escuta na busca do conhecimento (Lewin, 1978).

Barbier (1985) defende que a gênese social precede a gênese teórica, afirmando que assim como a sociologia americana investigou problemas sociais em zonas urbanas após a Primeira Guerra Mundial, a pesquisa-ação se desenvolveu após a Segunda Guerra Mundial a partir do doloroso e criminoso processo de genocídio do povo judeu. Tal acontecimento repercutiu diretamente nas escolhas metodológicas de Lewin (Barbier, 2007). Segundo Mailhiot (1985), Lewin, por ser judeu, fora forçado pelos nazistas a abandonar a Alemanha com a família em 1933, pagando para não ser recolhido a um campo de concentração. A indignação de Lewin o estimulou a tentar compreender como os judeus puderam suportar essa situação (Mailhiot, 1985). Sujeito do próprio processo que questionava, Lewin propôs que ele próprio poderia ser considerado sujeito da investigação, usufruindo diretamente desse processo, resol-vendo seus próprios problemas para aprender a pesquisar e se apropriar da sua realidade.

Zuniga (1981 ) refere-se a duas modalidades de pesquisa-ação: uma, inaugurada por Kurt Lewin, constitui-se numa reação à separação entre pensamento e ação; a segunda ligada a um “projeto político crítico, reivindicativo e marginal” ( Zuniga, 1981 , p. 40) tendo em Paulo Freire seu fundador. O caráter participativo da pesquisa-ação, tal como a define Zuniga (1981 ), começa pela palavra com que designa os sujeitos envolvidos: “participantes, que devem ser considerados sujeitos ativos, devendo conhecer os produtos da pesquisa e defender os critérios de utilidade para a comunidade ou grupo” (p. 35). A comunidade pôde tornar-se, assim, o próprio pesquisador em ação, mediado pelo proponente inicial (Melo, Maia Filho, & Chaves, 2016).

Engel (2000 ) diz que esse tipo de pesquisa constitui meio de desenvolvimento profissional de dentro para fora, pois advém de preocupações e interesses dos sujeitos na prática, envolvendo-os em seu próprio meio. Não há verdades científicas absolutas; todo conhecimento é provisório e dependente do contexto histórico, no qual fenômenos podem ser observados e interpretados ( Engel, 2000 ). Dessa maneira, fenômenos sociais só se revelam quando pesquisadores estão dispostos a se engajar pessoalmente, observando, diagnosticando e intervindo nos processos (Lewin, 1965). Dito de outra forma, fenômenos sociais não podem ser observados do exterior nem de modo estático.

Uma das características desse tipo de pesquisa é buscar intervir na realidade de modo inaugural, no decorrer do próprio processo de pesquisa e não apenas como possível consequência de uma recomendação, na etapa final do projeto ( Engel, 2000 ; Thiollent, 2008). A pesquisa-ação encontra um contexto favorável quando pesquisadores não querem limitar suas investigações a aspectos acadêmicos e burocráticos da maioria das pesquisas convencionais.

Barbier (2007) amplia ainda mais essa compreensão quando afirma que se trata de um estudo psicológico cujo objetivo é a transformação psicossocial, a partir do trabalho de campo. Melo et al. (2016) entendem como psicossocial o fenômeno que é simultaneamente social e psicológico, em que o efeito da interação social é assumido pelo sujeito como sendo seu e sentido pelo grupo social, como a unidade dessa diversidade. É nesse âmbito que a pesquisa psicológica de campo ou a pesquisa-ação implicam a “clínica do social”. Para Lewin (1978), “é preciso estabelecer processos de averiguação de fatos, olhos e ouvidos sociais, bem no interior dos corpos de ação social” (p. 220). A temática de intervenção e transformação está vinculada à aspiração de tornar a psicologia social uma ciência da ação. Barbier (1985) situa a pesquisa-ação entre a psicologia clínica e a sociologia clínica, afirmando que:

o objetivo do método clínico em ciências sociais é … explorar o comportamento e as representações de um sujeito ou de um grupo de sujeitos diante de uma situação concreta, para compreender-lhes o sentido, colocando-se alternadamente na perspectiva de observador e na de sujeitos-atores e de sua vivência (p. 46).

A pesquisa-ação conquistou reconhecimento especialmente na América Latina, como metodologia participativa, e sobretudo emancipadora, ancorada na teologia da libertação ( Padilla, 2017 ). Conforme Selener (1997), trata-se de “um processo pelo qual membros de um grupo ou uma comunidade oprimida, coletam e analisam informação, e atuam sobre os seus problemas com o propósito de encontrar soluções e promover transformações políticas e sociais” (p. 17).

