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Ciencia y enfermería

versión On-line ISSN 0717-9553

Cienc. enferm. v.15 n.3 Concepción  2009

http://dx.doi.org/10.4067/S0717-95532009000300006 

CIENCIA y ENFERMERÍA XV (3): 45-53, 2009

 

INVESTIGACIONES

 

SENTIMENTOS DE PRAZER ENTRE ENFERMEIROS DE UNIDADES DE TERAPIA INTENSIVA

FEELINGS OF AMONG INTENSIVE CARE UNIT NURSES

SENTIMIENTOS DE PLACER ENTRE ENFERMEROS DE CUIDADOS INTENSIVOS

 

Júlia Trevisan Martins1
Maria Lúcia Do Carmo Cruz Robazzi
1
Maria Lúcia Garanhani
2

1 Doutoranda do Programa Interunidades da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto -USP-SP. Brasil. E-mail: jtmartins@uel.br.

1 Professora doutora titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto -USP, do Departamento de Enfermagem Geral Especializada, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem. Brasil. E-mail: avrmlccr@eerp.usp.br.

2 Professora doutora adjunta da Escola de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina, PR. Brasil. E-mail: maragara@dilk.com.br


RESUMO

Este estudo teve como objetivo identificar os sentimentos de prazer vivenciados pelos enfermeiros de Unidades de Terapia Intensiva. Foi realizado em duas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de adultos de um hospital escola. Tratou-se de uma pesquisa qualitativa, na qual foram entrevistados oito enfermeiros de todos os turnos de trabalho. O referencial teórico utilizado foi a psicodinâmica do trabalho e o metodológico a análise de conteúdo e os resultados mostraram que apesar dos enfermeiros trabalharem em um ambiente tido como complexo, de ritmo acelerado, e com pacientes graves na qual a morte muitas vezes é iminente, relataram sentir prazer em várias situações.

Palavras chaves: Unidade de terapia intensiva, sentimentos, enfermagem, pesquisa qualitativa.


ABSTRACT

The purposes of this study were to identify the feelings of pleasure experienced by Intensive Care Unit nurses. It was carried out in two adults' Intensive Care Units of a school hospital. It was a qualitative research in which eight nurses from all shifts were interviewed. The theoretical framework used was the work psychodynamics and the methodological one was the content analysis. The results showed that, besides working in a stressful complex environment with patients in serious condition in which death is certain, the nurse's related feeling pleasure in several occasions.

Key words: Intensive care, feelings, nursing, qualitative research.


RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivo identificar los sentimientos de placer vividos por los enfermeros de Unidades de Cuidados Intensivos. El trabajo se realizó en dos Unidades de Cuidados Intensivos de adultos de un hospital escuela. Se trató de una investigación cualitativa en la que fueron entrevistados ocho enfermeros de todos los turnos de trabajo. El referencial teórico utilizado fue la psicodinámica del trabajo y la metodología fue el análisis de contenido y los resultados mostraron que aunque los enfermeros trabajan en un ambiente considerado complejo, de ritmo acelerado y con pacientes graves en el que la muerte es inminente, relataron sentir placer en varias situaciones.

Palabras clave: Unidad de cuidados intensivos, sentimientos, enfermería, investigación cualitativa.


 

INTRODUÇÃO     

 

As atividades laborais têm importância ímpar para a análise do ser humano e de sua relação com o mundo material e psíquico, pois se constituem em uma das maneiras de o mesmo conviver e se relacionar com o meio externo. É por elas também que os indivíduos buscam satisfazer suas necessidades de equilíbrio psíquico, ou seja, procuram o prazer e evitam o sofrimento no trabalho.

A história mostra que desde a era industrial, ocorreram mudanças nos costumes, na ordem das coisas e na forma da organização do trabalho. Porém, na atualidade o homem está inserido no mundo globalizado tornando-se cada vez mais susceptível às pressões e aos estímulos do que em outra época em especial no que tange ao mundo do trabalho (1).

