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Polis (Santiago)

versión On-line ISSN 0718-6568

Polis vol.12 no.34 Santiago abr. 2013

http://dx.doi.org/10.4067/S0718-65682013000100005 

Polis, Revista Latinoamericana, Volumen 12, Nº 34, 2013, p. 73-94

LENTE DE APROXIMACIÓN

 

Territorialidades alternativas e hibridismos no mundo rural: resiliência e reproduçao da sociobiodiversidade em comunidades tradicionais do Brasil e Chile meridionais

Territorialidades alternativas e hibridismos en el mundo rural: resiliencia y reproducción de la sociobiodiversidad en comunidades tradicionales de Brasil y Chile meridionales

Alternative territorialities and hybridisms in rural world: Resilience and Reproduction of sociobiodiversity in the tradicional communities of meridional Brasil and Chile

 

Nicolas Floriani*, Francisco Ther Ríos**, Dimas Floriani***

*Universidade Estadual de Ponta Grossa, Brasil. Email: nicolas@uepg.br
**Universidad de los Lagos. Email: fther@ulagos.cl
***Universidade Federal do Paraná. Email: floriani@ufpr.br


Resumo: Parte-se da idea de que as territorialidades contra-hegemônicasno mundo rural são resultantes de um duplo processo de aprendizagem e/ou adaptación: um interno ao próprio território, resultante da coevolução entre ecosisstemase comunidades, e outro externo e entre territórios –o que envolve os processos deterritorialização do capital sobre territórios tradicionais. Estas dinâmicasadaptativas dos territórios tradicionais e alternativos são expressas emhibridismos de práticas e representações sociais modernas e tradicionais acerca dos atributos reprodutivos da natureza: a fertilidad da natureza nos territóriostradicionais subsume a reprodutibilidade do complexo socioambiental, ao passoque o imaginário de natureza na cultura científica moderna subsume aprodutividade objetivada dos ecossistemas. Em outros termos, trata-se de interpretar narrativas e políticas de natureza. De fato, o entendimiento dacomplexidade da reprodução socioterritorial da agricultura e pesca tradicionaise alternativas (como aquelas da agricultura familiar de base ecológica) subsume,portanto, a indissociabilidade dos aspectos objetivos e subjetivos acerca dareprodutibilidade de sistema produtivo lato sensu, ou seja, dos condicionantesgeoecológicos locais, dos valores e simbolismos tradicionais, que são sintetizados nas estratégias de adaptação e resiliência das comunidades rurais frenteaos projetos de (re)territorialização do Capital sobre aqueles territórios contrahegemônicos.

Palavras-chave: narrativas e políticas de natureza, complexidade paisagístico-territorial, imaginários de fertilidad, territorialidades contra hegemônicas, interdisciplinaridad.


Resumen: Se parte de la idea de que las territorialidades contra hegemónicas en el mundo rural son resultantes de un doble proceso de aprendizaje y/o adaptación: uno interno al próprio territorio, resultante de la coevolución entre ecosistemas y comunidad, y otro externo y entre territorios-lo que involucra los procesos de territorialización del capital sobre territorios tradicionales. Estas dinámicas adaptativas de los territorios tradicionales y alternativos son expresadas en hibridismos de prácticas y representaciones sociales, modernas y tradicionales, acerca de los atributos reproductivos de la naturaleza: la fertilidad de la naturaleza en los territorios tradicionales subsume la reproductibilidad del complejo socioambiental, mientras que el imaginario de naturaleza en la cultura científica moderna subsume la productividad objetivada de los ecosistemas. En otros términos, se trata de interpretar narrativas y políticas de naturaleza. En efecto, el entendimiento de la complejidad de la reproducción socioterritorial de la agricultura y pesca tradicionales, y alternativas (como aquellas de la agricultura familiar de base ecológica), subsume, por tanto, la indisociabilidad entre los aspectos objetivos y subjetivos da la reproductibilidad del sistema productivo lato sensu, o sea, de los condicionantes geoecológicos locales, de los valores y simbolismos tradicionales, que son sintetizados en las estrategias de adaptación y resiliencia de las comunidades rurales frente al los proyectos de (re)territorialización del Capital sobre aquellos territorios contra-hegemónicos.

Palabras clave: narrativas y políticas de Naturaleza; complejidad paisajístico-territorial, imaginarios de fertilidad, territorialidades contra hegemónicas, interdisciplinariedad.


Abstract: Starting from the idea that counter-hegemonic territorialities inrural areas are the result of a dual process of learning and/or adaptation: one internalto the own territory resulting from the coevolution between ecosystems andcommunity, and the other external between territories -which involves the processesof territorialization of capital over traditional territories. These adaptive dynamicsof traditional and alternative territories are expressed in hybridisms of practicesand social representations, modern and traditional, about reproductive attributesof nature: nature’s fertility in the traditional territories subsumes the complex socio-environmental reproducibility, while the imaginary of nature in modern scientificculture subsumes objectified productivity of ecosystems. In other words, it is aboutinterpreting narratives and politics of nature. Indeed, understanding the complexityof socioterritorial reproduction of agriculture and traditional fishing, and alternatives(such as those of family farming with ecological bases), subsumes, therefore, theinseparability between the objective and subjective aspects of reprodutibility ofthe productive system lato sensu, this is, of local geo-ecological conditions,traditional values and symbols, which are synthesized in adaptation strategies andresilience of rural communities against the project of (re)territorialization of capital over those counter-hegemonic territories.

Key words: narratives and politics on nature; landscape-territorial complexity, fertility imaginaries, counter hegemonic territorialities, interdisciplinarity.


 

Introduçao

Se por outro lado a crise é um elemento central das sociedades modernas, configuradas como sociedades de classe e conduzidas pelosprocessos de produção para o mercado; por outro, emergem da crise doprojeto modernizador da sociedade as alternatividades que questionam omodelo hegemônico de entendimento das práticas sociais de natureza.

Com o acirramento dos problemas socioambientais resultantes dacrise da modernidade, os entendimomentos de vida e de mundo são modificados, reforçados ou substituídos, e a percepção coletiva dos fenômenostempo e espaço são ressignificados a partir da exigência de uma novarepresentação de sociedade e de natureza.

Para expandir o entendimento sobre esse mundo que se constitui ese destitui de sentidos, sistemas de práticas e sistemas cognitivos reassumemtambém novas configurações no seio dos conflitos entre os processos deapropriação material e de sua mercantilização (sistema hegemônico)traduzidos pelos diversos processos de reconhecimento hermenêutico dessarealidade. São evidenciadas disputas simbólicas, cognitivas, tecnológicasimpulsionadas por uma nova ordem política: a Política de Natureza (Florianiet al, 2010).