Em resumo, pesquisa-ação é ao mesmo tempo metodologia de resolução de problemas psicossociais e investigação científica e teórica sobre um problema. Sua premissa é que se somos parte do problema, o grupo, como um todo dinâmico do qual fazemos parte, pode investigá-lo e propor soluções melhores do que um pesquisador isolado e externo ao grupo. Os sujeitos envolvidos são parte significativa do problema pesquisado e sua resolução será atravessada pela mudança de comportamento na comunidade (Melo et al., 2016 ). Nesse processo, instaura-se ou evidencia-se a natureza psicossociológica do fenômeno, pois é o sujeito na interação com o outro que modifica a si, ao outro, ao grupo e à sociedade. Assim, sociedade, grupo e sujeito já não estão mais em oposição. Teoria e prática não se separam, mas se reconstroem em uma unidade que paradoxalmente não era visível.

Método

O desenho metodológico utilizado neste trabalho foi a pesquisa-ação e teve lugar em uma ONG localizada no Subúrbio Ferroviário de Salvador, Bahia, cujo objetivo institucional é assegurar proteção social dos moradores da região, por meio de atividades socioassistenciais e socioeducativas com vistas à promoção integral de famílias e de velhos inscritos em sua unidade. O programa promove ações que visam ao fortalecimento de vínculos, à prevenção da institucionalização e ao acesso a benefícios e serviços previstos nas políticas públicas nacionais. Os usuários da ONG são cadastrados, entrevistados e recebem visita domiciliar para a seleção dos mais vulneráveis socialmente. Critérios para avaliar grau de vulnerabilidade envolvem condições financeiras, de saúde, alimentação, moradia, violência, apoio social e familiar. Atualmente o programa conta com 50 pessoas inscritas e 30 frequentadores regulares, que comparecem semanalmente para atividades propostas pela instituição e parceiros (universidades, biblioteca do bairro, posto de saúde e outros). Muitos usuários se afastam em determinados momentos por motivos pessoais, como internações ou limitações físicas. Somente em caso de morte, a vaga é aberta para novos participantes.

Participantes e procedimentos para coleta de dados

Os participantes eram frequentadores do programa de idosos da instituição e todos foram apresentados à proposta e convidados a participar voluntariamente das oficinas, após apresentação do projeto e dos objetivos. De um total de 30 pessoas que participavam regularmente das atividades institucionais, apenas uma era homem. Atenderam ao convite 17 mulheres e o único homem do grupo, com idades entre 60 e 90 anos, totalizando 18 participantes. Não houve recusa de nenhum participante, pelo contrário. Todos os 30 membros acolheram a proposta com entusiasmo. Porém, cerca de 40% tinha grandes dificuldades para atender ao convite, alguns por conta de limitações físicas e outros por não contarem sistematicamente com ajuda de familiares para chegar à instituição. Existe uma enorme discrepância na distribuição do grupo no que diz respeito a sexo. Conforme dito acima, durante o período, apenas um homem estava participando das atividades do centro. Como nosso trabalho não visava estabelecer comparações entre sexos nem discutir a categoria gênero, e como o único sujeito homem quis participar, decidimos aceitar a composição voluntária do grupo.

As oficinas foram pensadas, apresentadas e coordenadas por três pessoas: uma psicóloga, à época mestranda em psicologia e uma atriz e diretora de teatro, doutoranda em artes cênicas, orientadas pela professora que participa de ambos os programas. As duas primeiras foram facilitadoras das oficinas e ambas se encarregaram da coleta dos dados e transcrição das falas. Na tentativa de borrar fronteiras hierárquicas, a cada encontro, modificações podiam acontecer em função da disponibilidade de cada participante, sem perder, contudo, a ideia da produção colaborativa, socialmente referenciada e com vistas à produção de uma encenação, momento culminante desse trajeto criativo-investigativo. Não se tratou de um trabalho com finalidade terapêutica, embora evidentemente tenha produzido efeitos dessa natureza. O propósito central foi potencializar a criação e a invenção de nós mesmas em grupo, com o grupo e nunca para ou sobre o grupo.

O projeto foi aprovado no Comitê de Ética (Plataforma Brasil), sob o número 1.916.799. As oficinas aconteceram entre fevereiro e abril de 2017, com encontros semanais de 2 horas e 30 minutos, totalizando sete encontros. Houve bastante aderência às oficinas, com média de participação entre 13 e 15 pessoas por encontro. A atividade foi subdividida em três principais momentos descritos abaixo.

Foi assegurado o anonimato dos participantes, com substituição de seus nomes para nomes escolhidos pelos próprios sujeitos. A análise dos dados, realizada no período entre abril e julho de 2017, foi apresentada e discutida com todos os participantes, que puderam conhecer, opinar e mesmo contradizer nossas observações.

Delineamento e organização dos encontros

Segundo Rabelo e Neri (2013), o primeiro passo numa intervenção com velhos é compreender em que contexto se pretende propor a prática, ligado diretamente à elaboração da demanda do grupo. Braga (2014) afirma que o psicólogo precisa estar ciente de demandas de instituições ou da comunidade que traduzem hierarquias, organizações e discursos relativos às experiências nesse contexto que envolve uma multiplicidade de fatores associados a desigualdade, exclusão e vulnerabilidade social (Rabelo & Neri, 2013). O trabalho deve contar com o consentimento do grupo e o estabelecimento de uma relação que faça sentido para todos.

