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Literatura y lingüística

versión impresa ISSN 0716-5811

Lit. lingüíst.  n.18 Santiago  2007

http://dx.doi.org/10.4067/S0716-58112007000100007 

 

Literatura y Lingüística N°18 ISSN 0716-5811 /pp. 135-144

Literatura: artículos y monografías

Homoerotismo e abjeção em O lugar sem limites de José Donoso

 

José Carlos Barcellos*


Resumo

O lugar sem limites, romance publicado em 1966 pelo escritor chileno José Donoso, vem sendo objeto de inúmeras leituras, em geral, alegóricas. É mérito da crítica literária gay ter chamado a atenção para a possibilidade de uma leitura realista do romance, que leve a sério a condição de travesti do personagem central Manuela. Nessa linha, este ensaio recorre à idéia de abjeção para interpretar a maneira como o personagem reivindica positivamente o lugar marginal que lhe é assinalado. Nesse sentido, opõe-se a outras leituras, articuladas a partir da idéia de transgressão.

Palavras chave: alegoria, romane, manfinalidade, transgressão, abjeção.


Abstract

The Place Without Limits, novel published in 1996 by the Chilean writer José Donoso, has come to be the object of countless readings, mostly allegoric. To gay literary critics, a realistic reading has become possible, which seriously reveals the main character Manuela's condition of being a transvestite. Following this line, the work turns to the idea of abjection to interpret the way in which the character vindicates positively the marginal place which has been assigned to him. In this sense, it is opposed to other readings, in terms of the idea of transgression.

Key words: alegory, novel, margwality, transgression, adjection.


 

Numa passagem de Os Maias, de Eça de Queirós, Carlos da Maia critica o Naturalismo pela "invocação de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e de Darwin, a propósito duma lavadeira que dorme com um carpinteiro!" (QUEIRÓS, 1997, p. 1152). Quando se lêem certas manifestações epigônicas da crítica literária gay contemporânea, às vezes, tem-se a mesma sensação de um excesso de formalismo e de teorização que perde de vista o próprio objeto de análise em sua densidade humana concreta. Nesses casos, a razão política e militante, em seu formalismo abstrato, sobrepuja de tal maneira as realidades de que se ocupa, que se torna necessário um movimento de "volta às coisas mesmas", de recorte fenomenológico, para que se possa captar novamente a concretude de determinadas experiências humanas. Refletir sobre "os valores do abjeto" parece-me que, em alguns casos, pode ser um caminho privilegiado para a consecução dessa tarefa. E O lugar sem limites, pequeno romance publicado em 1966 pelo escritor chileno José Donoso, pode ser, a esse respeito, um rico objeto de análise.

Considerado pela crítica um dos mais intrigantes textos publicados no famoso boom da literatura latino-americana, O lugar sem limites vem sendo objeto das mais variadas interpretações, que vão desde a alegoria religiosa até o questionamento das categorizações binárias do pensamento ocidental. Neste texto, interessa-me o aporte que a reflexão sobre o abjeto pode trazer às questões de gênero e de sexualidade suscitadas pela obra.

Precedido por uma epígrafe tirada do Doutor Fausto, de Marlowe, em que se afirma que "o inferno não tem limites", o romance de José Donoso enfoca um único dia na vida de Manuela, um travesti que, junto com sua filha, a Japonesinha, administra um bordel em El Olivo, um lugarejo decadente, perdido no interior do Chile, sobre o qual paira a figura onipotente de Alejandro Cruz, grande proprietário e político local. Toda a narrativa desenvolve-se numa crescente tensão pela chegada a El Olivo de Pancho Vega, um caminhoneiro, provável filho natural de Dom Alejandro e amante eventual de Manuela, que já a havia ameaçado fisicamente e que lhe havia jurado que, de uma segunda vez, ela não escaparia.

Com predominância do foco narrativo interno em Manuela, a narrativa concentra-se na expectativa pela vinda de Pancho ao bordel e, a partir daí, rememora, em sucessivas analepses, os acontecimentos mais significativos do passado, tais como a vinda de Manuela para trabalhar no bordel como dançarina, o desafio lançado por Dom Alejandro à Japonesa Grande, então dona do prostíbulo, sobre se ela seria capaz de seduzir e excitar Manuela a ponto de ambas manterem uma relação sexual, o conseqüente nascimento da Japonesinha etc. Com a chegada de Pancho, acompanhado de seu cunhado Otávio, dança-se, bebe-se, até que, quando este questiona o amigo se se deixaria beijar por Manuela, desencadeia-se toda a violência de ambos, longamente pressentida, sobre o travesti, que é largado agonizante aos cães de Dom Alejandro.