Essa nova ordem política exige o reconhecimento da existência deoutras narrativas de natureza e a abertura ao diálogo com outros saberes.Para tanto, deve fundamentar-se em um método alternativo que coloque empé de igualdade os discursos (científico e dos saberes locais) acerca dasmúltiplas escalas e dimensões: dos fenômenos espacial (o território dacomunidade) e temporal (o tempo social e o tempo biológico); dimensõesque contextualizam a configuração das diversidades socioterritoriais doMundo Rural.

Ademais, outro aspecto relevante dessa abordagem alternativa, queadmite a coexistência de múltiplas narrativas, seria refundar o pensamentocientífico com base em uma "mentalidade aberta à subjetividade praticada",moldando, conforme as palavras de Doreen Massey "nossas cosmologiasestruturantes, modulando nossos entendimentos do mundo, atitudes e relacionamentos com os outros" (Massey, 2008, p. 15).

Trata-se, pois, de uma interpretação do espaço-tempo segundo umdado referencial sociocultural - hegemônico ou não, seja ele científico, deum grupo dominante, do senso comum. Reflete, portanto, um dos focos das ciências sociais contemporâneas que é dar voz e vez aos múltiplos discursos acerca de lugar e identidade, revelando os ignorados sentidos de lugare visões de paisagem vividas destituídos pelos poderosos (McDOWELL,1996).

Em outras palavras, trata-se de refundar as bases epistemológicasda ciência hegemônica, reestruturando-as a partir da prática inter etransdisciplinar. Com isso, mostram-se necessariamente presentes em um mesmo locus reflexivo as diversas maneiras de interpretação da realidadesocioambiental em sua diversidade de ângulos e dimensões (espaciais etemporais) e múltiplas variáveis (sociais, ecológicas, econômicas, culturais)em jogo na configuração de saberes e práticas locais de natureza.

Novos atores sociais do campo começam a apresentar e consolidarpropostas alternativas para garantir a reprodução do modo de vida rural decomunidades tradicionais: pescadores artesanais, caiçaras, pantaneiros,quebradeiras de coco, etc. Em comum, essas comunidades reproduzempráticas produtivas agrossilvipastoris específicas e práticas simbólicas vinculadas ao modo de vida rural, conectadas relativamente ao espaço urbano,configurando patrimônios paisagístico-territóriais sui generis, isto é suas identidades socioterritoriais.

Com base no exposto, o presente trabalho insere-se em questõesrelativas à reprodução e adaptação do modo de vida das comunidades ruraisfrente aos processos modernizantes hegemônicos pautados pelaracionalização do espaço e do tempo sociais e ecológicos. A reafirmaçãode sua identidade está aderida à condição de indissociabilidade ao seu território que registra em sua paisagem as ações da coletividade no passadoe no presente, o que lhes permite referenciar seus valores, práticas e visõesde natureza junto aos demais atores sociais do espaço rural. O complexoterritório-paisagem comporta, nesses termos, o projeto de vida de dadogrupo social, evidenciando as formas de apropriação social da natureza,configurando o o patrimônio cognitivo da diversidade socioecológica.

A partir da prática investigativa inter e transdisicplinar são agenciados conceitos e métodos múltiplos (advindos da geografia, antropologia,sociologia, ecologia) acerca da diversidade de práticas e saberes que cadagrupo humano constrói em seu território: trata-se de incorporar no seio dasmetodologias as variáveis socioambientais (os sistemas de práticaseconômicas, as representações de natureza, as regras coletivas de uso edistribuição dos bens e as características geoecológicas locais) envolvidasnas formas de apropriação do território, permitindo assim que taismetodologias sejam virtualmente capazes de apreender a multicausalidadee o potencial sinérgico do conjunto de processos de ordem física, biológica, tecnológica e social que integram o tecido complexo que configuram aidentidade Socioterritorial de uma comunidade rural.

Nesses termos, busca-se lançar um olhar interiorizado sobre as práticas materiais e ideais das populações rurais, cotidianamente ressignificadas frente aos processos modernizantes, aparecendo como fundamental compreender as formas de apropriação de natureza de um dadogrupo social. Trata-se, portanto, da adoção de uma abordagem complexados processos socioterritoriais.

A abordagem espacial das praticas sociais: o local e o global, o territorio vivido e o normado

Questionando-se a respeito de qual deveria ser o objeto de estudoda geografia - se o espaço, a paisagem, a região etc, Milton Santos (2006)sugere que a geografia não deve voltar-se unicamente sobre um sistema deobjetos, mas sim sobre um sistema de ações que produzem e agem sobreaqueles:

(...) de um lado, os sistemas de objetos condicionam a forma comose dão as ações e, de outro lado, o sistema de ações leva à criação de objetos novos ou se realiza sobre objetos preexistentes (...) querespondem a condições sociais e técnicas presentes em um dadomomento histórico e, cuja reprodução, obedece a condições sociais(Santos, 2006, p.63 e p.68).

Dessa formulação, o geógrafo elabora a definição de espaço comoum conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistema deobjetos e sistema de ações, posto que

(...) são as ações que, em última análise, definem os objetos, dandolhes um sentido; (contudo) hoje, os objetos "valorizam"diferentemente as ações em virtude de seu conteúdo técnico. Assim, considerar as ações separadamente ou os objetos separadamente nãodá conta de sua realidade histórica. Nesse sentido, o espaço geográfico deve ser considerado como algo que participa igualmente dacondição do social e do físico, um misto, um híbrido (Santos, 2006,p.86).

No centro das teorias sociais (sociológicas e geográficas), portanto,estão presentes os conceitos weberianos de ação e objeto. As ações sociaissão entendidas como um processo de transformação de objetos, com sentido e direção mais ou menos definidos: um processo de transformação noqual determinados objetos são transformados em outros que foram idealmente representados no início da prática e desejados como fins ou objetivos, isto é, um projeto representado idealmente pelo(s) agente(s). Esseprocesso de transformação ocorreria dentro de estruturas econômicas, políticas e ideológicas determinadas, legitimando o conjunto de ações econferindo um sentido à organização da sociedade em seu conjunto (Leff,2000; Pinto e Arrazola, 2005).

Não obstante, com o aprofundamento da crise do projeto modernizador das sociedades, as próprias teorias sociais começam a serquestionadas, pois com a crise emergem novos atores sociais com práticasdescontextualizadas do sistema e que não fazem nexo ao modelo deentendimento da organização social.