Rabelo e Neri (2013) propõem uma estrutura ampla dos encontros, que pode ser flexibilizada. Nesta pesquisa-ação, essa estruturação foi seguida em seu escopo geral e fluiu de forma intensa e sem problemas, seguindo o delineamento geral. No primeiro encontro com acolhimento, integração, apresentação dos coordenadores, participantes e objetivos do trabalho; exploração de expectativas e temas de interesse do grupo; esclarecer normas e funcionamento do grupo; cronograma dos encontros (horário de início, duração, periodicidade e local). Em seguida, com os procedimentos ajustados, solicitamos autorização por escrito de todos mediante o termo de consentimento livre e esclarecido lido, discutido no grupo. Do segundo encontro até o penúltimo, cada oficina teve um objetivo central, um tema gerador, da infância até a velhice. Três fases compuseram os encontros: 1. Aquecimento (rapport, preparação para o tema, sensibilização, recordação do trabalho da semana anterior); 2. desenvolvimento das atividades relacionadas ao tema central (exercícios, dramatização, jogos dramáticos, discussão de casos, recursos musicais e literários); 3. síntese final e avaliação do trabalho (visualização da produção do grupo, pontos principais, comentários, percepções e emoções suscitadas, e avaliação das atividades).

Com base no diagnóstico e nos resultados esperados em cada encontro, foram identificadas lacunas entre “o que o grupo é” e “o que pode vir a ser”. Nessa discussão sobre o ponto de partida real e o ideal, fomos consolidando e reestruturando o planejamento a cada encontro. Último encontro: revisão do trabalho desenvolvido, avaliação geral e despedida. Por fim, a apresentação do espetáculo “Contar histórias: Uma arte sem idade”, como uma síntese de todo o trabalho, para outros usuários da ONG, trabalhadores e parceiros. Além do último encontro, três meses após a coleta de dados, a pesquisadora principal organizou mais um encontro para apresentar e discutir as principais conclusões e resultados obtidos, de forma que cada sujeito pudesse participar, opinar e avaliar o processo. Rabelo & Neri (2013) e Sarriera, Silva, Pizzinato, Zago, e Meira (2004) compreendem que, apesar de não serem caracterizadas como psicoterapia, intervenções psicossociais envolvem a dimensão afetivo-emocional e das expectativas dos participantes, sendo ao mesmo tempo pedagógico e terapêutico. O direito à livre expressão e à responsabilização de todos precisa estar incorporado, facilitando conscientização e autonomia, vivido e experimentado pelo grupo, a partir de sua própria percepção (Batistoni, Ferreira & Rabelo, 2016; Sarriera et al., 2004). Foi preciso adaptação e flexibilidade para atuar com um grupo em que limitações físicas andavam lado a lado com abertura para o encontro e para as improvisações criativas.

Resultados e discussão

A base epistêmica para a análise está fundamentada na epistemologia qualitativa (Rey, 2005) de pesquisa com enfoque fenomenológico (Andrade & Holanda, 2010). Nesta perspectiva, partimos de uma repetida e intensa leitura das narrativas coletadas, visando à construção de categorias que emergiram desse material, das falas transcritas às posturas corporais registradas em vídeo. A busca do significado da experiência consiste na finalidade das pesquisas fenomenológicas, partindo do pressuposto metodológico que o sujeito-colaborador sabe sobre a sua própria experiência e participa da construção desta (Andrade & Holanda, 2010).

Para este procedimento, seguimos os passos propostos por Giorgi (1985 ), que consistem em: 1) leitura geral do material, 2) definição de unidades de sentido, 3) expressão das unidades na perspectiva escolhida pelo pesquisador, e 4) formulação de uma síntese das unidades.

A primeira etapa de análise envolveu a leitura integral da transcrição das oficinas, além de assistir repetidamente as gravações na íntegra.

A segunda etapa consistiu em revisar os depoimentos e assistir aos vídeos mais uma vez, para demarcar as unidades de sentido, identificar e nomear percepções, experiências, opiniões, conhecimentos e sentimentos expressos nas falas e gestos ( Giorgi , 1985 ). Primeiramente as unidades foram demarcadas pelos próprios termos utilizados pelos participantes, contando com indicações de frases elucidativas, que foram retiradas diretamente desta transcrição.

Para gerar a convergência dos temas e unidades de categorias, transformamos os termos utilizados pelos participantes em termos analíticos, gerando as categorias que seguem abaixo.

A terceira e quarta etapas trataram de uma síntese descritiva que traz a concretude intersubjetiva da pesquisa. A leitura das transcrições foi conduzida no sentido de agrupar categorias emergentes e significativas a serem confrontadas com o que sobressai no estado da arte sobre a temática.