O primeiro problema com que se debate a crítica no tratamento das questões de gênero e de sexualidade em O lugar sem limites é o da escolha dos conceitos operacionais: homossexualismo, homofobia, travestismo, sadomasoquismo, perversão, machismo, patriarcado... a flutuação dos conceitos é enorme e, como é natural, condiciona fortemente toda a análise a ser empreendida. Juan Pablo Sutherland menciona a homofobia (Sutherland, 2001, p. 18). David William Foster, por sua vez, fala em ordem patriarcal e vê Manuela como um elemento "desintegrador dessa ordem eterna" (Foster, 1991, p. 88). Considera também que se trata de um personagem transgressor, ainda que sua construção, segundo o crítico, não ultrapasse o nível do estereótipo, inclusive em sua suposta complacência com a violência de que é objeto. Já Benjamin Sifuentes-Jáuregui detém-se na condição de Manuela como travesti, advertindo que isso não deveria ser tomado apressadamente como símbolo de qualquer outra coisa, e insiste no "desejo homossexual" e na "homossexualidade" de Pancho (Sifuentes-Jáuregui, 2002, p. 108 e 114).

Sem negar a pertinência de algumas dessas visadas críticas, mas também sem deixar de apontar a profunda inadequação de outras, como esta última, que atribui a Pancho uma homossexualidade mal resolvida ou não devidamente assumida, pretendo explorar outras possibilidades de perspectivação das questões de gênero e de sexualidade em O lugar sem limites e, para tanto, vou recorrer à idéia de abjeção. Como ponto de partida, podemos recordar a crítica a que, a propósito de Genet, Didier Eribon submete as idéias de Bataille sobre transgressão:

O que Bataille não entende (não pode ou não quer entender?) é que a ética do Mal perseguido de forma sistemática, proposta por Genet, não consiste no gesto aberrante de uma "liberdade soberana" que enlouquece e que se aniquilaria no projeto de ser uma liberdade sem freio e sem limites. Está ligada a uma situação de abjeção dirigida a certo número de indivíduos. (...) Genet não tem escolha: é anormal, está fora das normas, é definitiva e totalmente "irregular", e a única escolha que pode fazer é a de reivindicar essa anormalidade na qual a ordem social o inscreveu. Para ele, não se trata de "transgredir" uma ordem social à qual não pertence. (Eribon, 2004, p. 54)

Concordando com Eribon na leitura que faz de Genet, o primeiro ponto que eu gostaria de firmar é o da inadequação da idéia de transgressão para a análise de um personagem como Manuela. Para o personagem de Donoso, tampouco se trata de transgredir a ordem social. Trata-se, antes, de reivindicar o lugar de abjeção que lhe é prescrito  "sou louca perdida" (Donoso, 2003, p. 172)  e de reivindicá-lo como um valor. Manuela, antes de mais nada, respeita a ordem social encarnada por Dom Alejandro, que ela, da mesma maneira que a Japonesa Grande, considera um protetor.

Esse processo de reivindicação da abjeção como valor só é possível, no entanto, na medida em que a estética absorve a ética, ou seja, na medida em que se desenvolve uma estética da existência marginal. No romance de Donoso, o personagem vai fazer gala de sua condição de artista, como dançarina apreciada, e, desse modo, encontra um lugar, supostamente de prestígio, na sociedade em que lhe cabe viver. O grande ícone desse processo é o vestido espanhol de Manuela, com o qual ela tem tanto cuidado, e que Pancho tenta por duas vezes destruir. Como escreve Eribon, ainda interpretando Genet, "como, à semelhança do poema, a vida dos homossexuais compõe-se de fragmentos, a estética, que os dispõe e ordena para seus próprios fins, acaba sendo a única moral possível para as Bichas" (Eribon, 2004, p. 317). No caso de Manuela, porém  e aí talvez haja uma nuance significativa em relação a Genet , o esforço por assumir positivamente o lugar de abjeção que lhe é assinalado é tal, que o personagem parece assimilar em bloco os valores do mundo em que vive. Manuela, além de assumir com vigor uma identidade feminina, não perde a missa do domingo, por exemplo: "como vou ficar sem missa?" (Donoso, 2003, p. 111).

