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Idesia (Arica)

versión On-line ISSN 0718-3429

Idesia vol.30 no.2 Arica ago. 2012

http://dx.doi.org/10.4067/S0718-34292012000200005 

Volumen 30, Nº 2. Páginas 39-43 IDESIA (Chile)

Investigación

 

Estimativa de danos de granizo no limbo foliar do morangueiro sob proteção do agrotêxtil

Estimation of hailstone damage to the leaves of strawberries under a textile protection

 

Rosana Fernandes Otto1*, Silvana Ohse1, Fábio Corso2

1 Universidade Estadual de Ponta Grossa. Av. Carlos Cavalcanti, 4748. Ponta Grossa-PR. Brasil.
2 Engenheiro Agrônomo. Email: fabio_corso@hotmail.com. Ponta Grossa-PR. Brasil.

Correspondencia a:


RESUMO

Na produção de hortaliças, uma alternativa de proteção contra danos causados por chuva de granizo pode ser a cobertura das plantas com agrotêxtil. Em Ponta Grossa-PR foi conduzido um experimento com o objetivo de avaliar o nível de dano causado por granizo em morangueiro cultivado sob agrotêxtil (PP) e em ambiente natural (AN). O delineamento experimental utilizado foi de blocos casualizados com tratamentos arranjados em parcelas subdivididas, com quatro repetições. O fator principal foi sistema de cultivo (PP x AN) e o secundário foi cultivares de morangueiro (Ventana, Camiño Real e Camarosa). O agrotêxtil foi colocado sob as plantas imediatamente após o transplante e mantido durante todo o ciclo. Foram avaliados os danos causados por granizo no limbo foliar por meio de notas transformadas segundo a equação de Townsend-Heuberger. A interação entre o sistema de cultivo e as cultivares não foi significativa, assim como não houve diferenças para danos de granizo entre as cultivares avaliadas. Entretanto, as plantas protegidas com agrotêxtil apresentaram, em média, 13,7% de danos no limbo foliar contra 88,1% de danos nas plantas cultivadas em AN. O agrotêxtil é um material que apresenta alto índice estimado de proteção contra danos de granizo sobre a área foliar do morangueiro, devendo ser utilizado como proteção da planta, quando o sistema meteorológico alertar sobre o risco de chuvas dessa natureza.

Palavras-chave: Fragaria x ananassa Duch., nível de dano, cultivo protegido, polipropileno.


ABSTRACT

For horticultural production, plant protection by nonwoven material may be an alternative for protection against the damage caused by hailstones. An experiment was conducted in Ponta Grossa – PR to evaluate the damage level caused by hailstones to strawberry plants growing under nonwoven fabric (PP) and in natural conditions (AN). The experimental design was in randomized blocks, with the treatments arranged in a split plot with four repetitions. The major factor was the cultivation system (PP x AN) and the secondary factor was the strawberry cultivars Ventana, Camiño Real and Camarosa. Nonwoven fabric was installed over the plants immediately after transplant and was maintained during the entire growth cycle. The damage caused by hailstones on the leaves was evaluated using measurements transformed according to the equation of Townsend-Heeuberger. The interaction between the cultivation system and the strawberry cultivars was not significant, as there were no differences among the cultivars evaluated for hailstone damage. However, the plants protected by nonwoven fabric (PP) presented damage in13.7% of the leaf area against 88.1% damage in cultivated plants in AN. Nonwoven fabric produced a high rate of protection against the damages of hailstones on leaves, which should be used as a plant protection when weather forecasts alert about the risk of hail.

Key words: fFragaria x ananassa Duch., damage level, protected cultivation, polypropylene.


 

Introdução

As chuvas de granizo caracterizam-se como um fenômeno meteorológico que ocorre de maneira rápida, podendo causar desde pequenas lesões nas folhas à completa destruição da planta.Na maioria das vezes os danos são irrecuperáveis, como no casodo cultivo de folhosas e de frutos que se encontram em fase de crescimento.

O granizo geralmente é produzido em nuvens convectivas associadas a frentes frias e apresenta tamanho entre 1,5 e 2,0 cm de diâmetro. A extenum são vertical da zona de água no interior da nuvem determina a duração da precipitação de granizo. Caso essa zona não possua tanto desenvolvimento vertical e contenha gotas de dimensões semelhantes, a chuva de granizo terá curta duração. A abrangência espacial da chuva de granizo geralmente varia de a 2 km de largura e de 10 a 20 km de extensão, embora estas dimensões possam chegar a 10 e 400 km, respectivamente (Kulicov & Rudnev, 1980). Teoricamente, o grau de dano causado às plantas depende do tamanho do granizo, da densidade por área, da duração da tempestade, da velocidade de queda e da idade das plantas (Mota, 1983). A diminuição na produção tem sido estimada em experimentos com tratamentos que produzem diferentes níveis de desfolhamento na planta. Em couve-flor, Muro et al. (1998a) realizaram desfolhamento e quebra de pecíolo das plantas e verificaram que o desfolhamento reduziu a massa final da cabeça de couve-flor e que o tamanho de perda aumentou com o nível de desfolhamento. Resultados semelhantes foram encontrados também para as culturas do alho e da beterraba açucareira, demonstrando relação entre perda na produção, a intensidade de desfolhamento e o estágio fenológico da planta (Muro et al., 1998b e 1998c).