Dificuldades e limitações no trabalho

Iniciaremos refletindo, comparando e contrapondo aspectos encontrados na literatura e em nosso estudo, referentes a dificuldades e limitações da atuação. A primeira adversidade esteve relacionada à limitação física. Exercícios e técnicas projetados para ser utilizados ao longo das oficinas precisaram sofrer adaptações para aquelas pessoas, exigindo atenção em relação a movimentação, locomoção e tempo para ficar de pé, corroborando com trabalhos de Camarano (2013) e de Baldin e Magnabos-co-Martins (2015). A grande diferença entre as idades (60-90 anos) demandava limites variáveis no próprio grupo, impondo flexibilidade no planejamento e na execução das propostas. Tais limitações, no entanto, não impediram que o trabalho acontecesse de forma fluida e divertida, e assim todos participavam a seu modo.

Baldin e Magnabosco-Martins (2015) e Venancio (2013 ) apontam dificuldade na realização de atividades continuadas em encontros sucessivos com grupos de velhos, pois raros são os que participam de todos os encontros. Para os autores, a montagem de uma peça parecia inviável ou de extrema dificuldade. Em contraste, nosso grupo foi extremamente assíduo, participativo e a encenação aconteceu com sucesso. Houve faltas e atrasos, decorrentes das condições de transporte e de adoecimentos esporádicos, mas vários frequentaram todos os encontros e outros faltaram um ou dois, de forma alternada, não comprometendo o desenvolvimento das oficinas e a preparação do espetáculo.

Propusemos, na quarta oficina, uma improvisação que consistia em uma cena onde o grupo ia viajar para um encontro em outra cidade, com vários grupos de idosos do Brasil (eles escolheram ficticiamente a cidade de Minas Gerais). Dois representantes tinham que apresentar o grupo no encontro e uma das características mencionadas foi justamente a assiduidade, reforçando a nossa percepção.

Alice: O nosso grupo é (nome da ONG). A gente se sente bem, uma vez na semana es-tamos lá! A frequência é muito boa, toda semana nós estamos lá e o nosso grupo é muito importante.

Participantes que se ausentavam lamentavam no dia seguinte, e incluíamos cada ausente no início do trabalho, para lembrar a importância da presença de cada um naquele espaço.

Fernanda: Vamos lembrar aqui quem está ausente, né? Essa roda tá faltando gente, não tá?

E cada um ia citando os nomes que a memória alcançava.

Pedro: Eu sexta feira estava lá, tinha gente assim (faz movimento nas mãos para mostrar que estava cheio), e eu pensando em vocês aqui.

Sol: Fiquei doente nessas semanas e senti muita saudade!

Deps (1999 ) sinaliza uma dificuldade que se instala em relação à perspectiva do tempo futuro que, em grupos de velhos é, geralmente, mais curta. Em seus estudos, muitos demons-travam pouca ou nenhuma motivação em começar atividades. Diz ainda que, além das poucas expectativas que o meio oferece, muitos velhos acreditam que não têm mais o que fazer e renunciam a seus projetos. Nossas percepções, no entanto, foram contrárias às de Deps (1999 ) e semelhantes às de Batistoni et al. (2016), que evidenciam um bom retorno dos velhos em intervenções psicológicas gerais. Não sem sofrimento pelas perdas e condições difíceis de vida, e muitas vezes manifestando sofrimento nos encontros, eram extremamente motivados com as atividades, afirmando, desde o primeiro encontro, vontade e alegria de participar, com receptividade à proposta.

Alice: Eu acho o programa que vocês querem fazer importante, né? Se der mesmo certo é bom, né? Agora... estava faltando vocês aqui... (Começa a cantar) Bem-vindo em nosso grupo! (Sorri).

Felicidade: Meu nome é Felicidade. Estava precisando de vocês! Pra alegrar!

Os participantes relataram desejos e sonhos que permaneceram, exprimindo vontade de viver e de realizar, dentro das possibilidades, concordando com estudos de Goldenberg (2013). Isso pôde ser observado no momento em que propusemos improvisação sobre um encontro entre dois amigos de 15 anos num ponto de ônibus. Eles deviam falar sobre o que queriam ser na vida adulta. Em outra cena, os atores estavam com a idade atual, se encontravam no mesmo ponto, e conversavam sobre o que realizaram e o que queriam realizar.

Pedro: Mas agora, futuramente eu quero ir a Natal, quero visitar uma cidade que eu adoro! E de lá quero ir a Goiás, em São Francisco de Assis.

Juventude: Deus vai te ajudar que você vai fazer o que você pensa! Eu quero passear aqui mesmo! Ir em Caruaru, molhar os panos pendurados, comprar calcinha, comprar tudo, comprar um short pra dar um mergulho (riem).

Rompimento de estereótipos sociais negativos sobre velhice

Giglio (2007 ) observa que, com o decorrer do envelhecimento, atividades relacionadas à arte criam espaço importante para expressão de sentimentos, evitando que o velho fique “confinado a uma roda social estritamente familiar ou grupos etários, que traz empobrecimento lamentável para a pessoa e a comunidade” (p. 83). As oficinas representaram uma forma de romper preconceitos como desgaste, enfraquecimento e diminuição das capacidades funcionais, fatores determinados por doenças ou debilidades físicas, assim como decréscimo de condições psicossociais (Stuart-Hamilton, 2002; Venturi & Bokany, 2007).