Assim, a emergência do novo acaba por contradizer os paradigmasfundantes destas teorias. A contradição parte da idéia de que para uma açãoser classificada como social, no sentido weberiano, o significado da açãoconferido pelo indivíduo deve necessariamente ser buscado no sistema social. Os novos atores, entretanto, por não demonstrarem interesse de seintegrar, obrigatoriamente não buscam os sentidos para suas ações no sistema social. Nesse sentido, suas ações até podem ser consideradas como nãosociais (Floriani et al, 2010).

Disso decorre, segundo os autores citados, outro entendimento daorganização e da desorganização do sistema

(...) ao darmos sentido a uma determinada maneira de os seres humanos fazerem história, em que a mesma resulta de um desejo defazer e que esse desejo apresenta limites subjetivos (a maneira decomo representamos a realidade) e objetivos (as condições materiaise ideais de como realizar uma certa história), resultando em (...)narrativas sobre esses processos de construção social e da relaçãoque os seres humanos estabelecem entre si e com a natureza, bemcomo das racionalidades fundadoras e decorrentes desse processocontraditório (Floriani et al, 2010a, p.90).

No mesmo sentido, Milton Santos (2006, p. 55) destaca que dessejogo dialético entre o material e imaterial resulta a produção do imaginárioe da percepção do espaço e do tempo, traduzidas como invasões recíprocasentre o operacional e o percebido:

Esse imaginário tem uma forte base empírica. O espaço se impõeatravés das condições que ele oferece para a produção (...), para aresidência, para lazer, como condição de ‘viver bem’, para o exercícioda política (…); como meio operacional presta-se à avaliação objetiva e como meio percebido está subordinado a uma avaliação subjetiva (…) (Santos, 2006, p.55).

Ora, a contradição inerente à maneira como o ser humano se relaciona com o outro e com a natureza - posto que as intenções humanas sãoconstituídas tanto de elementos racionais como não-racionais - decorre em disputas entre campos do saber pela legitimação de sentidos sobre o que seentende de natureza e sociedade; a este processo Floriani et al (2010a)chamam de políticas da natureza, compreendido como o entendimento teórico e prático que emergem desses mecanismos de apropriação e produçãomaterial e simbólica do mundo.

Em outro nível de análise, na escala dos territórios, um jogo de oposições é evidenciado quando uma racionalidade é imposta sobre as outrasformas de ações e saberes pelo uso e apropriação de natureza. Tal jogoconflitivo reflete, conforme Milton Santos (2009), as formas como o modelo hegemônico de produção e consumo do espaço é planejado para ser,em sua ação individual, forçosamente indiferente ao seu entorno.

Tal modelo ancora-se na visão hegemônica, não somente nas teoriasde sociedade, mas também nas ciências da natureza, refletindo o processopolítico de construção social de espaço e tempo. Esses modelos,apropriando-se das palavras de Doreen Massey (2008, p. 94), fundamentamse na forma de "conceber o espaço como estático, através do tempo, comorepresentação, como um sistema fechado, e assim por diante, são todosmodos de subjugá-lo".

Ora, até o presente momento assistimos à perturbadora hegemoniade um tipo de cultura científica assente sobre velhos paradigmas de análiseda realidade social. Conforme, Boaventura de Sousa Santos (1988)

(…) todos os conceitos com que representamos a realidade (asociedade, o estado, o indivídu e a comunidade, a cidade e o campo,as classes sociais, etc...) têm uma contextura espacial física e simbólica, que nos tem escapado pelo fato de nossos instrumentos analíticos estarem de costas viradas para ele, mas que, vemos agora, é achave para a compreensão das relações sociais de que se tece cadaum desses conceitos, Sendo assim, o modo como imaginamos o realespacial pode vir a tornar-se a matriz das referências com que imaginamos todos os demais aspectos da realidade (141).

Não obstante, o território, de algum modo, se opõe à plenitude dessahegemonia: além das racionalidades típicas que atravessam o território, oespaço vivido admite a presença de outras racionalidades (ou contraracionalidades e irracionalidades), em cujo âmago são priorizadas formasde convivência e regulação criadas a partir do próprio território a despeitoda vontade de unificação e homogeneização que caracterizam aracionalização econômico-instrumental do espaço (Santos, 2009).

Ao colocarmos os dispositivos da ação-cognição humana nessasbases, abrimos a possibilidade de não nos aprisionarmos de antemão narigidez de um esquema mental que tende a impedir a ocorrência deemergências, de incertezas e de ambigüidades, pela ação humana, no interior dos processos sociais, ou seja, inibindo a própria criatividadedesafiadora. Assim, operamos com um sistema de racionalidade aberto(Floriani, 2010a).

Conforme Doreen Massey, a instauração de uma imaginação espacial alternativa permitiria pensar o espaço abertamente, como multiplicidades discretas, onde os elementos estão impregnados de temporalidades, istoé, como multiplicidades coetâneas de outras trajetórias e vozes, cujainterpretação requer "uma mentalidade aberta à subjetividade espacializada" (Massey, 2008, p. 93).

Trata-se, portanto, de defender um modo de ser e pensar diferentes,a partir de uma imaginação e de uma atitude capazes de propiciar odesenvolvimento potencial de uma mentalidade aberta à subjetividadepraticada, isto é, à vivência do espaço enquanto experiência de multiplicidades de coisas e de relações (idem, 2009).

Dito de outra maneira, a vivência do espaço deve ocupar uma dasposições de destaque no estudo da relação sociedade-natureza, a partir deum novo paradigma para pensar a sociedade-espaço: o paradigma da cultura, que nega os antigos modelos, porque nenhum deles consegue dar contados sujeitos emergentes, cujas ações estão centradas nem na política nemna sociedade, mas na cultura.

Conforme Floriani et al (2010), nos velhos paradigmas, em prol dalibertação dos dominados, aprendeu-se a se admitir que os mesmos nãoteriam condições de se emanciparem, em função de estes velhos paradigmasterem enxergado a realidade social como expressão maximizada dadominação e da negação de espaços à auto-realização dos indivíduos. Istosignifica que no centro do novo paradigma estão o sujeito e os direitosculturais.

Com a nova compreensão de que as culturas são produzidas ereproduzidas por meio de práticas sociais, a partir dos anos de 1970, ocorreuma guinada da geografia em direção às ciências sociais e às humanidades.A essa formulação os geógrafos acrescentariam a variável espacial: "comoas culturas são produzidas e reproduzidas por meio das práticas sociais queocorrem em uma variedade de escalas espaciais"? (McDowell, 1996, p.164).

Destarte, a cultura, interpretada pelo viés do espaço geográfico, nãopode ser separada da idéia de território e paisagem. Ora, é pela existênciade uma cultura que se cria um território e é por ele que se exprime a relaçãosimbólica existente entre a cultura e o espaço e identidade de um gruposocial (Bonnemaison, 2002).