Na cultura do morangueiro, as chuvas de granizo causam danos tanto na produção de mudas quanto na produção de frutos. A destruição parcial ou total das folhas da planta durante a fase de produção de mudas poderá inviabilizar a comercialização das mesmas. Da mesma forma, em áreas de produção de frutos, a chuva de granizo danifica os frutos em formação e também causa danos na parte aérea da planta, o que resultará em perda de frutos e diminuição da área fotossintética. Faby (2001) realizou desfolhamento (de 50% e 100%) em quatro estágios fenológicos diferentes do morangueiro e verificou que o desfolhamento influenciou significativamente na produção, no tamanho e na concentração de sólidos solúveis dos frutos. O desfolhamento total reduziu a produção entre 30 e 70%, enquanto 50% de desfolhamento reduziram entre 2 e 30% da produção. O desfolhamento realizado antes da fase de florescimento reduziu significativamente o número de frutos. Resultados semelhantes para redução da produção de frutos de morango foram encontrados por Seipp (1989), exceto quando o desfolhamento antecedeu ao início da colheita de frutos. Em setembro e novembro de 2007, a ocorrência de chuvas de granizo na região de Ponta Grossa-PR foi responsável por perdas significativas em áreas de produtores de frutos de morango.

Assim, seria interessante que a ocorrência da chuva de granizo pudesse ser prevista com exatidão, no entanto, o serviço meteorológico somente alerta sobre a possibilidade de ocorrência da chuva de granizo. Os estudos nacionais são escassos sobre esse assunto, tanto quanto os esforços desenvolvidos em outros países para contornar o problema. Os produtores de regiões de maçã de Santa Catarina têm investido em alternativas para a administração dos prejuízos, que incluem a utilização de foguete anti-granizo, queimadores de solo, seguro agrícola e a cobertura dos pomares com telas anti-granizo (Leite et al., 2002). Esses métodos são inviáveis para a cultura do morangueiro, principalmente pelo alto custo dos mesmos. Uma alternativa seria o uso do agrotêxtil, também conhecido como "não tecido", como cobertura das plantas. O material é confeccionado pela sobreposição desordenada de filamentos de polipropileno, os quais são soldados uns aos outros por temperatura. Quanto maior a quantidade de filamentos usados, maior é a gramatura (g m–2) do agrotêxtil, sendo que para uso na agricultura o recomendado é que tenha entre 17 e 25 g m–2.

O material é leve o suficiente para ser colocado diretamente sobre a cultura sem necessidade de estrutura de sustentação. O agrotêxtil já tem sido usado em áreas de produção de hortaliças como proteção da planta (Sá & Reghin, 2008; Otto et al., 2010), cobertura do solo (Oliveira et al., 2007) e ensacamento do produto comercial (Otto et al., 2008). Os resultados vão desde aumento na produtividade e precocidade na colheita até proteção contra danos de insetos. Na cultura do morangueiro, o agrotêxtil vem sendo usado com a finalidade de proteção contra danos de geada (Otto et al., 2000b) e, também, com resultados de aumento de produtividade em algumas cultivares (Otto et al., 2000a), além de já ser usado como cobertura do solo em substituição ao polietileno preto. A grande vantagem do material como cobertura de planta está na facilidade de manuseio, pois permite ser colocado ou retirado em qualquer fase de desenvolvimento da cultura, sem prejuízos para a planta. A literatura não apresenta resultados sobre o efeito da proteção contra granizo.
O presente trabalho teve como objetivo determinar o nível de dano causado por chuva de granizo no limbo foliar de três cultivares de morangueiro cultivadas sob agrotêxtil (PP) e em ambiente natural (AN).