Juventude: Porque eu tenho um filho que diz ‘eu não acredito que a senhora está doente. A senhora diz que tá doente mas fica pra cima e pra baixo. Sabe o que é que eu digo a ele? ‘Não me entrego’.

A postura dialógica e inclusiva foi respeitada e estimulada. Havia espaço para que cada pessoa incluísse práticas agradáveis, decidisse e opinasse sobre a proposta e escutasse sua própria voz, nas cantigas de roda, nas histórias ou nas discussões.

Felicidade: Vocês tão dando mais espaço, né? Pra gente se comunicar mais ainda. Pra gente se comunicar também com vocês e vocês com a gente!

Principalmente nas primeiras oficinas, havia discursos negativos sobre o próprio processo de envelhecer, incluindo a negação e a chacota, ao mencionar o envelhecimento.

Bruna: Eu posso fazer a prece com vocês?

Bárbara: Você aqui pode tudo! Só não pode ficar velha igual à gente (sorri).

Bruna: Como não? Eu quero ficar velha assim, com a vitalidade de vocês!

Chamou-nos a atenção o quanto houve de ressignificação sobre o próprio processo de envelhecer, que passou a ser integrado como positivo e defendido caso outra pessoa mantivesse o discurso negativo. O espaço das oficinas permitiu que os sujeitos confrontassem a realidade e se apoiassem em seus referenciais existenciais para criar possibilidades de romper com estereótipos, podendo superar uma ideia de envelhecer marcada apenas por perdas e déficit, conforme apontam Azambuja (2005 ) e Giglio (2007 ).

Daniela Mercury: Essas músicas são chatas, de velho! Eu gosto é de lambada!!!

Felicidade: E você é o quê? Somos todas velhas, minha filha!

Daniela Mercury: De velho não quero nada, nem namorado. Coisa chata!

Fátima: Estamos num grupo de velhas! Você não é nova. Tem que entender!

Felicidade: Envelhecer com boa saúde, lembrar das coisas diante da mente, o que está acontecendo agora, na terceira idade. Quer dizer, na idade da gente pra idade de agora, tá bem melhor pro idoso.

Foi possível problematizar o imaginário social que liga velhice a comportamentos cristalizados, inatividade e improdutividade. Essas ideias vão sendo deslocadas, pois, como apontam Azambuja (2005 ) e Giglio (2007 ), a produção artística é uma atividade capaz de fomentar autonomia e protagonismo social de alguém que continua se desenvolvendo enquanto vivencia a velhice. Trata-se de romper com comportamentos engessados por anos de trabalho que esses velhos dedicaram à família, ao trabalho formal e a outras tarefas e aproveitar atividades possibilitadas pelo maior tempo livre e os benefícios adquiridos com a velhice (Venturi & Bokany, 2007).

Fátima: A coisa mais maravilhosa do mundo foi Deus me dar essa vida, pra me dar 79 anos e eu achei maravilhoso eu ser independente de mim mesma! Minha velhice é independência. Sou feliz na minha vida! Vivo independente, saio a hora que eu quero, chego a hora que eu quero, deito a hora que eu quero, levanto a hora que eu quero, só Deus na minha vida e pronto!

O protagonismo foi estimulado, sem perder de vista o respeito às opiniões, com apresentações criativas e improvisações, escuta ativa entre elas mesmas e da nossa parte para com elas, além de suporte emocional e encorajamento à exposição e contato ao longo do processo.

Fernanda: Vocês podem escolher uma canção pra abrir nosso encontro hoje.

Sol: Qualquer música? Qualquer uma que eu queira? Pode ser de roda?

Sol começa a cantar a música “Ó que noite tão bonita” e balançar levemente o corpo no ritmo. Todas acompanham na canção e no movimento do corpo. Ao finalizar a canção, Lua Branca segue no ritmo e faz uma rima com outra letra, sequenciando no coral de todas as vozes no refrão. Alice faz o mesmo, assim que Lua Branca termina. Ana Paula puxa nova versão e todas aplaudem no final. Fomos surpreendidas pelas criações das novas versões e o quanto elas conseguiram estimular-se mutuamente e se expor, fato que voltou a ocorrer em oficinas posteriores, como sugestão do grupo.

Alice: Oh, fia, todos nós temos que amar nós próprios, porque se você não amar a você própria, você não ama mais ninguém. É você se cuidar e se amar você mesmo! Eu me amo e eu gosto é de mim.

Felicidade: Primeiro eu, depois eu, por último eu! E eu! (Ri).

Fizemos questão de estruturar a organização do espetáculo final com a participação e construção do roteiro a partir da discussão grupal. Na roda da penúltima oficina, discutimos a importância de contar histórias para outras gerações, o que elas gostariam de trazer, como isso ocorria em seus espaços pessoais, “pescando” nos discursos uma possível estrutura de roteiro para a apresentação.

Patrícia: Noite de lua ficava todo mundo do lado de fora, colocava as esteiras, pra escutar histórias, contar verso...