Assim, o desenvolvimento científico, tecnológico e social tem modificado o modo de viver do homem contemporâneo, surgindo novas necessidades que precisam se compreendidas e atendidas. Isto tem provocado a busca de indivíduos cada vez mais polivalentes e capazes de realizar uma multiplicidade de atividades.

Em conseqüência destas novas necessidades e formas de viver, o reconhecimento, a valorização, a identificação profissional e o prestígio social tornaram-se fundamentais para o trabalhador, sendo que no desenvolver das atividades laborativas há oportunidades para supri-las, pois, ao mesmo tempo que o trabalho é uma atividade que se refete e infuencia todos os aspectos da vida cotidiana, também é uma chance do indivíduo desempenhar suas competências intelectuais, físicas e suas individualidades (2).

Essa constante mudança no mundo do trabalho que vem sendo imposta aos trabalhadores e a capacidade dos mesmos em ajustar-se a ela, pode lhes proporcionar crescentes incertezas, insatisfação generalizada com o modo de vida, aforando sentimentos de tédio, angústia, sofrimento, mas também vivências de prazer.

O labor, qualquer que seja, deve proporcionar prazer para quem o realiza, sendo uma fonte de realização profissional e pessoal e desta forma, deve tornar-se também um prazer na vida externa ao trabalho (3).

O trabalho deve ser compreendido em todos os seus aspectos quer sejam econômicos, culturais e sociais, sendo de fundamental importância o entendimento de questões que envolvam a produção social da subjetividade, da saúde física e da saúde mental das pessoas.

A saúde mental envolve vários aspectos, sendo que um deles é o prazer no trabalho. Entendendo o prazer como uma experiência subjetiva e relacionada aos processos laborativos, havendo uma transcendência dos padrões que relacionam a ordem observável das coisas, a racionalidade do aparato institucional e da liberdade (4).

Desta forma, a saúde mental tem como uma das condições essenciais para se obter prazer no trabalho quando o processo organizativo permite uma fexibilidade que, favoreça ao trabalhador uma maneira de utilizar as suas aptidões psicomotoras, psicosensoriais e psíquicas e não uma exploração camufada advinda desta fexibilização (4).

Se o gestor levar em consideração as aptidões dos indivíduos, pode ocorrer uma diminuição da carga psíquica e torna-se possível atingir equilíbrio na carga de sofrimento resultante do trabalho. Assim ele pode utilizar suas aptidões psicomotoras, psicosensoriais e psíquicas e tornar o trabalho menos penoso (5).

Os trabalhadores que executam suas atividades com prazer, certamente assumirão atitudes mais positivas frente à vida de uma maneira geral e consequentemente, poderão contribuir para um atendimento com maior qualidade aos pacientes e construir uma sociedade mais saudável no que tange aos aspectos biopsicosociais (6).

Neste contexto prazer é entendido como o uso da iniciativa, da criatividade, da possibilidade de se expressar, no reconhecimento e valorização pelo que realiza, pela autonomia no trabalho, pelo significado da importância das tarefas realizadas, se o labor tem importância para a sociedade, dentre outros.

Prazer tem múltiplas interpretações, pois ele tem componente no inconsciente, não está sujeito ao comando apesar de poderse identificar às situações a ele associadas. A sensação é imperativa sobre nosso corpo, sendo o fuxo de sentimento não subjugado à deliberação e vontade. O prazer é um ato criativo diante da própria vida, que dá significado ao viver. Assim é uma busca constante, e principalmente no trabalho, dada a oportunidade do indivíduo encontrar realização e fortalecer sua identidade pessoal quando do contato com o produzir e com os outros que fazem parte do seu mundo de socializações (7).

Partimos do pressuposto que os enfermeiros de UTIs por realizarem um trabalho fragmentado, desvalorizado socialmente, vivenciando um desgaste psíquico intenso ao depararem com a morte, o infortúnio alheio e para lutarem contra o sofrimento advindo da tarefa primária que é o cuidar, buscam formas de preservar os equilíbrios psíquico, emocional e físico na tentativa de para maximizar os sentimentos de prazer e minimizar os sentimentos de sofrimento.