Segundo Linda McDowell (1996), contrariamente aos antigos geógrafos materialistas culturais, os novos analistas de paisagem, reconheceram que as paisagensmateriais não são neutras, mas refletem as relações de poder e as‘dominantes maneiras de ver’ o mundo (...); (assim), paisagem não éentendida apenas como o resultado material das interações entreambiente e sociedade, mas também como conseqüência de umamaneira específica de olhar (McDowell, 1996, p. 175).

Nessa nova abordagem, a paisagem é concebida como uma imagemcultural, a partir da qual os geógrafos passariam a desenvolver maneiras deler as paisagens como se fossem textos (como é o caso de Denis Cosgrove e Augustin Berque), a partir dos quais é possível analisar os recursos arespeito de um assunto elaborado e expressado dentro de um sistema depensamento ou conjunto de conhecimentos codificados por um dado gruposocial (McDowell, 1996).

Fazendo alusão aos trabalhos de Armand Frémont acerca do conceito de região enquanto espaço vivido, assim como em trabalhos de MichelBenoît sobre uma ‘verdadeira’ etnogeografia com base no conceitolablachiano de gêneros de vida, bem como de Gilles Sautter com suametodologia de caracterização dos terroirs africanos, Bonnemaison ressubjetiva a idéia de paisagem, evocando as palavras de Sautter entre os homens e suas paisagens existe efetivamente uma conivênciasecreta, da qual o ‘discurso racional’ científico, dissecador eclassificador’ não pode dar conta. A paisagem é ao mesmo tempo, oseu prolongamento e o seu reflexo (Bonnemaison, 1981, p. 91).

Os Geógrafos culturais fazem alusão às etnometodologias, tais comoa fenomenologia, semiótica, hermenêutica. Para Maciel (2002), ahermenêutica aparece como a interpretação de um trabalho discursivo deordenamento da imagem de mundo, possibilitando por meio dela

desvendar como o imaginário da natureza é decodificado em valores simbólicos economicamente materializados, pois as práticasespaciais da humanidade não podem ser vistas como meramenteracionais. Penetrar nas representações é compreender o espaço tanto através dos processos visíveis, quanto por meio dos aspectosmíticos dos lugares, e a paisagem pode ser fundamental nesta conexãoobrigatória entre pensamento e imagem (Maciel, 2002, p. 99).

Para tanto, o mesmo autor, apoiado em Iná de Castro, ressalta queantes de qualificar em separado um imaginário geográfico, o problema docomplexo território-paisagem impõe a tarefa de interpretar a geografiacontida no imaginário social (e expressa no próprio discurso geográfico)como um dos caminhos para compreender o papel que as representaçõesdo meio desempenham nas práticas espaciais e na organização do espaço(idem, 2002, p. 107).

O subjetivo e o objetivo da fertilidade da natureza:disputa por sentidos, rupturas e hibridismos em sisteasde práticas-saberes tradicionais e modernos

O conhecimento tradicional é definido por Diegues et al (1999) como o conjunto de saberes e saber-fazer a respeito do mundo natural, sobrenatural, transmitido oralmente de geração em geração. Nesta matriz cognitivaexiste uma interligação orgânica entre o mundo natural, o sobrenatural e aorganização social. Nesse sentido, nas sociedades tradicionais "não existe uma classificação dualista, uma linha divisória rígida entre o ‘natural’ e o‘social’, mas sim um continuum entre ambos" (Diegues, 1999, p. 30).

Não obstante, na modernidade, com a disjunção do sujeito e danatureza, a partir da objetivação do mundo, há a separação (ou a purificação,como emprega Bruno Latour) dos três elementos, humanidade, coisas nãohumanas, e deuses, sendo tratados como conjuntos desconexos.

Além da purificação, há outro tratamento cognitivo na configuraçãodas práticas modernas: a tradução dos elementos uns pelos outros, o quecaracteriza, conforme Latour (1994), as práticas científicas modernas comoparadoxais, posto que por meio desta tradução há a proliferação dos híbridos,tão característica e praticada pelo pensamento pré-moderno.

Apresenta-se, então, uma tensão entre esquemas de pensamento, entre o moderno e o tradicional, e dentro do próprio pensamento moderno. Taismatrizes cognitivas, que definem ações distintas sobre a natureza, sãocarregadas de valores e imaginários, cujos significados são comunicadosde distintas maneiras no espaço - enquanto discursos sociais - e expressasde variadas formas; a materialidade da paisagem.

Nesses termos, a ideia de fertilidade da natureza fundamenta-se em práticas e representações distintas sobre a dinâmica da natureza. Aplicadaàs leis da ecologia agrícola e da pesca, a ideia de fertilidade não passa deuma simplificada noção. Centrada no diagnóstico dos processosecofisiológicos envolvidos na relação das plantas e peixes cultivados, naterra e no mar, o conceito científico clássico de fertilidade, nesse sentido, seria uma qualidade edafológica (qualidade da terra) ou limnológica possívelde manter a partir de propriedades biogeocenóticas da produção de matériavegetal e animal em níveis economicamente eficientes. Abstrai-se destarelação o fator humano, metamorfoseado em inputs tecnológicos e energéticos (ingresso de antibióticos, níveis adequados de oxigênio, trabalho, entre outros).

Verifica-se, contudo, que as particularidades socioambientais dosterritórios tradicionais, particularmente das regiões onde as práticasprodutivas modernas se fazem difíceis - tal como as regiões montanhosas,desérticas ou alagadas, nas pequenas faixas de praia, mangues e baías conseguem impor limites às formas de racionalização do espaço, fazendocom que as práticas produtivas sejam ressignificadas, revalorizadas pelascomunidades de acordo com o as histórias co-evolutivas impressas em seusterritórios, o que se traduz em termos de híbridos de práticas e concepçõesmoderno-tradicionais.

Os discursos sobre os atributos reprodutivos da natureza, interpretados como visões e projetos de mundo - as territorialidades – materializamse em tipos de paisagens puras e híbridas: desde os centros de poder docapital globalizam-se as paisagens da homogeneização, aquelas quesimbolizam uma racionalidade econômico-instrumental stritu senso (ex. as paisagens das monoculturas agrícolas, ou dos traços retos e uniformes e davelocidade nas cidades planejadas), onde prevalecem a uniformidade e asimplificação do pensamento e da natureza, cuja finalidade é a otimizaçãoda produção dos fluxos de energia, matéria e informação.

Na periferia, nos territórios relegados às margens do sistema-mundo, encontram-se as paisagens vernaculares, da diversidade socioambientalque, de uma maneira ou outra, buscam resistir à monocultura do pensamentotecnocientífico (fazendo referência à Vandana Shiva) - adaptando-se parcialmente à territorialização do mercado globalizado. Nestes termos, osterritórios tradicionais apresentam paisagens com formas e conteúdoshíbridos.