Fernanda: Então vamos começar nossa apresentação assim? Você fala ‘Numa noite de lua cheia, nossos pais colocavam as esteiras do lado de fora para escutar histórias e contar versos’. O que acham?

A exigência de respeito esteve presente nos discursos de forma muito mais constante, demonstrando ampliação da consciência política e de seus espaços e lugares no mundo e na sociedade, corroborando com as propostas de transformação social presentes na pesquisa-ação (Barbier, 1985; Freire, 1992; Lewin, 1978; Padilla, 2017 ).

Pedro: Sou um sujeito que gosta da verdade, da honestidade, do respeito mútuo, não interessa cor nem qualidade, tem que ser respeitado. E o ser humano nessa vida tem que ser tratado como gente e não como um bicho, como os políticos tão tratando a gente.

Alice: Envelhecer é o nosso passado da vida. A gente já foi criança, adolescente e já chegou agora a velhice. Então a gente quer respeito, que todo mundo tenha respeito por nós, né isso?

Integração grupal e fortalecimento de vínculos

Motivação e engajamento relacionam-se a fatores intrínsecos e extrínsecos ao grupo (Libanio, 2001). No trabalho grupal devemos estar envolvidos e comprometidos uns com os outros, além de atentos para a relevância das temáticas propostas na transformação do contexto social. Libanio (2001) afirma que o grupo é o lugar de aprender a ser e conviver, a partir das experiências de vida. O processo desencadeado pela pesquisa-ação exige participação engajada e promissora, para o fortalecimento do grupo.

Fernanda: Bom, mas agora que vocês estão todos aqui olhando para mim, vou pedir que um voluntário venha aqui para o meio. Uma corajosa.

Alice: (caminha para o centro): eu não queria vir porque não sei o que é!

Fernanda: Você confia no seu grupo? (Aponta para a roda).

Alice: Confio. O povo aí é honesto! (Após caminhar para o centro da roda, com alguma resistência, todos os participantes aqueceram as mãos, friccionando, e tocam em alguma parte do corpo, enviando positividades, enquanto ela mantinha os olhos fechados).

Alice: Obrigada! Foi uma sensação muito boa, viu? Foi de amor. Só teve amor. Todo mundo teve amor pra me dar, graças ao bom Deus!

Fortalecer o vínculo grupal implica compreender a transformação, incluindo o entendimento de que ela se dá por processos inerentes ao grupo, não porque foram recomendadas por familiar, amigo ou profissional, mas porque a comunicação interpessoal tem mais peso sobre comportamentos do que a simples transmissão de informações (Rabelo & Neri, 2013). A participação em um grupo permite reavaliar o senso de identidade, papel e lugar que ocupa na sociedade, na família, podendo reconfigurar o senso de pertencimento.

Lua Branca: Eu dei a minhas amigas muito amor, muito carinho, muita felicidade. Todo dia eu prezo por elas, peço saúde, felicidade, tudo de bom pra elas. E vocês, excelente! O trabalho foi ex-ce-len-te pra gente! Pra mim principalmente, que tava doente, pra baixo, deu uma suspendida e tanto.

Consideramos importante a forma como algumas se apresentaram durante as primeiras oficinas, atribuindo à participação no grupo uma confirmação da identidade, trazendo posteriormente características pessoais e psicológicas como sua identificação.

Fernanda: E quem é você Ana Paula?

Ana Paula: Eu convivo aqui na ONG desde 1999. E gosto de minhas companheiras, gosto de trabalhar nas atividades.

Outro dado que fortalece o poder do grupo sobre os participantes é demonstrado pelo fato de que quando algumas tinham dificuldade de falar sobre si mesmas, o grupo era convidado a falar o que achavam daquela pessoa, de forma que a pessoa se sentia mais segura na atividade. O grupo funcionou como catalisador e estímulo à participação dos integrantes, promovendo confiança e abertura diante do risco de se expor.

Fernanda: ... E... quem é você? (na segunda tentativa).

Prosperidade: (Solta as mãos, abre os braços de vez e diz) Prosperidade.

Fernanda: Quem ajuda aí, quem é Prosperidade? (Prosperidade cruza novamente os braços em volta da barriga).

Felicidade: Ah.. ela é uma boa camarada!

Neves: ... boa pessoa! (fala com empolgação e abraça Prosperidade).

Prosperidade: Não sou nascida aqui, sou do interior, Conceição de Salinas.

Ludicidade, desinibição e criatividade

A proposta, consonante com estudos e intervenções de Venancio (2013 ), não foi iniciar uma formação teatral, mas convidar sujeitos, através de recursos dramáticos, a lançar novos olhares sobre si, o entorno e suas criações. O jogo, nessa perspectiva, auxilia o desenvolvimento desses recursos, ao estimular atuações vinculadas ao processo criativo.

Fátima: Quero dizer pra você que estou feliz. Cada dia a gente se sente mais alegre, mais com o talento mais forte, mais animada e mais alegre.

