SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número18Homoerotismo e abjeção em O lugar sem limites de José DonosoVida i sucesos de ia monja alférez de Catalina de Erauso: Construcción de una identidad plural índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Revista

Articulo

Indicadores

Links relacionados

Compartir


Literatura y lingüística

versión impresa ISSN 0716-5811

Lit. lingüíst.  n.18 Santiago  2007

http://dx.doi.org/10.4067/S0716-58112007000100008 

 

Literatura y Lingüística N°18 ISSN 0716-5811 /pp. 145-164

Literatura: artículos y monografías

Deus e o Problema da Existência na Modernidade Tardía. Reflexões sobre o diálogo Teología e Literatura na obra O Ano da Morte de Ricardo Reís

 

Manoel Ribeiro de Moraes Junior*


Resumo

Este artigo investigou a importância da virada hermenêutica ocorrida na metodología teológica, para o reconhecimento do mundo literario como urna esfera cultural fonte de temas íntimos às condições exístênciaís do ser humano. Sendo assim, a díscussão sobre o diálogo "teología e literatura" abre espaco para urna revísão da trad¡ção teológica perguntando-lhe sobre a sua proximídade para com as questões da vida e da morte apoíada numa dimensão inserida na "espiritualidade da vitalidade" para além das verdades canônicas.

Palavras chave: teología, literatura, espiritualidade da vitalidade.


Abstract

This article investigated the importance ofthehermeneutic turn occurred in the theological methodology, for the recognition of the literary world asa sphere culture of themes about to the existentialist conditions of the human being. Being thus, the debate on the dialogue "theology and literature"opens space for a revision of the theological tradition, asking to it about its relations with the questions of the life and of the death in dimension of the of vitality it stops beyond the canonic truths.

Key words: theology, literature, espirituality of vitality


Se reconhecerá quanto é urgente rasgar ou dar sumiço á teología velha e
fazer urna nova teología, toda ao contrarío da outra ...
Urna coísa eu aprendí
É que as verdades são muítas e estão urnas contra as outras, enquanto não
lutarem não se saberá onde está a mentira.
(José Saramago. O Ano da Morte de Ricardo Reis)

Introdução

Interpretar eanalisar criticamente obras literarias de grande envergadura, emais, enfocare discutir temas que se revelam teológicos, exige do pesquisador urna habilidade investigativa aguçada e, ao mesmo tempo, urna sensibilidade estética sem medidas. Porém, mesmo sem ambicionar alvos tão desafiadores, o trabalho "Deus e o problema da existência na modernidade" baseado na obra de José Saramago "O ano da morte de Ricardo Reis" problematiza urna instigante questão que postula não sem motivos a existência de um imaginario filosófico e teológico que alimenta o romancista na criação de um enredo que se mostra revelador as reflexões sobre a condição humana. É provável que Saramago tenha em mentealgumas perguntas que norteiem o roteiro do romance: quais seriam as repercussôes bio-bibliográficas de um ser etéreo, o médico e poeta Ricardo Reis, o mais elegante e refinado heterónimo de Fernando Pessoa, se repentinamente passasse a existir? E diante desse desafio, o que passaria a significar temas como morte, Deus ea vida, para alguém que se expatriou do pantheon poético e imigrou carnalmente para o lebenswelt vivendo paixões, guerras insanas e as angustias da vida e da morte?

Antes de percorrer por reflexões tão instigantes e, por isso, recurrentes na historia do pensamento teológico, filosófico e literario, discutiremos antes como a Teologia pode se alimentar de temas que Ihes são tão importantes como estes, e tão recurrentes em literaturas náo-canónicas como as de José Saramago.

1. Os enlaces entre Teología e Literatura

1.1. Os Fundamentos Investígateos da Teología Tradicional

Para o célebre helenista francés Jean-Pierre Vernant, o pensamento e a linguagem no mundo ocidental criaram varias formas de conhe-cimento. Dentre os muitos destaquemos a filosofia como momento reflexivo e progressi va mente autónomo ao mito, á poética e á religiáo. Para a apreciação de urna idéia no espaco público ocidental, o advento do pensamento crítico-filosófico impós as diversas formas de elaboração e transmissão da linguagem poética e religiosa1, as alternativas de urna acomodação á esfera das preferencias privadas ou, se almejar pretensôes mais universalistas, a de urna transposição de suasôestruturas expressivas aos modelos lingüísticos fundamentados nos discursos lógico-argumentativos em detrimento aqueles metafórico-poéticos.

Quando os intelectuais ocidentais optaram por evitar os "jogos lingüísticos gratuito da imaginação" na construção do conhecimento, restou-lhes então o estilo prosaico para fins explicativos, impregnados de signos literarios que evocam um código semántico unívoco segundo os cánones formáis da dedução matemática. Sob estas novas exigencias intelectuais, a filosofia, as ciencias e a teologia crista se articularam como saberes universalistas em trabalhos tecidos em urna mesma rede de interesses epistemológicos, diferenciando suas averiguacóes, seus métodos, seus credos, confissôes e dogmas, mas decidindo em urna quase-cooperação as significacóes do verdadeiro, do correto e do belo.

Neste contexto, ao fixar a mensagem bíblica e suas expressôes litúrgicas na nova ordem ocidental da verdade, a teologia sucumbiu aos seus discursos as exigencias de urna sistematizado do saber religioso as mesmas do pensamento filosófico. A teologia não só se fez um locus para a aplicação da reflexáo metafísica, mas ao apreciar o modelo metodológico de reflexáo afim ao da verdade filosófica, fez surgir no seio do cristianismo o paradigma onto-teológico como a única forma de sistematizar os principios da fé.

A filosofia se erigiu como crítica e juízo da vida, como o tribunal da razão para julgar e criticar as producóes históricas do homem. A partir desta intuição fundamental, elaborou-se um paradigma de pensamento filosófico, que marcou toda a tradição ocidental e conseqüentemente a tradição teológica: a filosofia se fez metafísica2.

Desta maneira, o pensamentó cristão passou a apoiar-se em preten-sôes de verdade clàssico-ontológicas a mesma que, por sua vez, exigiu do mundo simbólico-textual expressôes unívoco-literais. Por isso, tal como a filosofia clàssica, a teologia tradicional se tornou ingenua por ainda não se ter perguntado pelas possibilidades de se conhecer e interpretar o fenómeno simbólico, social, subjetivo ou natural, pois simplesmente transcendia-se imediatamente dos credos para os seus fundamentos transcendentes,algo já pré-estabelecidos pela epistemologia filosófico-metafísica.