Ademais, os conhecimentos tradicionais (dos camponeses, indígenas, quilombolas, caiçaras, faxinalenses, entre outros) são orientados pelaatividade prática no território que, conforme MACEDO (2010),

(...) vai modificando constantemente os lugares e seus significados,marcando e renomeando, acrescentando traços novos e distintos aos trajetos construídos e percorridos (as itinerâncias). Podemos,portanto, falar de uma territorialidade movente, cambiante(MACEDO, 2010, p. 37).

Uma Territorialidade vivenciada dinamicamente pela coletividade,envolve, conforme Correia (2002) a complexidade das relações entre Regiãoe Política Cultural, da qual emerge o processo de apropriação regional,onde convergem práticas culturais diversas como celebração,memorialização e criação de símbolos identitários. Tal processo evidenciaa referenciada relação entre ação e cognição sintetizados em sistemasclassificatórios e saber-fazer vernaculares. Nas palavras do autor:

Cada divisão regional tem seu tempo, isto é, reflete as condiçõesobjetivas e subjetivas de sua construção, assim como as características da realidade espacial. (...) nomear a natureza e lugares é umexercício de autoridade e evidência de poder, sendo ainda instrumento de identidade de um grupo ou instituição e autenticação daapropriação territorial (...). (nesses termos), a toponímia não é umtraço identitário, mas também um importante meio pelo qual searticulam linguagem, poder e território (Correia, 2002, p. 26 a 33)

De maneira análoga, Werther Holzer (2002) desenvolve argumentos para explicar a emergência do fenômeno paisagístico de uma regiãovivida (apropriando-se da expressão cunhada por Armand Frémont). Noprocesso de configuração socioterritorial, o passado e o presente cotidianomisturam-se para materializar-se na paisagem vernacular que, por ser materialmente constituída por uma diversidade de artefatos, é o repositório dehistória e de memória.

Produto e produtora das territorialidades tradicionais, a paisagem vernacular - tal qual é aquela do aldeamento salineiro do qual Holzer fazreferência em suas reflexões – apresenta ordens objetivas e ideacionais deinteligibilidade. Nas palavras do autor

(...) a tessitura das relações sociais, econômicas e culturais, expressapadrões de ocupação e de cultivos, pela forma urbana (e rural) astipologias habitacionais, pelas relações de vizinhança e de parentesco, pelas crenças e pelos mitos, refletindo uma paisagem cultural(Holzer, 2002, p. 160)

Essa definição de paisagem se aproxima daquela defendida porAugustin Berque que a concebe como uma entidade dialeticamenteconstituída por ‘marca’ e ‘matriz’. Enquanto marca, possui um sentido implicando toda uma cadeia de processos físicos, mentais e sociais; estesprocessos participam dos esquemas de percepção, de concepção e de ação– ou seja, da cultura que canalizam, em certo sentido, a relação de umasociedade com o espaço e com a natureza, isto é, a paisagem enquanto‘matriz’. Nesse sentido, nas palavras de Berque

(...) a paisagem é plurimodal (passiva-ativa-potencial) como éplurimodal o sujeito para o qual a paisagem existe: a paisagem e osujeito são co-integrados em um conjunto unitário, que se autoproduze se auto-reproduz’ e, portanto, se transforma porque há sempreinterferências. essa relação impregnada de sentido é a cultura(Berque, 2004, p. ).

A cultura, interpretada pelo viés da política de natureza, não podeser separada da idéia de território. Ora, é pela existência de uma culturaque se cria um território e é por ele que se exprime a relação simbólicaexistente entre a cultura e natureza. Nessa perspectiva, cabe introduzir nadiscussão outro conceito relevante para os estudos da relação sociedadenatureza, desde a perspectiva das subjetividades espaciais praticadas: osgeossímbolos.

Termo cunhado pelo geógrafo francês tropicalista Joël Bonnemaisonem complementaridade (e mesmo oposição) ao termo geoestrutura, osgeossímbolos são entendidos como um conjunto de signos que estruturama paisagem, dando um sentido ao território que, por meio de sua dimensãosimbólica, confere-lhe uma territorialidade cultural. Nas palavras deBonnemaison,

(...) o geossímbolo pode ser um lugar, um itinerário, uma extensãoque, por razões políticas, religiosas ou culturais, aos olhos de certaspessoas e grupos étnicos assume uma dimensão simbólica que osfortalece em sua identidade (Bonnemaison, 2002, p.99).

Desde a perspectiva da política da natureza, Pedro C. B. Silveira(2011) considera as expressões objetivas da paisagem para evidenciar aexistência de um processo conflitivo pelo uso e apropriação do território desencadeado pelos dispositivos de modernização do meio rural,conjuminando no fenômeno de separação da paisagem em espaços deprodução e espaços de conservação. De acordo com o autor, tal fenômenode separação (purificação, como diria Bruno Latour) evidencia um contexto de crise e degradação sócio-ecológica na região, a partir do qual emergemhíbridos na paisagem que não atendem nem aos objetivos da produção nemaos da conservação.

Com base na análise fisionômica das formas paisagísticas domunicípio de São Luiz de Paraitinga, região do Vale do Ribeira, no estadode São Paulo, o referido autor constrói uma tipologia de usos da terra para o contexto sócio-espacial onde diferentes grupos de atores discorrem sobreuma mesma referência espacial, produzindo territórios da agricultura familiar, da mineração, das empresas de reflorestamentos e das políticas públicas ambientais (as unidades de conservação) em uma mesma região. Asdiferentes tipologias lhe ajudaram a mostrar que uma paisagem está sujeitaa práticas de sentido de separação entre áreas do domínio da natureza eáreas de domínio da cultura, permitindo a proliferação de espaços e processoshíbridos que escapam ao processo de purificação, própria da constituiçãomoderna.

Em outro artigo, Nicolas Floriani (2007) também traz à tona a questãodo projeto de modernização do mundo rural ao discutir os fundamentosteórico-metodológicos envolvidos nos esquemas de planejamento do espaçorural periurbano, tomando especificamente como exemplo o município deRio Branco do Sul, região metropolitana de Curitiba.

Do estudo de caso, constatou-se a reconfiguração do espaço ruralsubordinada aos imperativos do dispositivo agrícola da modernização, istoé, subordinado ao conjunto de práticas, de enunciados científicos, e deinstituições que tratam o rural como exclusivamente agrícola e como estoque de recursos naturais para a população urbana. O tratamento da naturezase inscreve, assim, no projeto moderno de separação radical, por meio dosesquemas oficiais de planejamento dos territórios, entre espaço de produçãoe espaço de proteção, participando da instauração da grande separação entre sociedade e natureza, tão típica da modernidade ocidental (Floriani, N.,2007).