Como aponta Venancio (2013 ), o jogo constitui um ensaio sem risco, na medida em que pode ser sempre reiniciado, sendo a passagem do real ao lúdico, permitindo enfrentar o medo face a situações semelhantes no cotidiano. May (1975) complementa que não se pode querer a criatividade, mas se pode usar à vontade para promover encontros, intensificando a dedicação e o compromisso para criar. O grau de compromisso de uma pessoa com o encontro se relaciona diretamente com a ativação de aspectos mais profundos da percepção. Foi justamente o que exercitamos nas oficinas. Um estímulo ao encontro consciente uns com os ou-tros, consigo mesmos, com o toque, com o olhar no espelho, com nítida ampliação do nível de comprometimento, de presença, da apropriação da criatividade, da capacidade de abstração e do contato entre os participantes.

A capacidade de abstração, incluindo a possibilidade de lembrar cheiros, sensações e sentimentos, difíceis nos primeiros momentos, tornou-se mais fluida com o tempo.

Fernanda: ... e aí a pessoa enquanto tá equi-librando a bola, vai me responder algumas coisas que vou perguntar. Por exemplo: infância tem cheiro de quê? (Juventude conta história da infância).

Fernanda: E o cheiro?

Juventude: O cheiro? De água de floooor...

Em uma das atividades de improvisação, foi pedido que cada participante se apresentasse por meio de três fotografias, que deveriam ser pensadas e apresentadas para o grupo. Primeiro, apresentaram-se nas duplas, depois para todo o grupo. Como muitos esqueciam, trabalhamos o estímulo à improvisação.

Pedro: Agora vou te dizer uma coisa, eu já não me lembro mais das fotos.

Fernanda: Inventa na hora! (Pedro além de improvisar novas fotografias, fez graça e arrancou sorrisos das colegas).

É importante trazer um dado sobre a presença e o contato. Nas primeiras oficinas propusemos cada um dar um beijo na mão do colega ao lado, passando o afeto para todos da roda. No primeiro momento, não conseguiam se olhar, desviavam o olhar do rosto do colega. Nas últimas oficinas, o olhar era sustentado, sem pressa de desviar o rosto e sem fugir da situação.

Fortalecimento da memória

A última categoria observada foi o estímulo à memória. Embora tenhamos trabalhado o fortalecimento de lembranças, não buscamos verificar empiricamente se houve de fato uma melhora nos níveis de memória. Há evidências de que o desempenho intelectual do velho apresenta discreta deterioração em tarefas que exigem maior velocidade e flexibilidade no processamento de informações e com o passar do tempo essa memória também pode sofrer comprometimento em relação a fases anteriores da vida (Stuart-Hamilton, 2002). A literatura sugere, no entanto, que uma proposta de envelhecimento saudável existe como possibilidade de compensar, ao menos parcialmente, os déficits cognitivos por meio de treino cognitivo e de memória, demonstrando plasticidade cognitiva (Yassuda, Batistoni, Fortes, & Neri, 2006). De acordo com esses autores, a otimização da memória está relacionada a saúde, autonomia e independência do velho. Em cada encontro, o primeiro momento era de relembrar o que acontecera no encontro anterior. Nossos velhos apostaram positivamente que podiam lembrar e o fizeram.

Bruna: Lembram quando a gente chegou, o que fez? A primeira coisa?

Juventude: Nós fizemos... Eu mais seu Pedro sentamos nas cadeiras para conversar os conhecimentos que nós tínhamos.

Pedro: Isso!!! Eu lembro!!! Foi isso mesmo!

Alice: Conversou sobre muitas coisas. Eles falaram a vida deles de adolescentes. Eles começaram a falar a adolescência deles, namoro...

Segundo Miranda (2007 ), no processo acelerado da civilização contemporânea, compreendemos o tempo como algo a ser combatido e rejeitamos e descartamos o que temos de mais precioso: o tempo do velho. Para o autor, a partir das memórias do que fomos e vivemos, evoluímos e podemos escolher um caminho com o que temos de melhor. E é o velho quem tem em seu corpo aprendizados e histórias que nos conduziram até o presente. Nós testemunhamos e incentivamos esse exercício de reconstrução.

Fátima: Estamos abrindo a mente a lembrar do passado (sorri).

Juventude: Tenho problemas de esquecimento, sabe? Mas essas palestras que vocês fazem, sempre que é comigo diretamente eu me lembro.

Júlia: É bom contar história, faz bem. A gente traz o que passou e hoje ninguém vê mais. Então se tiver criança e adolescente ainda é melhor, porque vai saber o tempo da gente. E o tempo da gente não é o tempo de hoje. É muito importante.

Azevedo (2007 ) aponta que, ao ter voz, o velho compreende que o passado experimentado pode existir como referência de presente e futuro. Afirma que registros e marcas do tempo nas pessoas e lugares, se desvelados, podem levar a recuperar o papel e o lugar da história para a compreensão do próprio tempo, das relações sociais e dos direitos e deveres.

Todos os encontros versaram sobre momentos da vida, histórias dos nomes, tempo de infância, adolescência, namoro, juventude, velhice, de forma a rememorar o passado nas histórias individuais e na memória coletiva, compartilhada pelas lembranças de exigências, modos de vida, educação e padrões compartilhados.