1.2. A Teología na Críse do Pensamento

A modernidade ocidental surgiu em meio as revolucóes urbanas, económicas, religiosas e científicas3. A sua ascensão provocou urna progressiva insatisfação para com o modus vivendi do 'antigo mundo'. A autonomia das ciencias conferiu um privilegio ao pensamento crítico e revisionista que çada vez mais articulava os fundamentos da nova cultura intelectual européia, a partir da consciéncia de que religiáo e o pensamento investigativo deveriam ser refletidos e experimentados no contexto das vivencias. Por isso, a virada antropocéntrica do pensar exigiu da filosofia e da teologia profundas modificacóes no modo de pensar o social, as expressôes simbólicas, a natureza e a subjetividades4.

Este paradigma grego, conservando suas características fundamentáis, passou por duas reviravoltas profundas: em primeiro lugar, quando foi assumido pelo pensamento cristão como mediação da teologia; e, em segundo lugar, á medida que, na modernidade, abandonou a perspectiva cosmocéntrica e assumiu a forma de filosofia da consciéncia, filosofia da subjetividade: mudou-se na direção de urna filosofia antropocéntrica. Seu verdadeiro questionamentó, contudo, sefeza partirda experiencia epocal da historicida-de radical do ser humano, que está nos levando a elaborar um novo paradigma de reflexáo filosófica.

Porém, mesmo rearticulando os fundamentos do saber, tanto a filosofia quanto as ciencias modernas continuaram embevecidas com o ideal redentor prometido pela razão lógico-formal herdada do passado -mesmo quede urna forma nem sempreexplícita e refletida. Porém, cabe a observancia de que o fundamento do saber não esta va mais dependente da estrutura lógica do universo (o manancial imutável da ordem e do devir do cosmos), mas sim da dimensão do entendimento humano.

Incomodado com as promessas da modernidade reflexiva, Goethe insinúaemseu romanceOFausto5 quea ansia humanaem buscar,assumir e ocupar privilegiadamente o epicentro do saber universal seria algo que Ihe proporcionaria nada mais que a simples continuidade nos antigos dramas mitológicos ea angustiante consciéncia de sua limitude existen-cial frente as suas pretensôes. O evento humano não se emancipou nem mesmo no iluminismo tardio, aos conflitos entre céu e inferno, Deus e o Diabo (Mefistófeles), vida e morte. Para o romancista alemáo, ao invés de proporcionar urna ascensão a um estágio superior de sabedoria, a busca de Fausto pelo saber universal Ihe tornaria sim, çada vez mais, escravo das cosmologias religiosas. O Iluminismo moderno revia osfundamentos filosóficos, porém mantinha sem sucesso os mesmos otimismos para com a onipoténcia salvífica da razão6.

Em conseqüéncia as tamanhas críticas que se avolumaram ferren-hamente até a segunda metade do século XX, o pensamento filosófico, científico e teológico, assumiram posicóes mais interpretativas de tal forma que propiciaram a manifestação de urna racionalidade menos exclusivistas e mais receptiva às alteridades epistemológicas de outros jogos de linguagem na construção do saber humano.

Por isso, em consideração às novas exigencias intelectuais do nosso tempo, a teologia deixou-se seduzir pelas infinitas e pluriculturais dimen-sôes da verdade, reconhecendo assim que as expressôes religiosas se manifestam enraizadas na experiencia humana enquanto historicidade contingente ao mundo-vivido ai arrolada. Por isso, afirma Geffré que a teologia entendida como hermenéutica "convida, particularmente, a não reduzirmos os significantes da revelação às suas expressôes conceptuáis e a não identificarmos pura e simplesmente a razão teológica com a razão especulativa"7.

1.3. Teología e Literatura

Para Hegel, as artes são aquelas expressôes intelectuais que enearnam ¡mediatamente as figuras do Espirito Absoluto. Aindamáis, para o filósofo alemáo, as artes líricas são aquelas que transcendem a simples figuração e, por isso, são capazes de celebrar o Ser Originario8. Porém, num momento pós-metafísico da razão que compartilhamos em nossa época, teses como esta pode soar pouco elucidativa. Contudo, considerando ser possível urna idéia de estética implícita á sua filosofía do espirito, teses lecionadas emlena no período entre 1804e 1806, poder-se-iaentão reconstruir um conceito de arte que descobre ñas artes líricas um enaltecimento do absoluto não mais como um fenómeno do transcendente, mas como urna expressão da unidade simbólica socialmente compartilhada9. Masôesta destrancendentalizaçãodo pensamento estético percebida rápidamente no pensamento de Hegel, é algo muito mais pertinente ñas diversas figuras do pensamento filosófico do século XX do que propriamente no seu sistema filosófico tardio.

Em Heidegger, pensamento eexistência coabitam na linguagem, pois "a linguagem é a casa do ser e que nela morando o homem ec-siste, na medida em que pertence á verdade do ser"10. Por isso, as artes oníricas não são expressôes de pensamento inferior á filosofía ou á teología11.

A poesia e a Arte estão intimamente ligadas pelo dizer projetante. D\ze( da desocultação do ente, que éum poetar - pensante, construido na verdade do ser do ente, mediante a linguagem inaugural. Mas o pensar filosófico de identifica ao poetar-cantar? Segundo Heidegger, a linguagem filosófica é urna linguagem que não tern compromisso com o canto, simplesmente se dá num processo de meditação; diferente da poesia que mantém a estreita ligação do sere tempo, no ritmo. Pensar [denken) e portar (dichten) estão no mesmo solo, mas vivem em montanhas separadas12.

Conforme estas novas imagens de pensamento que redescobriram o papel da arte literaria no espaco das atividades intelectuais, coube á filosofía eá teologia desobrigarem-seda ambição de imperadores do saber, desta forma, assumirem urna posição mais singela na participação da construção do saber sobre a realidade que circunda o mundo. É sob estes novos desafios, cabe então ao pensamento especulativo abandonar os recursos cognitivos das racionalidades clàssico-modernas,eassim abracar a grandiosa tarefa de inaugurar a época de urna razão hermenéutica. Ou seja, o saber teológico deve assumir a condição humana em sua dimen-são de abertura infinita, e não justapó-lo como algo ontologicamente definido e condicionado a urna dimensão ascética, reconhecendo-o capaz de criar diversos níveis de estruturas discursivas e expressivas em geral, seguindo criterios próprios as de suas ricas imagens culturáis que çada um compartilha no contexto de suas vivencias13. Em reforco a esta tese, o artigo do professor Magalháes Representagóes do bemedo malem perspectiva teológico-literárío, que desenvolve um trabalho propedéutico na proposta do diálogo entre teologia e literatura para interpretado do fenómeno religioso, afirma que a tarefa da teologia abre-se não so-mente como "dogma ou catequese confessional da cultura, mas como hermenéutica dos símbolos religiosos e das experiencias de urna tradição nos processos complexos da cultura"14.