Diante das considerações anteriores, elaboramos o presente artigo com o objetivo de identificar se os enfermeiros que trabalham em UTIs de paciente adultos vivenciam sentimentos de prazer. O artigo é parte de Tese de Doutorado em Enfermagem defendida em 2008, na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo-USP.

MATERIAL E MÉTODO

O estudo teve abordagem qualitativa, a qual permite o aprofundamento no mundo dos significados, relações humanas, atitudes, crenças e valores.

O referencial teórico foi constituído no modelo da teoria da psicodinâmica dejourina que está pautada em situações da realidade cotidiana dos trabalhadores, ou seja, considera que o processo de trabalho e o homem não é um conjunto rígido, mas estão em movimento contínuo. A estabilidade aparente dessa relação está diretamente ligada a um equilíbrio livre e aberto à evolução e às transformações, um equilíbrio dinâmico, em contínuo deslocamento. Se for travada, bloqueada ou duradoura, leva à ineficiência da produção e a qualquer instante pode-se desencadear sua ruptura (5).

Assim, a psicodinâmica analisa a dinâmica dos processos psíquicos mobilizados pelo confronto do sujeito com a realidade cotidiana do processo de trabalho, levando-se em consideração que é pelo defrontar com a história singular, crenças, desejos, ponto de vista construídos a partir da história de cada homem que se vê o mundo objetivo, as tarefas a serem executadas. É na racionalidade do sujeito e na ação que se permite relacionar o sofrimento e procurar com que o trabalho seja o mediador do prazer (4, 5).

A coleta de dados foi realizada por meio da entrevista semi-estruturada, com perguntas norteadoras, utilizando gravador a fm de garantir a fdedignidade do registro das respostas. Posteriormente, as ftas gravadas foram transcritas na íntegra. O local das entrevistas foi escolhido pelos pesquisadores, sendo uma sala dentro da própria UTI, o tempo das entrevistas foi em média de 40 minutos e os dados foram coletados nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2007.

Como em toda pesquisa qualitativa, o número de participantes não foi definido a priori. As entrevistas foram mantidas até o momento em que se considerou que houve saturação, ou seja, emergiram convergências suficientes nas falas para confgurar o fenômeno investigado. Assim, fzeram parte desse estudo 8 enfermeiros (8).

Para análise das informações, utilizou-se o método de análise de conteúdo seguindo os três momentos cronológicos e distintos: a pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados. Para identificar as unidades de registro foram realizados recortes direcionados pelos temas localizando os núcleos de significados (9). Com base nessas unidades de registro identificadas, procedeuse o processo de categorização, apresentado na seção de resultados e discussão.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário. Os enfermeiros receberam e assinaram o Termo de Consentimento Livre e esclarecido, o qual garantiu o anonimato e o caráter confdencial das informações, de acordo com a Resolução 196 do Conselho Nacional de Saúde (10). Para preservar o anonimato, cada entrevista foi identificada com um código (E1, E2, E3....) de acordo com a ordem cronológica de sua realização.

Também foi utilizados símbolos como (...) significando que parte da fala foi exclu-ída e [ ] quando ocorria uma pausa no discurso.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Quanto à faixa etária constatamos que 5 tinham idade entre 40 e 50 anos, 2 idade entre 28 a 33 anos e 1 idade superior a 50 anos. Essa situação parece acontecer em instituições públicas, locais na qual o trabalhador é admitido por concurso público e consegue adquirir estabilidade empregatícia, o que pode ser confrmado em investigação realizada no Chile, com trabalhadores de enfermagem de dois hospitais estatais públicos que a faixa etária predominante foi de 40 a 50 anos (11).

Com relação ao tempo de trabalho nas UTIs os dados mostraram que 3 estão entre 13 a 16 anos de atuação, 3 entre 18 a 21 anos de atuação e 2 entre 2 a 6 anos de atuação. Esse fato se dá pela política da instituição que entende o trabalho de UTI como sendo complexo e assim, ao manter os enfermeiros nestas unidades está colaborando para uma maior qualidade de assistência ao paciente.