Júlia: E vocês são maravilhosas, minha fia, que vocês tá ó (faz gesto com as mãos na cabeça) despertando a mente da gente! Despertando a mente das idosas. Alegrando as idosas. Alegra a mente da gente (sorri).

Estrela da manhã: Lembrança... a recordação das coisas do passado, que vocês fizeram a gente se relembrar.

Considerações finais

A proposta do trabalho consistiu em analisar efeitos de uma pesquisa-ação, sob a forma de oficinas de contação de histórias, com velhos que vivem em situação de vulnerabilidade social, como ferramenta de acesso, compreensão e eventuais transformações do processo de envelhecer. Pudemos perceber que houve reposicionamento do lugar de cada participante em relação a si mesmo, ao grupo e à vida. Ao evitar a busca de verdades históricas e priorizar a captura e a compreensão de versões sobre o passado, reforçamos o senso de autonomia, a criatividade e a identidade nessa permanente construção e reconstrução de mundo.

Percebemos que houve algum reposicionamento político, ou seja, na relação com a pólis, pequenas transformações do cotidiano social, significados e formas de lidar com mudanças suas, dos outros, que são compartilhadas e se modificam contínua e dialeticamente. Não se tratou de ações realizadas de fora, sobre sujeitos passivos, e sem conhecimento de si mesmo e do seu contexto, mas, ao contrário, pressupôs e estimulou ações que visavam ao processo de construção social e pessoal, em uma relação dialógica e horizontal que valoriza o saber de cada pessoa, diferenciando uma prática para de uma prática com.

À medida que nos dirigimos à realidade do outro, e ao intervir nela, fica claro que a modificamos de alguma maneira e também nos modificamos. Do ponto de vista das duas facilitadoras, podemos afirmar que também nos transformamos e refinamos o olhar crítico sobre nossa atuação como profissionais de saúde. A vivência grupal, por si só, já proporciona reflexão sobre a vivência no mundo, valores, direitos e relações com a coletividade. Com pessoas multiplamente estigmatizadas, pela cor da pele, nível educacional, contexto social e idade, como o caso do nosso grupo, as reflexões e trocas tornaram-se ainda mais intensas.

A experiência de pesquisa-ação pôde demonstrar benefícios e exigiu de nós criatividade, persistência e flexibilidade. Os resultados positivos alcançaram tanto os sujeitos participantes do grupo, seu entorno direto, nós, pessoas e pesquisadoras, e os trabalhadores da ONG, que refletiram sobre o seu papel nessa vivência de transformação social.

Os resultados evidenciam a riqueza dessa metodologia que promove transformações no meio em que é aplicada e permite recolher informações coletivamente, processandoas em conhecimentos e saberes relevantes não disponíveis por outras vias. Podemos afirmar que se trata de uma ferramenta eficaz para abordar temas como velhice e envelhecimento, a partir de orientações que se contrapõem a perspectivas biomédicas cartesianas, que tendem a dar maior enfoque à doença e a uma ideia genérica de velhice do que ao sujeito.

Dentro dos pressupostos da pesquisa-ação, e como resultados importantes da intervenção, pudemos identificar aspectos como a promoção de uma participação mais engajada e inclusiva dos membros da comunidade trabalhada, ressignificação do imaginário social negativo ligado à velhice pelos próprios participantes e pelos demais usuários da ONG, ampliação do senso crítico e da exigência por condições de vida e relações sociais mais respeitosas, senso de independência, fortalecimento de perspectivas futuras de vida e realização de projetos pessoais, integração grupal e fortalecimento de vínculos como aspectos que auxiliam no senso de pertencimento e identidade, liberação da ludicidade, espontaneidade e criatividade, bem como sensações de bem-estar. Como dito acima, privilegiamos algumas intervenções para estimular memórias recentes e antigas. Os próprios sujeitos identificaram aquilo que categorizamos como fortalecimento da memória, e isso nos pareceu significativo.

Finalmente, queremos sublinhar que a pesquisa-ação pode ser compreendida como estratégia relevante na prática acadêmica, já que, por meio da interrelação teoria-prática, a universidade também assume um papel ativo e comprometido, e que Padilla (2017 ) chama de investigação responsável, retornando às comunidades um fruto valioso do conhecimento por nós recebido.

Os resultados positivos nos permitem pensar na possibilidade de replicação para outros grupos, em outros contextos, respeitando as nuances de cada grupo e espaço. É fundamental colocar a realidade acima do método e não o contrário, não se podendo situá-la apenas no que cabe diante do previamente escolhido. Pensar na replicação e ampliação deste trabalho mostra-nos que há limitações relativas principalmente à quantidade de participantes e motiva-nos com o reconhecimento da necessidade de expandir estudos sobre o processo de envelhecimento e fortalecer propostas que coloquem o sujeito em posição de autonomia e criticidade, como agente de mudanças em seu contexto próprio.

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Recebido: 17 de Junho de 2018; Aceito: 06 de Dezembro de 2018

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