Nos dois casos, é possível inferir que a produção de híbridos assumemuma conotação negativa. Não obstante, há também a produção de híbridoscomo resultado de racionalidades substantivas, decorrentes do processo dedisputa pela apropriação do território (práticas produtivas e simbólicas alternativas), evidenciando os aspectos conflitivos da Política de Natureza.

Neste caso, os híbridos assumem conotação positiva, sendointernalizados e ressignificados pelos atores sociais; nesse processo umsentido não-moderno (contra-hegemônico) de relação sociedade-naturezaaparece reestabelecendo os laços entre a humanidade e a não-humanidade,doravante separados na constituição do pensamento moderno. Esse processo de ressignificação aparece em diversos contextos socioterritoriais ruraiscontemporâneos – em comunidades de pescadores artesanais, de agricultores familiares agroecológicos, de faxinalenses, de quilombolas, entre outros– onde a tradicionalidade é reivindicada como forma de resgate e reafirmaçãoidentitária frente ao projeto modernizador do mundo rural.

O estudo realizado por Nicolas Floriani e colaboradores (2010), noFaxinal Paranaense Taquari dos Ribeiros, no município de Rio Azul, Paraná,também evidenciou hibridismos derivados da separação entre humanos enão-humanos, assim como de hibridismos derivados da tessitura (junção)entre aqueles no meio rural. Rupturas/tessituras ocorrem na escala dapaisagem do território agrícola do Faxinal captadas de acordo com as escalas e dimensões investigadas: do simbolismo das formas escritas na paisagemao sentido das ações inscritas no sistema cognitivo.

Desde um olhar internalizado das práticas sociais foi possível evidenciar o fenômeno de transformação e metamorfose do saber-fazer de uma comunidade faxinalense frente ás práticas produtivas e concepções modernas de fertilidade de natureza. Nas palavras dos autores:

(...) as práticas modernas de agricultura (representada pelaterritorialização da fumicultura industrializada) são ressignificadaspela comunidade faxinalense quando aspectos geoecológicos locaiscondicionam as práticas modernas de cultivo sendo, portanto, adaptadas e incorporadas segundo o habitus da comunidade faxinalense. (...) Ora, evidencia-se assim um problema que revela uma dualidadeentre ‘técnica’ e ‘prática’: contrariamente às técnicas, as práticasnão podem ser operadas sem se levar em conta condições sociais egeoecológicas onde são gestadas; tem como fundo a revalorizaçãodas práticas agrícolas no contexto em que são geradas, isto é, em umdado território. Atrás desta dualidade escondem-se entendimentos (cosmovisões) diferenciados sobre o funcionamento e as vocaçõesprodutivas de Natureza. Leva em conta os ideótipos agrícolas que,conforme Azevedo (2005), vinculam-se a modelos idealizados deagricultura, construídos a partir da cosmologia (o sistema de crenças,a rede simbólica) que cada grupo social possui sobre as capacidadesprodutivas da Natureza (Floriani, N. et al, 2010, p. 10).

Do estudo do Itinerário Agrícola praticado nas "Terras de Plantar"foi possível evidenciar a relação entre as etapas, as técnica, os instrumentose os recursos disponibilizados na produção do componente central do sistema de produção - a fumicultura intensiva hibridizada ao sistema tradicional de práticas faxinalenses:

O sistema produtivo centralizado no fumo como tal faz convergirgrande parte dos recursos (humanos e naturais) no desenvolvimentoda atividade moderna industrial: a sucessão das espécies cultivadasnas glebas ocorre de forma a privilegiar a completude do ciclo dofumo em maior área útil possível, reservando parcelas menores arranjadas para o cultivo do milho no verão e aveia no inverno.Algumas variações desse subsistema produtivo ‘fumo-milho(feijão)aveia’ praticado nas ‘Terras de Plantar’ marcam o esquema atual: 1. o cultivo consorciado de abóbora ou melancia com o milho; 2. a reserva de áreas para o manejo de espécies arbóreas nativas como abracatinga ou exóticas como pinus e eucalipto; e 3. o cultivo dereduzidas parcelas com feijão e soja, consorciados ou não. Ora, éjustamente nessa variação do sistema de cultivo hegemônico quereside a particularidade do sistema faxinalense do Taquari dosRibeiros: mostra-se latente um sentimento de resistência da comunidade ao processo modernizador do seu território quando 43%dos agricultores da comunidade afirma dar continuidade à criaçãode pequenos animais e a extração de erva-mate no subsistema‘Criadouro Comunitário’ (Floriani, N. et al, 2010, p.229).

Ademais, o sistema produtivo moderno está aderidoparadoxalmente aos elementos diagnósticos da qualidade das terras,vinculados aos saberes agrícolas tradicionais, principalmente no que serefere à utilização e significação de porções da paisagem constituídaspor elementos geobiocenóticos historicamente manejados com a agricultura tradicional:

(...) as ‘terras-pretas’, concebidas como ambientes férteis (solo sricosem matéria orgânica derivados da dinâmica de sedimentação alúviocoluvial e do desenvolvimento de matas de galeria) propícios aopolicultivo de gêneros alimentícios tradicionais, que caracterizam osistema de produtivo da agricultura cabocla de subsistência‘feijão(milho)-mandioca-bracatinga’ da região sul do Brasil (Floriani, N. et al, 2010, p.232).

Trata-se, portanto, do problema da construção social doconhecimento que emana de um processo de legitimação das práticas deapropriação e utilização da natureza: o conhecimento científico apoia-sena objetivação da noção de fertilidade (reprodutibilidade) dos elementosecossistêmicos, base para a racionalização instrumental e econômica doespaço; ao passo que a noção de fertilidade para os agricultores alicerça-senuma base cognitiva que combina racionalidade e subjetividade para agirna (e com a) terra, isto é, fruto da própria história de vida familiar, e dacoletividade local, construídas em interdependência com os ecossistemas,cuja dinâmica retro-alimenta (informa) o sistema cognitivo, direcionando eadaptando o sistema de práticas agrícolas.

Assim, as territorialidades tradicionais, nestes termos, estão aderidas às particularidades dos fenômenos geoecológicos locais e a história de vidafamiliar e à organização social comunitária. Essa relação de interdependênciasociedade-natureza reflete a particularidade da relação de um grupo tradicional com o ambiente: a impossibilidade de mudar a ordem natural semmodificar a ordem social e vice-versa, o que obriga os pré-modernos, desde sempre, a ter uma grande prudência (Latour, 1994, p.46).