Diante a tudo, pode-se concluir que a teologia deve reconhecer o mundo literario também como espaco de reflexáo escrita capaz de transmitir experiencias religiosas originarias que integram varias dimen-sôes da existência humana e que, por isso, expressam dimensôes do absoluto a partir da historicidade e dos símbolos compartilhados pelo imaginario coletivo do qual participa. Por isso, a sabedoria da literatura deve ser acolhida não como engenhosidade literaria ingenua, mas como iniciativa de urna expressão que emerge como ação no mundo simbólico buscando evidenciar a importancia de tudo aquilo que a rotina banaliza como pejorativamente inacessível, irreal e inatingível15.

Para Harold Bloom, há em todas as culturas expressôes sapienciais que, para serem apreciadas, requerem do seu leitor pelo menos tres criterios: "esplendor estético", "forca intelectual e sapiencia"16. Bloom reivindica tais categorias por reconhecer que as obras sapienciais são portadoras de forcas semánticas distintas de todas aquelas outras que saturam o mercado literario contemporáneo.

Os varios tipos de obras literarias (religiosas, místicas, auto-afirmativas etc) nasceram na tentativa de buscar urna melhor percepção sobre a realidade que circunda a vida. Porém, urna das características que o crítico americano levanta para compreender as literaturas sapienciais, é a de independencia de diversas motivacóes interpretativasôestantías a si, considerando que as literaturas já são portadoras de referenciais de sentido que podem ser reverenciadas a partir de suas própriasforcasôestética e cognitiva. Por isso, longe de permanecer indistintas no circuito literario comumente difundido no mercado editorial, a literatura sapiencial preconiza um conhecimento que rejeita e se distancia propositalmente do obvio. Antes de almejar e provocar sensacóes de conforto ou quaisquer outras de bem estar, as literaturas sapienciais ensinam aceitar os limites do real e a sucumbir ao desencantamento sobre a signrñcação do que é comumente partilhado sobre a faticidade humana. Segundo Bloom,

lemos e refletimos porque temos fome e sede de saber. A verdade, segundo o poeta William Butler Yeats, não pode ser conhecida, mas pode ser encarnada. Quanto asa bedo-ria, eu afirmo o contrario: não podemos encarna-la, mas podemos aprender a conhece-la, a despeito de ser ou não identificável com a Verdade que talvez nos liberte17.

Ao reconhecer a forca destas teses, o diálogo teologia literatura se fortalece na medida em que se reconhece malograda a antigàs acóes teológicas que previamente definiam exclusivamente os significados do sagrado a partir de um corpus doutrinário previamente estabelecido. É por isso que Harold Bloom acertadamente afirma que "poesia e crenca vagueiam, juntas e separadas, num vazio cosmológico marcado pelos limites da verdade e do sentido", pois "em algum ponto entre a verdade e o sentido pode-se encontrar, empilhado, um terrível acumulo de describes de Deus"18.

2. Saramago e a Faticidade da vida no conflito entre a Política e a Teologia

2.1. Vida e Obra

Primeiro lusófono a receber o Premio Nobel de Literatura, José Saramago nasceu em 1922 na aldeia de Azinhaga, no Albatejo. Antes de ser romancista e poeta, o escritor conheceu outras ocupacóes tais como serralheiro mecánico, desenhista, funcionario público e jornalista. Seu primeiroensaio literario publicado foi Terra do Pecado, romance editado em 1947. Vi nte anos longedas prateleiras, Saramago lancou Os poemas possíveiseem 1976 publicou o romance Manual de Pintura e Caligrafía. A partir deste momento ele se mostra mais próximo do mundo literario se ocupando intensamente das atividades de traducóes que o leva, logo em seguida, a entregar-se á autoria literaria com mais regularidade19.

Em Levantando do Chao, obra de 1980, Saramago inovou a sua estilística quando propós um uso intenso de vírgulas, entendendo-a como sinal suficiente para substituir todas as outras com a exceção do ponto final. Nos dizeres do próprio romancista,

no romance, a ligação entre o que se diz tem um lugar muito especial. É claro que, seescrevessedeoutra maneira, contava a mesma historia. O que ocorre é que transpon-no para o discurso escrito os mecanismos da fala. Afinal, quando nos falamos não estamos a fazer parágrafos nem pontos de interrogação. Falamos como se estivéssemos a fazer música, com sons e pausa. Proponho então um pacto, dizendo: aqui não há sinais de pontuação, o que há são sinalizacóes de pausa; urna leve, simbolizada por vírgulas, e outra um pouca mais longa, representa o ponto final20.

Confirmando a sua constancia no fazimento literario, em 1982 José Sara mago conclui Memorial do Convento, obra que Iheconferiureputação internacional. Dois anos mais tarde, o autor apresentou um de seus projetos mais engenhoso: Oano da morte de Ricardo Reis. Enfoçada a partirde suasdimensôesexistêncialesocial,ahumanidadeéproblematizadanum enredo que enraiza histórico-socialmente o heterónimo mais elegante de Fernando Pessoa: Ricardo Reis. Quatro anos depois, ensejando certa tonalidade crítica a realidade político-social, algo já introduzida nesta sua última obra, Jangada dePedra (1986) e Historia do Cerco de Lisboa (1988) tratam de temas que instigam reflexões sobre a situação de Portugal no continente europeu.

Há livros meus que tocam o país diretamente, como O ano da morte de Ricardo Reis, Historia do Cerco de Lisboa, e Levantando do Chao. Vocé pode encontrar panoramas sociais de Portugal em Levantando do chao ou Jangada de pedra. Tal vez seja possível entender o país na leituradestes livros, mas não é o propósito central deles. Minha obra não retrata, mas reflete sobre: nunca busquei dar retratos, mas encontrar sentidos Jangada, porexemplo,foi urna reaçãoá proposta de Portugal entrar na Comunidade Européia21.