Desse modo, se quisermos concordar com Héctor Domínguez Rubalcava, quando, na seqüência de outros teóricos, afirma que "a abjeção como uma posição produzida pela lei heterossexual forma parte constitutiva do discurso e, desta maneira, abre a possibilidade de uma subversão" (Domínguez Rubalcava, 2001, p. 31), devemos observar que, no caso de O lugar sem limites, isso seria válido em termos da relação entre narrador e narratário, mas não no âmbito da relação de Manuela com os outros personagens. Parece-me que a inadequação de determinadas perspectivas da crítica literária gay na análise de Manuela, ou de outros personagens semelhantes, advém de um certo movimento de adesão do discurso do crítico diretamente ao personagem, sem advertir que o eixo comunicativo da obra literária se dá entre as instâncias de enunciação e o leitor virtual e não, entre os próprios personagens. Uma obra pode ser subversiva em relação a determinada pauta de valores sem que seus personagens necessariamente o sejam.

Outro personagem cuja análise merece reparos é Pancho Vega. Trata-se de um personagem cuja masculinidade comporta perfeitamente a relação com Manuela e cujo desejo também comporta a violência. A crítica literária gay mais tradicional, na esteira da crítica feminista, investe com fúria contra esse tipo de personagem. Mais recentemente, vêm aparecendo trabalhos que começam a questionar esse tipo de crítica a determinadas formas de masculinidade e a reivindicar o valor positivo das mesmas. Como escreve o antropólogo italiano Franco La Cecla, É muito triste que a parte mais extrema do movimento feminista não se tenha dado conta de que a mulher do passado, garante da moral familiar, foi substituída hoje por uma mulher garante da correção política da masculinidade. Como se não pudéssemos realmente evitar um enfoque isento da tentação institucional -isto é, do estabelecimento de normas- dos comportamentos válidos e dos "valores" que qualquer um poderia garantir. (La Cecla, 2005, p. XI)

La Cecla insiste ainda na atenção à vida real das pessoas e na cultura da relação, com todas as negociações que ela supõe:

Quem me obriga a pensar que todos os apriorismos são uma forma de repressão da individualidade? (...) Quem me quer convencer de que pelo próprio fato de que isto seja um a priori, uma condição, não me cabe senão ser uma vítima passiva? Quem, por fim, quer afastar de mim a riqueza e a variedade derivadas da negociação de cada história pessoal no interior dos apriorismos dentro dos quais se desenvolve? Como se as diferenças de identidade, a riqueza de matizes nos corpos e nas culturas, não proviesse precisamente de uma contínua negociação entre o dado e o novo, entre as condições e as possibilidades. (La Cecla, 2005, p.4s)

Essa maneira de perspectivar as questões relacionadas a gênero e sexualidade parece-me extremamente fecunda para a crítica literária, pois, longe de convertê-la num ramo da moral política, permite uma abordagem mais cuidadosa e respeitosa das configurações que, em cada obra, essas questões assumem.

Mesmo no âmbito dos estudos gays, já aparece uma geração mais jovem com essa nova postura. É o caso do também antropólogo Chris Girman, cuja obra abre novas e instigantes perspectivas de análise do machismo latino-americano e do lugar que em seu bojo cabe aos desejos e práticas homoeróticas. Para tanto, é preciso, em primeiro lugar, submeter à crítica determinados paradigmas de análise norte-americanos predominantes nos gay studies e na queer theory, tais como o binômio opressão-resistência ou o discurso da minoria vitimizada, reconhecendo-se que simplesmente não se podem aplicar de maneira mecânica a determinados contextos culturais. É preciso ainda estar aberto para reconhecer que o homoerotismo masculino não se opõe necessariamente às formas hegemônicas de masculinidade, mas, muitas vezes, está em estreita relação com as mesmas, como já tive ocasião de explorar em trabalho anterior (Barcellos, 2002, p. 127-155). Como escreve Girman, Em oposição aos teóricos da resistência, proponho que o machismo na verdade cria fatores motivadores internalizados através dos quais os homens, de fato, querem, ou melhor, desejam ter relações sexuais com outros homens. Estudos tradicionais sobre a (homo)sexualidade latino-americana são incapazes de reconhecer semelhante possibilidade, ou, ao contrário, dependem de oposições entre prazer e estrutura para explicar por que homens fazem sexo com outros homens. (Girman, 2004. p. 69)