Portanto, a relação que uma comunidade possui com seu ambiente éa expressão histórica do saber prático implícita ou explicitamente codificado na paisagem:

(...) um código genético local, material e cognitivo; produto socialda territorialização que se constituye en patrimonio territorial decada lugar (...), en lo cual hay una co-evolución social y natural"(Magnaghi apud Saquet 2007, P.148).

Auto-eco-organizaçao da complexidade socioterritorial:a dinamica apropiaçao-reproduçao dasociogeobiodiversidade em comunidades rurais

Segundo Enri Atlan (1992), a auto-organização pode ser entendidacomo o surgimento de uma organização estrutural que ocorre dentro desistemas dinâmicos dissipativos não-lineares. Ela carrega consigo oprincípio da complexidade a partir do ruído, defendendo que o processoauto-organizador cria o radicalmente novo, ampliando a capacidade do sistema interagir com os eventos que o perturbam, assimilando-os e modificando sua estrutura.

O paradigma da complexidade (Morin, 1983) fundamenta-se na idéiade sistema inserido na unidade no múltiplo, sintetizada no conceito de auto-eco-organização. Adota, para tanto, certos princípios lógicos articuladoresentre si das dimensões física, biológica e antropossocial: o dialógico, oautogerativo e o hologramático. Tais princípios permitem evidenciar asemergências do enraizamento da esfera antropossocial na esfera biológica,e desta na matéria, expressando a necessidade de unir o objeto ao sujeito eao ambiente, contemplando suas histórias co-evolutivas.

Nesses termos, a idéia de apropriação cultural, de acordo com Weber(1997), aparece revestida de um sentido inovador, capaz de integrar aspráticas e o saberes de natureza de uma dada coletividade. Envolve, segundo Weber (1997), as seguintes dimensões em relação de interdependências:

i) o sistema de representações cognitivas dos atores sociais implicados; ii) os usos possíveis dos recursos naturais (...) ; iii) as modalidades de acesso e de controle do acesso aos recursos; iv) as modalidades de transferência de direitos de acesso (...); v) e finalmente, asmodalidades de repartição ou partilha dos recursos, ou dos frutos desua exploração (Weber, 1997, p.31)

Desde a perspectiva da teoria dos sistemas agrários, o conceito osistema social produtivo é também visto como um conceito integrador entre ação e cognição, sendo definido como um sistema técnico, econômico esocial composto de homens e mulheres (força de trabalho, conhecimento esavoir-faire), meios inertes (instrumentos e equipamentos produtivos) e de matéria viva (plantas cultivadas e animais domésticos) de que dispõe apopulação rural para desenvolver as atividades de renovação e de exploraçãoda fertilidade do ecossistema cultivado, a fim de satisfazer direta (porautoconsumo) ou indiretamente (por trocas) suas próprias necessidades(Garcia Filho, 2004).

Tomadas as devidas precauções para não simplificar o sistema depráticas sociais à práticas exclusivamente econômicas, a aproximação entre a pesca artesanal e o enfoque sistêmico apresenta-se também profícuo àação-imaginação espacial da reprodução da sociobiodiverdade.

Frizzo e Andrade (2004) propõem uma adequação conceitual emetodológica das teorias de evolução e diferenciação dos sistemas agrários,através do uso de conceitos como os sistemas pesqueiros, sistemas de produção na pesca e sistemas técnicos de pesca.

(...) a exemplo dos sistemas agrários, historicamente constituídos,os sistemas de produção na pesca evoluem e se diferenciam emfunção da dinâmica de mudanças sociais, econômicas, políticas, técnicas e ambientais. Os sistemas pesqueiros representam, portanto, oconjunto de formas através das quais os pescadores (seja pescaartesanal ou industrial) realizam seu trabalho sobre o ambienteaquático em uma determinada região, bem como as relações queestabelecem entre si e para com as demais atividades que, direta ouindiretamente, influenciam estes espaços (Frizzo e Andrade, 2004, p. 08).

Em outros termos, o estudo dos sistemas de produção na pescaconstituiria, segundo os referidos autores, uma unidade de análise adequadapara compreender os diferentes tipos de pescadores, as relações entre elese as mudanças produzidas dentro da pesca em relação às condições externas. Entretanto, ressalvam que há a necessidade de se estar atento para doisfatores cruciais no entendimento da complexidade da reprodução socialdesses sistemas:

i) o fato de a subjetividade dos atores jogar um papel decisivo sobrea forma como este sistema estará evoluindo, uma vez que conduzsuas interpretações e decisões frente à realidade e, ii) o fato de afamília constituir a unidade de análise e, portanto, os sistemas deprodução na pesca passam a ser dinamizados pelas estratégias dereprodução implementadas pelo sistema familiar, à quais podem sesomar outras que são buscadas fora da pesca, mesmo que tendo comoobjetivo "continuar enquanto uma família de pescadores" (Frizzo eAndrade, 2004, P. 10).

Além do conceito de sistema de produção, outro importante conceitoligado ao estudo da auto-eco-organização dos sistemas socioterritoriais é oconceito de Resiliência. Pelo viés ecológico, a resiliência de um ecossitemadiz reseito a sua capacidade de tolerar distúrbios mantendo sua estrutura e seus principais processos e funções; Desde a perspectiva antropossocial, aresiliência dos sistemas socisis diz respeito a sua capacidade adaptativa,isto é, à capacidade que um ecossistema socioecológico possui de aprender, organiar-se e adaptar-se frente a distúrbios sem perder sua estrutura efunção. Sssim, a resiliência sociocultural seria capaz de articular as esferassimbólicas, produtivas e políticas de natureza, articulando conhecimentoecologico local com as ciências (Seixas e Berkes, 2005).

De acordo com a teoria ecológica, entende-se que quanto maisdiversidade (estrutural e organizacional) apresenta o sistema maior deveráser a capacidade de resistir e adaptar-se às mudanças drásticas. Nesse sentido, Pieve e colaboradores (2009) identificaram níveis de adaptações aocontexto socioambiental dos pescadores artesanais na Lagoa Mirim - estado brasileiro Rio Grande do Sul ; os autores partem do princípio de que adinâmica do conhecimento ecologico local dos pescadores é um dos fatoresresponsáveis pela resiliência das comunidades na medida em que influencia as formas de utilização de recursos naturais da Lagoa Mirim e por esteinfluenciado conforme as mudancas socioambientais vao-se apresentando.Nas palavras dos autores:

Tal processo é evidenciado a partir da analise da relação entre osvalores de uso das etnoespecies de peixes utilizadas atualmente e nopassado, por exemplo, de peixes que tinham maior valor de uso nopassado e deixam de ter importância no presente, como o linguado,bagre e dourado, os quais são peixes de valor comercial que nãoexistem mais em abundancia na Lagoa Mirim (...). Também cabeaqui ressaltar que o espinhel é uma pratica que se mantém ao longodo tempo como uma estratégia de aumentar a produção (...). As formas de organização do trabalho também se seguiam uma serie deestratégias que combina a dinâmica do ecossistema com a dinâmicado trabalho (...): no inverno com a água fria, o trabalho pode sermais espaçado, pois a deterioração do pescado mesmo na rede émais lenta. (Pieve, 2009, p194 ).