Em 1991, com Evangelho Segundo Jesús Cristo, Saramago passou a desenvolver temas que abordam a condiçãoexistêncial do ser humano22. Segundo Adriano Schwartz23, fazem parte deste ciclo Ensaio sobre a ce-gueira (1995), Todos os nomes (1997), A caverna (2000), O homem duplicado (2002), Ensaio sobre a lucidez (2004) e As intermitências da morte (2005).

O Evangelho segundo Jesús Cristo pode falaraopovo português porque, sendo ele católico, é natural que sua leitura venha de alguma forma a ser útil. Urna vez que meus livros são escritos para interessar toda a gente, com problemasôessenciais á vida, não teria de interessar necessariamente a Portugal, mas a qualquer pessoa.

José Saramago participa de um rico mundo literario. No mundo re-nascentista, mas ainda enraizado ñas referenciasôescolàsticas, Camóes tornou-se urna rica fonte do ideal expansionista do mundo católico-português. Mais a diante, já na modernidade tardia, dois genios literarios encantam seus leitores a partir de comportamentos bipolares: Pessoa celebra em si e em seus heterónimos a autonomia da subjetividade moderna e Flor Bela Espanca exala em seus poemas as expressôes de urna existência singular efinita - como experiencia poética de urna vida afetiva e aberta, porém não otimista. Por último, Saramago, o genio escritor que inundou as suas letras com paradigmas e racionalidades de mundos diversos e ampios, algo que épróprio a um intelectual que viveu o século XX eexperimenta o alvorecerdo século XXI. Nesta pequeña visita a literatura portuguesa, encontramos Saramago que desagua em seu romance O ano da morte de Ricardo Reis, as intertextuais e intermitentes questóes sobre a significancia dos temas Deus, Existência e Pensamentó, em diálogo com Pessoa, Camóes, Queirós e alguns outros, despertando em seus leitores tudo aquilo que tanto agonizaram seus antecessores e ainda desperta grandes interesses em seus contemporáneos.

2.2. A vida e o seu conflíto com os valores sócío-teo-teleológícos

Enquanto marxista desobrigado das imagens utópicas, Saramago renovou no Ano da Morte de Ricardo Reís a ambição nietizschiana de transmutação dos valores, da existência e dos símbolos Morte, Vida e Deus. Todavia, não seriam estes temas que tanto incomodam teólogos e filósofos? Bern, é a partir deste enfoque que iremos investigar até que ponto a literatura pode motivar e, talvez muito mais que isto, fazer a teologia reencontrar originariamente alguns temas de um modo mais próximos as dimensão da experiencia vida, longe de seus referenciais dogmáticos e eclesiocéntricos..

Na historia do pensamento ocidental, a sobrevivencia dos antigos temas da religiáo sempre estiveram vinculado às necessidades de urna fundamentado absoluta da verdade, da ordem universal, da ética e do belo. Deus é o arké, o logos, o ser originario fonte de todo o sentido, de toda a racionalidade e de todos os entes. Deste Homero, Aristóteles e Platão, o divino apareceu como recurso epistemológico da universa-lidade e da fundamentado última do real. Ou seja, independente de suas imagens substanciáis, Deus permaneceu como garantia última da identidade do ser e da necessidade lógica ñas averiguacóes do real. Con-tudo, na virada antropocéntrica do pensar, o homem moderno absorveu para si todosôestes arquetipos e, daí, construiu-se como ente autónomo, idéntico e absoluto. Desta maneira, Deus prosseguiu como um ente em esquecimento, porém seus atributos são çada vez mais presentes pois permaneceram encarnados na construção do ideal antropológico: a modernidade preserva silenciosamente a idéia de Deus, mesmo que abscóndito ñas suas fantasias. É assim que podemos entender as características do heterónimo de Fernando Pessoa, o médico e poeta Ricardo Reis, e seus dilemas existênciais e teológicos.

Como um intelectual moderno, o personagem Ricardo Reis alimentase do humanismo grego adaptados às vivencias carnal e intelectual de seu mundo. Sua religiosidade transitava pelo o paganismo helénico o que o levou a construir a idéia de um Deus ausente, frió, distante e desacol-hedor: "mas os deuses de Ricardo Reis são outros, silenciosas entidades que nos olham indiferentes"24. Ao lado deste preceito teológico, surge um outro ¡mediatamente: o homem é urna experiencia de pensamento, solidáoedúvida.

Ñas suas odes, prevalece o apolíneo comprovado por urna moderna consciéncia do fazer artístico. Muitas délas apareceram primeiramente publiçadas na revista Athena e, principalmente, na Presenga, sempre indiferente ao social, mas acentuadamente consciente da efemeridade da vida. Reis leva o paganismo á sua expressão mais ortodoxa, através de um neoclassicismo neo-pagáo consciente, cultivando a mitologia greco-latina. Clàssico por excelencia, idealista e platónico no amor, constata o efémera da vida e anseia, no íntimo, por urna fenomenológica eternidade terrena25.

Por isso, podemos sugerir que Ricardo Reis antes de 'nascer' no cená-rio do romance, ele é um poeta moderno, idéntico a si mesmo, absoluto, nascido contudo eviterno - considerando que Ricardo Reis não recebeu urna data fúnebre de seu criador, Fernando Pessoa. Como poeta existen-cialmente etéreo, Ricardo Reis cria um sentimento narcisista ao cunhar Lidia que representa nada mais que um amor capaz de reverenciar a si mesmo. não interessa a alteridade da amada, o nome Lidia é espelho e que, por isso, pode-se concluir que Ricardo Reis ama poéticamente o seu ideal: os poemas são seducóes impessoais. Immanuel Kante Ricardo Reis perseguem o ideal da enea rnação do'divino funda mentó'da metafísica grega e medieval, e o ideal do genio artístico - inaugurado pela arte autónoma moderna. Pois o pensado e o reverenciado são construidos como experiencia de liberdade e de autonomia de urna subjetividade transcendental livre dos imperativos do mundo fenoménico.

O romance criado por Sara mago tem o desafio de criar urna identida-de existêncial capaz de levar o 'poeta sempre o mesmo' a enraizar a sua existência na historia para que, daí, possa consagrar urna personalidade "como variacóes imaginativas em torno de urna invariante, condição corporal vivida como mediação existêncial entre si e o mundo"26. Ricardo Reis vai ser recriado, ele vai viver.