Levando-se em conta essas observações, podemos pensar a relação entre Manuela e Pancho, incluindo-se aí a questão da violência, de maneira muito mais matizada e complexa. Falar em opressão, por um lado, ou em homofobia e homossexualidade mal resolvida, por outro, deixa escapar, a meu ver, o que é mais próprio e característico do tipo de relação que se estabelece entre os dois personagens. O que me interessa aqui é explorar de que maneira o conceito de abjeto pode permitir uma aproximação mais fina à verdade humana dos personagens e, ao mesmo tempo, pode iluminar a compreensão do eixo comunicativo da obra entre a instância de enunciação e o leitor virtual.

Quanto ao primeiro ponto, pode-se observar que, no contexto da relação entre Manuela e Pancho, o lugar da abjeção é assumido e revertido na fantasia do travesti, que se dá toda dentro dos mais estritos cânones da sociedade heteropatriarcal:

Tenho uma vontade de pôr o vestido diante dele para ver o que faz. Agora, se ele estivesse aqui na vila, por exemplo. Sair na rua com o vestido posto e flores atrás da orelha e pintada como fêmea, e que na rua me digam adeus Manuela, por Deus que você vai elegante, minha filha, quer que a acompanhe... Triunfando, ela. E então Pancho, furioso, me encontra numa esquina e me diz você me dá nojo, anda a tirar isso que você é uma vergonha para a vila. E justo quando vai bater-me com essas mãozonas que tem, eu desmaio... nos braços de Dom Alejo, que vai passando. E Dom Alejo lhe diz que me deixe, que não se meta comigo, que eu sou gente mais decente que ele (...) que eu sou a grande Manuela, conhecida em toda a província, e expulsa Pancho para sempre da vila. (Donoso, 2003, p. 122)

Essa fantasia comporta, de maneira evidente, um elemento de violência controlada intimamente ligada ao desejo. Nesse tipo de erotismo, a aversão que se sente ou que se provoca é um ingrediente a mais do processo de excitação. Da mesma maneira, no encontro efetivo que Manuela e Pancho têm ao final do romance:

Pancho, de repente, calou-se olhando Manuela. Esse que dança ali, no centro, estragado, enlouquecido, com a respiração arrítmica, cheio de buracos e de vazios, sombras quebradas, esse que vai morrer, apesar das exclamações que solta, esse incrivelmente asqueroso e que incrivelmente é festa, esse está dançando para ele, ele sabe que deseja tocá-lo e acariciá-lo, deseja que esse retorcer-se não seja somente lá no centro mas contra sua pele, e Pancho se deixa olhar e acariciar desde lá... a bicha velha que dança para ele e ele se deixa dançar e já não ri porque é como se ele também estivesse querendo. Que Otávio não saiba. Que não se dê conta. Que ninguém se dê conta. (Donoso, 2003, p. 204s)

Diante disso, que sentido pode ter uma afirmação como a de que, em O lugar sem limites, "o sexo é mecanismo de dominação e não de prazer" (Millares, 2003, p. 53)? Muito mais rico seria, por exemplo, afirmar com Rodrigo Cánovas que "neste romance se reflete sobre a natureza da condição humana a partir da oposição insuperável amo/escravo, que é projetada no teatro de operações mítico das origens em seu registro social, sexual e numinoso" (Cánovas, 2003, p. 60).

Se deixarmos agora o âmbito da análise dos personagens e de suas relações para nos determos no romance como um todo, caberia perguntarmo-nos pelos possíveis significados destas duas grandes opções estéticas que O lugar sem limites compartilha com importantes obras da literatura do século XX, a saber, a centralidade da figura andrógina e o despedaçamento dos corpos.