Assim, concluem os autores acima citados que as estratégias detrabalho associadas a dinâmica do ambiente mostram as relações entre conhecimento ecológico local e os aspectos culturais e econômicos queinfluenciam esta categoria de pescador, conferindo relações de trabalhodiferentes, mas ainda flexíveis. Esses processos adaptativos, que são antecedidos pela presença da informação e cultura permitem a resiliencia dascomunidades, ou seja, "é no conhecimento ecológico dos pescadores quese encontra a possibilidade da permanência de ser pescador" (PIEVE etal, 2009, P. 200).

No caso da formação socioespacial da região da Grande Ilha deChiloé, no Sul do Chile, modernização da pesca artesanal geroutransformações nos saberes e práticas das comunidades: até 1980, o regimede livre acesso, concordante ao modelo neoliberal resultou na sobreexploração de espécies gerando negativos impactos sociais, ecológicos e econômicos; no decênio seguinte, o estabelecimento da Lei Geral de Pescae Aqüicultura de 1992 e a implementação de Áreas de Manejo e Exploraçãode Recursos Bentônicos (AMERB) em 1995, acarretaram conflitos ereorientações nas práticas de deslocamentos no mar, uso de ferramentas eorganização laboral dos pescadores artesanais.

Considerando o contexto socioeconômico desencadeado peloprocesso de modernização da sociedade litorânea do sul do Chile, coubeaos autores investigar os mecanismos de adaptação e reproduçãosociocultural dos dois tipos de assentamentos, distintos em sua origem: acaleta de Guabún de agricultores-pescadores tradicionais e a caleta dePuñihuil de pescadores tecnificados vindos do norte do país há mais de 30 anos.

A comparação dos sistemas de práticas (ação-cognição) das duascaletas permitiu trazer à tona a questão dos graus de pertencimento, daidentificação dos pescadores das duas comunidades em relação ao seuterritório e as possibilidades de reprodução de seu modo de vida

O apego de Guabún e desapego de Puñihuil têm um impacto no usodos recursos (...). Demonstra-se que o apego territorial de Guabúngera uma apropriação diversa dos recursos. Em Puñihuil o desapegotermina gerando uma falta de apropriação e utilização do entorno, oqual se reforça com uma lógica de busca e exploração do recursocom independência da conformação de um modo de vida litoral. EmGuabún o apego territorial produzido no tempo tem gerado umadiversidade de denominações sobre o espaço o que tem permitido acomunidade viver em um ambiente amplo e com suficientebiodiversidade; (...)

A partir dessa matriz socioprodutiva espacialmente e temporalmente diversa que configura a territorialidade de Guabún surge então apossibilidade de se produzir estratégias de complementaridade, geradasdesde as condições locais. Trata-se, pois, dos processos de aprendizagem eadaptação por parte dos pescadores e do sentido dado ao contexto social dedefesa dos recursos do território que condicionam positivamente mudançasna cotidianidade, ao mesmo tempo em que possibilita processos dediferenciação territorial conforme suas peculiaridades geográficas.

Trata-se de um sistema complexo adaptado à geografia e orientadonaturalmente para uma incipiente administração local dos recursos.Estas características são potencialidades para o manejo local (...).Com base nelas o pescador de Guabún tem escolhido uma forma deadministrar os recursos que implica em não abrir completamente acaleta ao mercado e manter a territorialidade a favor da comunidade (...). O (território) da AMERB se conecta com o mercado internacional, enquanto que as outras praias se conectam com o mercadolocal e com economia familiar sem predominar um sobre os demais(Cortes e Rios, 2011, p. 600 e 601)

Nesses termos, destaca-se que no processo de modernização eintegração ao mercado mundial existe um processo de resgate eressignificação do imaginário de natureza: a natureza – "imaginada comomatérias-primas desvalorizadas que alimentam a acumulação do Capitalem escala mundial fundada na troca desigual de bens primários contramercadorias tecnológicas" – é ressignificada nos territórios tradicionais ealternativos enquanto "fonte de simbolização e significação da vida, suportee potencial da riqueza material e espiritual dos povos" (Leff, 200, p. 9596).

Com relação aos processos de (re)territorialização do Capital sobreoutros territórios (tradicionais e alternativos), Rogério Haesbaert (2010)evidencia um mito subjacente à visão antropocêntrica do mundo - quedicotomiza as categorias sociedade e natureza, global e local, tempo eespaço, material e simbólico

(...) o mito da des-territorialização (concebido como um) processoexclusivamente humano, como se a materialidade do espaço pudesseprescindir ou abstrair as bases ‘naturais’ sobre as quais foi concebida (...) (sendo) necessário desenvolver um sentido relacional domundo que integre essas esferas e reconheça a própria imanência doterritório à existência humana (...) (Haesbaert, 2010, p.368).

Nesse sentido, Enrique Leff (2000) afirma que as formas dedominação do Capital dependem das condições de reprodução dos diferentes ecossistemas e formações culturais

(...) mesmo quando o modo de produção capitalista sobredeterminaa transformação dos ecossistemas, as estruturas ecológicas e culturaisestabelecem as condições de resiliência para as formas concretas deexploração da Natureza e, consequentemente, a capacidade desustentação, reprodução e de desenvolvimento de uma formaçãosocial num determinado meio geográfico (Leff, 2000, p. 101).

Ora, tais especificidades incluem, assim, as possibilidades de diferentes graus de adaptação e metamorfoses dos saberes e práticas produtivaslocais frente ao processo modernizador dos territórios. A reprodução deterritorialidades contra-hegemônicas ancora-se em imaginários de naturezadistintos (e metamorfoseados) daqueles praticados pelo Capital: a fertilidadeimaginada nos territórios da agricultura e pesca tradicional, assim comonos territórios alternativos (da agricultura de base ecológica) subsume,portanto, a reprodutibilidade da sociobiodiversidade do sistema produtivolato sensu, cuja expressão geossimbólica materializa-se de forma híbridano complexo familia-paisagem-território, em função dos condicionantesgeoecológicos locais, dos valores tradicionais, e das estratégias de adaptaçãoaos projetos de territorialização do capital sobre seus territórios.

 

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Recibido: 11.12.2012 Aceptado: 07.03.2013

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