O personagem comum a Pessoa e Saramago encontra a vida e a morte como experiencias vividas e não só declamadas. Existindo, Ricardo Reis descobre que a vida é órfá de sentido e eternidade. Sua reinvenção existêncial composta numa perspectiva literaria intertextual será fiel, portante, a um pensamento de Saramago: "çada homem que morre é urna mortede Deus. E quando o último homem morrer, Deus não existirá" (cadernos de Lanzarote - 23/02/1994).

José Saramago é escritor de seu tempo. Suas obras refletem urna percepeáo crítica de um mundo que se manifesta cegó, surdo, sem Deus, sem nomes e sem utopias. E, por isso, o seu personagem intertextual Ricardo Reis aparece como um dilema de sua época: No que implica viver? A existência é um espetáculo passageiro que não exige nada além da contemplação?

0 ano de 1935 acontece em meio as revolucóes nacionalistas. Época auge da ditadura salazarista, Portugal há tempos não vive momentos de gloria e o seu mar já não aceña, no alvorecer de çada manhá, a despedida de bravos empenhados em campanhas homéricas e, ao entardecer, a chegada de heróis trazendo os louros da gloria. A vida portuguesa é descrita por Sara mago como um engodo político e teológico: "Explique melhor essa tal divina e humana confusão. É que, segundo a declaração solene de um arcebispo, o de Mitilene, Portugal é Cristo e Cristo é Portugal" (p. 285).

Os poemas, os icones urbanos, o imaginario político e tudo quanto expressam o mundo português indicam um sentimento de abandono divino, a falta de urna conexáo'histórico-teleológica'que outrorailuminou os heróis da fé e da política lusitana: D. Duarte, D. Pedro, D. Fernando, D. Sebastiáo. Ainda sob este saudosismo silencioso, Salazar se auto-apre-sentava como inaugurador do Estado Novo, urna forma renovada da República inaugurada em 1910, mas que seria capaz de realizaros ideáis gloriosos do passado monárquico. O novo líder nacional era um católico fervoroso, empenhado em fortalecer o Estado e a economia nacional em detrimento das liberdades individuáis. Determinado a realizar ideal te-leológico da política portuguesa, Salazar acredita va que Portugal deveria cumprir a missão de civilizar e evangelizar a África e Asia, combatendo o liberalismo moral, o socialismo operario e a promoção dos direitos das minorias éticas, sexuais e classistas27.

Porém, enquanto a redenção não chegava, Saramago percebeu que os portugueses se contentavam com as promessas de urna vida após a morte e, em meio a esta esperanca, enalteciam as glorias do passado manifestando-a como referencia para as reformas económicas e políticas no presente. Por isto, desafiando a forca da apatia existêncial, Saramago recria Ricardo Reis levando-o assumir progressivamente a vida como dimensão diretora de seus sentimentos em choque ideológico com a religiáo e a política. Sendo assim, o heterónimo de Fernando Pessoa afas-ta-se de sua existência transcendente enquanto poeta etéreo, e assume o papel de Dasein (ser-aí, 'ente significador' presente, existente)28.0 seu enredo biográfico é aliado á vida para mergulhar na morte29.

Ricardo reis desembarca em Lisboa. Quando o navio inglés Highland Brigade aporta na capital lusitana, é possível notar que a maioria dos passageiros dirigiam-se para um dos epicentros políticos da Europa, Londres. Na rota contemporánea das navegacóes, a metrópole portuguesa era pouco conhecida pelosôestrangeiros. Eles chegavam a passeios ou somente aportaram rápidamente em tránsito. A bela cidade já não despertava encantos, somente curiosidades temporarias.

Já pelas rúas lisbonenses, Ricardo Reis encontrou a cidade num clima moribundo após urna grande tempestade. Após desembarcar do navio, ele experimentou um sentimento fúnebre, catastrófico. Homem grisal-ho, com carnes secas, portador de um sotaque luso-brasileiro, o médico português se hospedou no Hotel Braganca carregando um livro com um nome misterioso e enigmático que Ihe acompanhará até a morte sem nada Ihe revelar: The God of Labyrinth.

Os gregos épicos imaginavam que os deuses eram os fundamentos do mundo e da vida. O fim de todos os olimpianos significaria também o fim da ordem e do sentido do mundo da vida. Era esta a experiencia vivida por Ricardo Reis nos dias que seguiam a noticia da morte de Fernando Pessoa.

vem em nos ¡números, se pensó ou sinto, ignoro quem é que pensa ou senté, sou somente o lugar onde se pensa e se senté, e, não acabando aqui, é como se acabasse, urna vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. Se somente isto eu sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensado agora o que pensó, ou pensó que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir ou pensar, e, de quantos ¡números que em mim vivem, eu sou qual, quem, quain, que pensamentos e sensacóes seráo os que não partilho por só nome me per-tencerem, quern sou que os outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser30.

Ainda hospedado no Hotel Braganca, Ricardo Reis seenvolveemocio-nalmente com Marcenas, a paciente que o comove com seus ares lánguidos, e Lidia, a camareira homónima da musa de seus poemas31. Tempos depois, como era previsível, dispensou os servicos do Hotel e passou a morar num espaco mais reservado só que, desta vez, dependendo da ajuda de Lidia. Marcenda o abandona sem deixar sequer alguma carta de amor, por mais ridicula que fosse, pois opta em buscar um milagre para a cura males nos altares á Fátima - já que as ciencias médicas não Ihe proporcionavam sequer centelhas de esperanca.

Alguns dias após a sua chegada, Ricardo Reis vai visitar o túmulo de Fernando Pessoa. Chegando lá, o único sentimento presente é o da melancolía. Entre as dúvidas sobre o sentido da vida e a signrñcação de Deus, Ricardo Reis sucumbiu á idéia de que a única certeza que pode ter como evidente é a vida com suas infinitas possibilidades condensada diante do acontecimento da morte, e que ela, a própria morte, seria a única capaz de provocar um sentimento dealinhamento entre criatura e criador. Porém, o falecimento do seu do criador possibilitou quea criatura vivesse abertamente no mundo dos vivos. É assim que Saramago recria Ricardo Reis, fazendo-o retornar a Portugal e a descobrir que a morte é o último evento da vida. As lágrimas que Ricardo Reis verte comovido com a lapide de Fernando Pessoa, são aquelas que ele derrama com desfacatez sobre algo que agora percebe, mas que silenciosamente não admite: a sua mortalidade.