Lisa Rado chama a atenção para o processo literário que das musas conduz a figuras femininas emblemáticas e destas para várias figuras andróginas, que povoam grandes clássicos da literatura modernista, e o interpreta como um sintoma da "perda de uma ordem estética historicamente masculina" (Rado, 2000, p. 8). Chama a atenção também para o quanto, nesse contexto, o masoquismo aparece como uma forma degradada do sublime. Ora, o que me parece fundamental em O lugar sem limites é precisamente essa reversão do abjeto em sublime agenciada através da figura de Manuela em sua relação com Pancho e também com os outros personagens, como Dom Alejandro ou a Japonesa Grande. A cena em que Manuela e a Japonesa resolvem aceder à vontade de Dom Alejandro e fazer um tableau vivant, para satisfação de seu voyeurismo, é outro exemplo acabado desse tipo de reversão. O que, em princípio, seria uma cena de degradação para o olhar pornográfico de Dom Alejandro e de seus amigos, acaba sendo uma cena de amor, da qual nasce uma filha, e mediante a qual Manuela e a Japonesa logram a propriedade da casa em que está instalado o bordel.

A centralidade da figura andrógina em O lugar sem limites, portanto, estaria em continuidade com importantes obras da literatura do século XX -como Orlando, de Virgínia Woolf, ou Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa- e poderia ser interpretada menos como um desafio à ordem social e política patriarcal, no âmbito das relações diegéticas entre os vários personagens, e mais como um sintoma da desagregação de uma ordem estética multissecular. Se, como se viu acima, não há base textual para considerar Manuela um personagem transgressor, pois todo o esforço do personagem consiste em assumir o lugar de abjeção que lhe é assinalado e, a partir daí, reivindicar sua inserção na ordem hegemônica ("Veado serei, mas degenerado, não" Donoso, 2003, p. 162), a força de sua presença no centro da narrativa e o poder de atração que exerce sobre os outros personagens levam, sim, a um questionamento da ordem estética criada e mantida pela cultura heteropatriarcal.

A segunda opção estética a que me referi acima relaciona-se à violência e, mais concretamente, à cena final em que Manuela é largada aos cães de Dom Alejandro. A esse respeito, parecem-me muito esclarecedoras as considerações de Robert Detweiler acerca da freqüência das cenas de despedaçamento ou desmembramento de corpos na literatura contemporânea. Para entendê-las, Detweiler recorre ao conceito grego de sparagmós, o despedaçamento ritual dos corpos associado ao culto dionisíaco, como se vê em As Bacantes, de Eurípides. Segundo Detweiler, há quatro níveis em que o sparagmós se manifesta:

Primeiro, (...) a perda da pessoa amada e isso se liga a um sparagmós do eu como outro ou do eu e do outro. Segundo, (...) a perda da identidade comunitária, e isso se relaciona a um sparagmós do corpo social. Terceiro, (...) a perda da estética, e isso se vincula a um sparagmós dos sentidos. Quarto, (...) a perda da inocência, e isso está ligado a um sparagmós da sexualidade. (Detweiler, 1999, p. 66)

Para Detweiler, a literatura contemporânea retoma com tanta freqüência esse tema para falar da experiência de dilaceramento que, em diferentes níveis, avassala o mundo atual. Parece-me que essa é uma chave bastante produtiva para se entender o desfecho de O lugar sem limites, com o espancamento de Manuela e sua exposição aos cães. No final do romance, o abjeto ganha essa dimensão trágica de um dilaceramento agônico que rompe com todos os limites entre dor e prazer, vida e morte, atração e repulsão, eu e o outro, erotismo e violência: "os três uma só massa viscosa retorcendo-se como um animal fantástico de três cabeças e múltiplas extremidades feridas e que ferem, unidos os três pelo vômito e o calor e a dor" (Donoso, 2003, p. 209).

Enfim, podemos concluir que o tratamento em termos de abjeção que Donoso dá ao homoerotismo em O lugar sem limites lhe permite uma série de aproximações, distanciamentos e reversões em que a relação entre corpo e cultura "se torna um mecanismo de proliferação e de contágios retóricos" (GIORGI, 2004, p. 20), cuja produtividade não cessa de nos impressionar. Sem negar a pertinência de leituras simbólicas ou alegóricas do romance, procurei neste texto desenvolver uma leitura realista -e nisso sou devedor da crítica literária gay- que, ao mesmo tempo, fosse respeitosa das configurações específicas que o homoerotismo assume no texto. Quando se procura respeitar as diferentes configurações literárias do homoerotismo, vê-se que, também aqui, estamos em O lugar sem limites.

Notas

* José Carlos Barcellos, Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (1991) e em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2000), é Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense.

Bibliografia

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