Materiais e Métodos

O experimento foi conduzido em Ponta Grossa-PR (25º05’ S, 50º06’ W, altitude média de 950 m), durante o ano agrícola de 2004/2005. O solo foi classificado (EMBRAPA, 1999) como Cambissolo Háplico Tb Distrófico e de textura argilosa. O clima da região, segundo a classificação de Köppen, é subtropical úmido mesotérmico (Cfb), com geadas frequentes na estação do inverno e temperatura média inferior a 18 °C no mês mais frio. O verão é fresco, com temperatura média de 22 °C no mês mais quente do ano. A pluviosidade média anual é de 1442 mm, sendo janeiro o mês mais chuvoso e agosto o mês com as menores precipitações pluviais. A média da umidade relativa do ar fica em torno de 75% durante o ano. O delineamento experimental foi blocos casualizados com tratamentos arranjados em parcelas subdivididas, com quatro repetições. O fator principal foi sistema de cultivo (sob proteção com agrotêxtil e em ambiente natural) e o secundário foi cultivares de morangueiro (Ventana, Camiño Real e Camarosa). O transplante das mudas ocorreu em 29/08/2004, no espaçamento 0,30 x 0,30 m entre plantas, em canteiros com 0,60 m de largura. A cobertura do solo foi realizada com agrotêxtil preto (40 g m–2 de gramatura). Para proteção de plantas foi utilizado o agrotêxtil branco (com 20 g m–2), o qual foi colocado diretamente sobre as mudas após o transplante e mantido durante o ciclo produtivo. O mesmo foi fixado ao solo das laterais dos canteiros por meio de grampos de ferro em formato de "U", mantendo o aspecto de uma cobertura flutuante. Foi instalada uma linha central de irrigação por canteiro, com emissores espaçados em 0,30 m e vazão de 1,5 L h–1. O controle de ácaros e pulgões foi realizado com Thiamethoxam (5 g em 20 L) sempre que a população atingia os níveis recomendados de controle. A cada 10 dias foi realizada a limpeza da cultura, retirando-se as folhas velhas das plantas. Após a ocorrência natural de uma chuva de granizo (abril de 2005), foram avaliados os danos presentes na área foliar das plantas, decorrentes da queda do granizo. Em cada parcela foram selecionadas quatro plantas ao acaso e para cada planta retiraram-se três folhas aleatoriamente. As folhas foram avaliadas por meio de notas, para uma escala de 1 a 10, de acordo com a intensidade de dano em cada folíolo (Tabela 1). Logo após, as notas foram transformadas em Índice de Dano (ID –%), por meio da equação de Townsend & Heuberger (1943), descrita como ID = (∑n.v/i.N).100, onde ID = Índice de Dano (%); n = número de vezes de ocorrência da mesma nota; v = valor numérico da nota; i = valor numérico da nota mais alta; N = número total de folhas avaliadas. Os dados foram submetidos à análise de variância, utilizando-se para comparação de médias o teste de Tukey a 5% de probabilidade.

Tabela 1. Escala de notas e categorias de danos causados por granizo na área foliar de morangueiro.

* porcentagem de dano na área total dos 3 folíolos.

Resultados e Discussão

No momento da ocorrência da chuva de granizo, as plantas do morangueiro encontravam-se na fase vegetativa. Para as folhas, não houve quebra do pecíolo, estando o dano restrito à área foliar. Para ID do limbo foliar, a interação entre o sistema de cultivo e as cultivares não foi significativa, assim como não houve diferenças entre as cultivares avaliadas. Entretanto, as plantas protegidas com agrotêxtil (PP) apresentaram, em média, 13,7% de danos no limbo foliar contra 88,1% de danos nas plantas cultivadas em ambiente natural (AN) (Tabela 2). A destruição parcial ou total das folhas da planta durante a fase de produção de mudas ou de frutos poderá inviabilizar a comercialização dos mesmos, resultando em perda de mudas e frutos, diminuindo a área fotossintética da planta e a produção posterior de frutos (Faby, 2001; Seipp, 1989). Assim, é importante a preservação da área foliar da planta quando na ocorrência de granizo.

Ainda que a proteção das plantas com agrotêxtil tenha resultado em somente 13% de danos foliares, a manta de agrotêxtil teve que ser substituída por outra nova, uma vez que o granizo causou rasgos em algumas partes do material devido à força do impacto das pedras de gelo. Porém, a troca é uma atividade fácil de ser realizada, pois não há o uso de estruturas de sustentação do material e o custo da reposição é baixo se comparado a outros materiais e ao prejuízo resultante dos danos ocasionados na cultura.

Tabela 2. Índice de dano no limbo foliar das cultivares Ventana, Camiño Real e Camarosa de morangueiro, causado por chuva de granizo, para cultivos protegido com agrotêxtil e em ambiente natural.

Médias seguidas da mesma letra minúscula na coluna e maiúscula na linha não diferem significantemente entre si, teste de Tukey,p < 0,05.

Para esse experimento, ainda que as cultivares avaliadas tenham porte de planta diferentes entre si, o agrotêxtil manteve o mesmo nível de proteção contra danos, uma vez que não houve diferença estatística entre as cultivares para ID. Isso significa que o material efetivamente atua como uma barreira física, independente da tensão com que é mantido sobre a cultura. O importante é que as bordas do agrotêxtil estejam bem fixadas, pois a chuva de granizo pode estar acompanhada de ventos suficientemente fortes ao ponto de removê-lo, perdendo a função de proteção das plantas.

Conclusão

O agrotêxtil é um material que apresenta alto índice estimado de proteção contra danos de granizo sobre a área foliar do morangueiro, devendo ser utilizado como proteção da planta, quando o sistema meteorológico alertar sobre o risco de chuvas dessa natureza.

 

Literatura Citada

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Fecha de Recepción: 27 Octubre, 2011. Fecha de Aceptación: 23 Abril, 2012.

Correspondencia a: E-mail: rfotto@uepg.br; sohse@ uepg.br.