No dia 31 do mes de sua chegada a Lisboa e após a sua visita ao ce-mitério, Ricardo Reis encontra-se com Fernando Pessoa ainda no Hotel Braganca. Os assuntos da conversa são próprios do cotidiano. Porém, Pessoa anuncia que durante nove meses poderá perambular pelo mundo antes da sua aparição derradeira. É um período de gestação, talvez seja o tempo que Ricardo Reis terá para forja a sua autonomia e a sua 'de-cisão'. Daí em diante, o doutor e intelectual Ricardo Reis evolve-se com os mundos dos vivos: os amores não seráo mais platónicos, os poemas não seráo mais sublimes, a vida não será maisôestética e os sentimentos seráo epidérmicos.

Lidia era urna mulher simples, do povo, e seu irmáo estava envolvido com grupos políticos de resistência á ditadura salazarista. A tensão sócio-política era grande porque Salazar instalou um modelo político nacionalista aos moldes dos governos fascista italiano. Envolvido afe-tivamente com Lidia, Ricardo Reis passou a ser investigado pela polícia por ser suspeito de envolvimento com os comunistas. Neste meio tempo a revolução dos marinheiros explode e Fernando Pessoa aceña para os últimos instantes de sua aparição. É neste instante que Ricardo chora as tragedias políticas, o genocidio e a faticidade da vida que se mostra sem qualquer reposta - e aquelas tão bem redigidas e tão bem arquitetada pelos intelectuaisdo ocidentejá se mostram sem algum sentido. Os nove meses passam e nasce Ricardo Reis. Agora, o novo ente aprende com urna criada popular a rejeitar a vida transcendente do bem, do belo e da verdade suprema, descobrindo a imperiosa lógica das contingencias da vida, da morteedosdesejos: "O senhordoutoré urna pessoa instruida, eu sou quase urna analfabeta, mas urna coisa eu aprendi, é que as verdades são muitas e estão urnas contras as outras, enquanto não lutarem não se saberá onde está a mentira"32.

Se de modo explícito Ricardo Reis renuncia a erudição e a impes-soalidade monarquista, é silenciosa a sua opção pela morte como algo que reflete a experiencia da encarnação num mundo de abandono e de silencio lógico. Na última aparição de Fernando Pessoa, Ricardo Reis opta por acompanhar o seu criador na ida para morte, lugar de desaparecimiento do ser. Porém, sabendo que o mundo da morte fechava quaisquer possibilidades demanifestação dalinguagem,dosentidoouda identidade, Ricardo Reis não esquece de levar consigo o livro The God of the Labyrinth - não que quisesse acabar de ler, mas simplesmente queria livrara humanidade das armadilhas de algo insolúvele bem distante dos interesses da vida.

Quanto á teleología gloriosa da política de portuguesa anunciada por Salazar, -a petrificação histórica não permite mais que Adamastor (metáfora mitológica do Cabo da Boa Esperanca) grite e nem expresse as glorias ñas grandes batalhas e de novas descobertas. Por isso, a flámula a ser erguida neste tempo é urna frase fertilizada por esperanca camoniana de que um dia Adamastor grite "onde o mar se acabou e a terra espera"33.

Notas Inconclusas sobre Temas Teológicos na Obra O ano da morte de Ricardo Reís

A crítica de Saramago á Teologia revela o aprisionamento que este saber fez de temas tão presentes a vida e que, por isso, provocaram a sublimação da forca erótica da vida e da signrñcação existêncial da morte: a especrñcidade humana nos temas teológicos foi alienada do mundo vivido. As imagens religiosas tradicionais de um cristianismo racionalizado eesbocado segundo asôestruturas do poder político ocidental, distanciou-se largamente das experiencias cotidianas da vida onde se encarnam históricamente os desejos mais sublimes do ser humano.

As construcóes clàssicas dos dogmas cristãos no mundo ocidental foram promovidas de modo autoritario. Só o clero podia formular as crencas capazes de expressarem a verdade e a justica. Por sua vez, estes ditos, coroados com o status de dogmas sacro-santos, eram absorvidos porumgrande número de fiéisde urna maneira passiva. Assim, os cristãos eram desonerados da vivencia mística, a única via capaz de construir urna signrñcação substancial dos temas originarios da fé crista. As instituicóes quecontrolavam a fé bíblica cria ram um corpus doutrinário que seaceitos, memorizados e confirmados, proporcionariam os méritos da salvação dos pecados, como também, a garantia de vida após a morte. Para ser cristão era necessário cumprir este projeto ético: Viver não era preciso, mas crer e obedecer aos ditos da igreja eram necessários. Considerando que os fundamentos antropológicos e éticos da teologia agostiniana prevaleceram no mundo católico e protestante, existir significa va esque-cer a vida e a morte. A vida é embaçada por um artificio ontológico de Platão:aessénciadoverdadeirotranscendeadimensãodomundofísico. Assim, o corpo é um evento passageiro e, por isso, deve a todo custo ser reprimido e até mesmo esquecido. É por isso que Saramago afirmou que "se reconhecerá quanto é urgente rasgar o dar sumico á teologia velha e fazer urna nova teologia, toda ao contrario da outra"34.

Mesmo que a Teologia provocasse o esquecimento da vida, a religiáo e as experiencias místicas não deixaram de expressar radicalmente as varias dimensôes da existência confluidas entre vida e morte. Por isso, diz Moltmann:

"Toda a vida vai ao encontró de sua morte. Este é um dado que não podemos alterar. O fato de um dia termos de mo-rrer constituí a diferenca entre seres humanos e deuses, e o fato de sabermos disso constitui a diferenca entre seres humanos e animáis. 'Conhece a ti mesmo', o que, na Grecia e em Romasignificava: reconhece que és mortal, memento morí. 'Senhor, ensina-nos a lembrar que termos de morrer, para que sejamos sensatos' (SI 90,12). A que tipo de sensatez se refere isso e que tipo de loucura surge quando a esquecemos?"35.

O romance O ano de morte de Ricardo /?e/s desperta no leitora ques-tão do esquecimento da morte enquanto dimensão central da vida. Ñas sociedades capitalistas, a importancia do crescimento económico, da ordem política, dos pagamentos da divida pública etc, fizeram com que a mulher, a crianca e o homem fossem colocados num segundo plano de importancia. Se antes, os ideáis eram antropocéntricos, agora eles são 'capitalcéntricos'. Nem a teologia tradicional e nem os envolvidos com o capitalismo valorizam o ideal da vida. E, diante deste quadro, o sentimiento de impotência que nutri todos os desejos de rejeição da condição política e económica presente ressurge nesta frase: "sabio é aquele que se conforma em contemplar a miseria do mundo".

Ter consciéncia da morte é também ter consciéncia da vida. Pois, só assim, compreende-se a sua importancia da vida e dos seus limites. Ao se radicalizar estas intuicóes, desperta-se o interesses ñas experiencias fundamentalmente interconectadas á vida: "trata-se de experiencias fundamentáis quefazemos com interesse vital que chamamos de amor, a afirmação da vida que recebemos e podemos dar. Urna vida afirmada, amada eacolhedora é urna vida realmente humana"36.

Com isso, a questão aberta por Saramago problematiza o fato de que importantíssimas expressôes humanas, inclusive a teologia, reprimem o significado da morte fazendo-nosôesquecer das limitudes existênciais e, por isso, superfkializando a importancia da vida como experiencia singular e temporal. Urna teologia que considera importante o tema da existência concreta e da morte, para Bonhoeffer, é aquela que estimula a valorização da vida e, por isso, desee até as raízes mais profundas da existência humana no processo de afirmação da autenticidade religiosa: "Apenas quando se ama a vida e a terra de tal maneira que, sem elas, tudo perecería perdido e acabado, pode-se crer na ressurreição dos mortos e em um novo mundo"37.

Notas

Doutorando em Ciencias da Religiáo - UMESP/CNPQ

1 Vernant, J.-P. "Razóes do Mito" in:Mito esociedadena Grecia Antiga: 1999. Rio de Janeiro: José Olympo,, pp.171-221; Ricoeur, P. A Metáfora Viva: 2000. são Paulo: Loyola.

2 Oliveira, M. A. A Filosofía na Crise da Modernidade: 1989. são Paulo: Loyola, p. 174.

3 Peres, Maria Thereza Miguel. A Modernidade na Macha da Emancipação do Homem. Revistalmpulso. Piracicaba: Ed. UNIMEP, v.07, n.14,1994;TAVARES, Maria da Conceição. Economia e Felicidade. Novosôestudos Cebrap, n. 30,1991.

4 Oliveira, M. A. Op. cit, p..175.

5 Goethe, J. W. Fausto. Urna tragedia (Primeira Parte): 2004. são Paulo: ed. 34.

6"A verdade contradiz a nossa natureza, o erro não; e, com efeito, por urna razão muito simples: a verdade exige que nos reconhecamos como limitados, enquanto o erro nos adula dizendo-nos que somos, de urna maneira ou outra, ilimtados" (Goethe, J. W. Máximas e reflexões: 2003. Rio de Janeiro: Forense Universitaria, p. 50).

7 Geffré, Claude. Como fazer teologia hoje: 1989. são Paulo, p. 88

8 Para Cf. Hegel, G. W. F. Estética: a idéia e o ideal; Estética: O Belo artístico ou o ideal. (Os Pensadores): 1991. são Paulo: Nova Cultural, p. 149.

9 Sobre a filosofía do espirito do jovem Hegel, Cf. Habermas, J. "Trabajo e interacción. Notas sobre la filosofía hegeliana del período de Jena" in: Ciencia e técnica como ideo-logia: 1997. 3a Edição. Madrid: Tecnos.

10 Apud Hühne, Leda Miranda (org.). Fernando Pessoa eMartin Heiddeger:o poeta pensante: 1994. Rio de Janeiro: UAPÉ, p. 75.

11 CF. Heiddeger, M. A ciencia e o pensamento do sentido in: Ensaios e Conferencias: 2002. Petrópolis, Vozes.

12 Hühne, Leda Miranda . "O Poetar Pensante" In: Idem, Ibdem, p. 82.

13 Duran, Gilbert. Asôestruturas antropológicas do imaginario: 2002. são Paulo: Martins Fontes. O antropólogo G. Duran critica a psicología cognitiva e a antropología estrutu-ralista por discordar que as imagens simbólicas tanto na dimensão filogenética como antropogenética, dependem de dimensôes intelectuais perenes entendidas como regentes das expressôes coletivas.

14 Magalháes, A. C. M. Representacóes do bem e do mal em perspectiva teológico-lite-rária: reflexões a partir de diálogos com Grande Sertao: Veredas de Joáo Guimaráes Rosa. Estudos de Religiao. Ano XVII, No. 24, junho de 2003, são Bernardo do Campo, SP: UMESP, p. 84.

15 Nos dizeres de Paul Ricoeur, "a metáfora ocorre no universo já purificado do logos, ao passo que o símbolo hesita na linha divisoria entre o bio e o logos. Dá testemunho da radicação primordial do Discurso na Vida. Nasce onde a forca e a forma coincidem". [Teoría da Interpretando. Lisboa: 70,1996, p.71).

16 Bloom, H. Onde encontrar a sabedoria?: 2005. Rio de Janeiro: Objetiva, 13.

17 Idem, Ibdem, p. 319.

18 Bloom, H. Abaixo as verdades sagradas. Poesia e crenga dése a Biblia a te os nossos días:1993. são Paulo: Companhia das letras, p. 17.

19 Schwartz, A. Narrador se agiganta e engole a ficcção. Revista Entre Livros. são Paulo, n. 08, pp. 16-19,2005.

20 Saramago, José Apud Pereira Jr., Luiz Costa. Um português de sons e pausas. Lingua Portuguesa. são Paulo, n.03, p. 18,2005.

21 Apud Pereira Jr., Luiz Costa. Um português de sons e pausas. Lingua Portuguesa. Op. cit, p.19.

22 Idem, Ibdem.

23 Schwartz, A. Narrador se agiganta e engole a ficcção. Op. cit., p. 17.

24 Saramago, J. O ano da mortedeRicardo Reis: 2003. são Paulo: Planeta De Agostini, p. 56.

25 http://www.secrel.com.br/jpoesia/blima01.html.

26 Ricoeur, P. 0si-mesmo como um outro: 1991. Campinas: Paiprus, p. 178.

27 Correa, Marcos Lima. O Homem Forte do Estado Novo Português. Desvendando a Historia. Ano 2, No. 08. são Paulo: Escala Educacional, 2006, p. 15.

28 Para Heidegger, dasein é urna compreensão do evento antropológico para além das arquiteturas transcendentais. O sentido ortológico do humano se dá a partir da sua capacidade de gerar sentido no horizonte de sua experiencia mundana. Cf. Heiddeger, M. Sere Tempo, (vol. I e II): 1993. Petrópolis: Vozes.

29 Segundo Bachelard,"a morteé urna vigem ea viagem é urna morte. Partir é morrer um pouco. Morrer é verdadeiramente partir, e só se parte bem, corajosamente, nítidamente, quando se segue o fluir da agua, a corrente do rio. Todos os rios desembocam no Rio dos Mortos. Apenasôesta morte é fabulosa. Apenasôesta partida é urna aventura". Bachelard, G. A agua e os sonhos: 1997. são Paulo: Martins Fontes, p.77.

30 Saramago, J. O ano da morte de Ricardo Reis Op. cit. pp.20-21.

31 "Retomando os juízos pessoanos sobre Ricardo Reis, convoque-se agora urna per-sonagem feminina de principal importancia no romance. Refiro-me a Lidia, a criada do hotel que, irónicamente, Saramago transforma em versão animizada de urna das musas inspiradoras das odes reisianas. Ela e Marcenda são as duas mulheres, (quase completa antítese urna da outra), que iráo cruzar-se na vida de Ricardo Reis. Muito interessante seria determo-nos na respectiva análise, mas isso constituiría materia bastante para outro ensaio. Apenas se diga , acerca de Lidia, que Ihe são atribuidas qualidades excelentes, das quais destaco a completa generosidadedo amor que dedica a Ricardo Reis. Generosidade que ele naturalmente aceita, mas se dispensa de retribuir. A condição de mulher humilde do povo aparenta constituir o principal obstáculo 'a rendição afetiva de Ricardo Reis, que a ama físicamente embora continue aspirando, contraditoriamente, ao ideal de platonismo amoroso á mulher espiritualizada que as suas odes decantam". Simas-Almeida, Leonor. Dorio a Lisboa com Saramago e Ricardo Reis. Letras de Hoje. Porto Alegre, v.25, n. 3, p. 75-84, Setembro de 1990, p.77.

32 Saramago, José. O ano da morte de Ricardo Reis Op. cit. p.400

33 Saramago, José. O ano da morte de Ricardo Reís Op. cit. p. 428.

34 Saramago, J. O ano da morte de Ricardo Reís Op. cit., p. 61.

35 Moltmann, J. A vinda de Deus. Escatologia Crista: 2003. são Leopoldo: Unisinos, p. 70.

36 Idem,ibdem,p.71.

37 Bonhoeffer, D. Widerstand und Ergebung: Briefe und Aufzeichnungen aus der Haft: 1951. Munique, p. 66.

Bibliografía

Bachelard,G. (1997) A agua e os sonhos. são Paulo: Martins Fontes.        [ Links ]

Bloom, H. (1993) Abaixo as verdades sagradas. Poesía e crenga dése a Biblia ate os nossos días. são Paulo: Companhia das letras.        [ Links ]

______(2005) Onde encontrar a sabedoria? Rio de Janeiro: Objetiva: 13.        [ Links ]

Correa, Marcos Lima (2006) "O Homem Forte do Estado Novo Português". Desvendando a Historia. Ano 2, No. 08. são Paulo: Escala Educacional.        [ Links ]

Costa Jr., Luiz (2005) "Um português de sons e pausas". Lingua Portuguesa. são Paulo, n. 03, p. 18.        [ Links ]

Duran, Gilbert (2003) Asôes truturas antropológicas do imaginario. são Paulo: Martins Fontes.        [ Links ]

Ferraz, S. (2003) As Faces de Deus na obra de umAteu: 2003. Juiz de Fora e Blumenau: EUFJF e Edifurb.        [ Links ]

Geffré, Claude (1989) Como fazer teologia hoje: 1989. São Paulo.        [ Links ]

Goethe, J.W. (2003) Máximas e reflexões. Rio de Janeiro: Forense Universitaria.        [ Links ]

______(2004) Fausto. Urna tragedia (Pr\me\ra Parte).são Paulo:34.        [ Links ]

Habermas J. (1997) "Trabajo e interacción. Notas sobre la filosofía hegeliana del período de Jena" in: Ciencia e técnica como ideología. 3a Edição. Madrid: Tecnos.        [ Links ]

Heiddeger, Martin (2002) "A ciência e o pensamento do sentido" in:Ensaios e Conferências. Petrópolis, Vozes.        [ Links ]

Hegel, G.W.F. (1991) Estética: a idéia e o ideal; Estética: O Belo artístico ou o ideal. (Os Pensadores). São Paulo: Nova Cultural.        [ Links ]

Hühne, Leda Miranda (org.) (1994) Fernando Pessoa e Martin Heiddeger: o poeta pensante. Rio de Janeiro: UAPÉ.        [ Links ]

Magalháes, A. C. M. (2003) "Representares do bem e do mal em perspectiva teológico-literária: reflexoes a partir de diálogos com Grande Sertão: Veredas de Joáo Guimaráes Rosa". Estudos de Religiáo. Ano XVII, No. 24, junho. são Bernardo do Campo, SP: UMESP.        [ Links ]

Moltmann, J.(2003) A vinda de Deus. Escatologia Crista. são Leopoldo: Unisinos.        [ Links ]

OI¡ve¡ra, M.A. (1989) A Filosofía na Crise da Modernidade. são Paulo: Loyola.        [ Links ]

Ricoeur, P. (1991) Osi-mesmo como umoutro. Campinas: Paiprus.        [ Links ]

______(1996) Teoría da Interpretação. Lisboa: 70.        [ Links ]

______(2000) A Metáfora Viva. são Paulo: Loyola.        [ Links ]

Saramago, J.(2003) O ano da morte de Ricardo Reis. são Paulo: Planeta De Agostini.        [ Links ]

Schwartz, A. (2005) "Narrador se agiganta e engole a ficcção". Revista Entre Livros. são Paulo, n. 08, pp. 16-19.        [ Links ]

Simas-Almeida, Leonor (1990) "Dorio a Lisboa com Saramago e Ricardo Reis". Letras de Hoje. Porto Alegre, v.25, n. 3, p. 75-84, Setembro.        [ Links ]

Vernant, J.-P. (1999) "Razões do Mito" in: Mito e sociedade na Grecia Antiga. Rio de Janeiro: José Olympo.        [ Links ]

Creative Commons License Todo el contenido de esta revista, excepto dónde está identificado, está bajo una Licencia Creative Commons