A grande a maioria dos entrevistados, ou seja, 6 tem maior tempo de atuação nas UTIs e ao correlacionar esses profissionais também foram os que apresentaram maior tempo de formação na enfermagem.

Para que o indivíduo preencha os requisitos para trabalhar em UTIs, é necessário capacidade de discernimento, responsabilidade e iniciativa, esses são atributos que deve ocorrer entre os enfermeiros de outras unidades também, porém, é condição fundamental para os que trabalham em UTIs assim como ter no mínimo um ano de atividades contínuas nestas unidades (12).

A partir das entrevistas foi identificada a categoria Prazer no Trabalho do Enfermeiro de UTI da qual surgiram seis subcategorias assim denominadas: 1. Prazer em cuidar do paciente; 2. Prazer no envolvimento com a família; 3. Prazer no trabalho em equipe; 4. Prazer no resultado do trabalho desenvolvido; 5. Prazer ao ser reconhecido como profissional e 6. Prazer com a identificação profissional.

1. Prazer em cuidar do paciente: foi desvelado vivências prazer dos enfermeiros quando estão cuidando do paciente conforme é verificado na expressão:

(...) O que me dá prazer é que eu gosto de lidar com o ser humano, gosto de cuidar de gente (E6).

O cuidado direto ao paciente crítico é a essência do trabalho de enfermagem na UTIs. A enfermagem presta cuidados de preservação, conservação e a manutenção da vida, sendo compreendida como a arte e a ciência de pessoas que se relacionam e cuidam de outras (13).

Com esse entendimento é que os enfermeiros foram formados e em seus currículos de graduação aprendem de uma forma geral que o cuidar é uma das principais funções da enfermagem, sendo que em UTIs o cuidado direto ao paciente é previsto inclusive no seu exercício profissional.

Na UTI os trabalhadores de enfermagem têm a oportunidade de cuidar diretamente de pacientes graves, essas atividades possibilitam-lhes viver sentimentos de prazer no trabalho, na medida em que permitem contatos mais diretos com o paciente (12).

A mesma autora refere que o contato direto com o paciente permite uma relação de troca entre eles, na qual ambos são beneficiados afetivamente e, ao desenvolverem as atividades de cuidados diretos, têm a sensação de estar ajudando o paciente grave a se recuperar.

Em estudo realizado sobre prazer e sofrimento da equipe de enfermagem em UTIs foram encontrados dados semelhantes aos nossos, ao desvelar que para os trabalhadores de enfermagem a realização do cuidado direto transcende o entendimento de executar tarefas. O prazer está em cuidar com humanidade, é colocar em prática seus talentos, potencialidades e habilidades, ou seja, a objetividade da ação, mas também é um momento no qual é proporcionado o entrar na subjetividade, tornando este cuidar mais completo para o paciente e para o profissional de enfermagem (14).

O prazer é a liberdade que é proporcionada à aspiração de cada indivíduo na organização de sua vida e o bem-estar social, li-berdade de poder agir individualmente e coletivamente sobre o processo de organização do trabalho, sobre o conteúdo do trabalho, a divisão das tarefas, a divisão dos homens e as relações que mantém entre si (15).

Assim, acreditamos que os entrevistados ao vivenciarem sentimentos de prazer no cuidado direto ao paciente é porque estão tendo a oportunidade, a liberdade para regular suas tarefas no processo de trabalho por eles desenvolvido, porque lhes é permitido mais trocas afetivas ou seja, há um favorecimento de uma assistência de enfermagem mais próxima e minuciosa por serem pacientes críticos e totalmente dependentes.

2. Prazer no envolvimento com a família:

(...) eu pelo menos gosto muito dar assistência à família porque eu vivenciei isso com a minha família e fui muito mal atendido, então aprendi esse lado humano, tanto que, por exemplo, quando eu atuava no serviço noturno não tinha hora para entrar, eu liberava a hora que eu queria a hora que a família queria[ ] então havia um comentário dos funcionários que depois que alguém da minha família passou na UTI eu mudei o comportamento, foi uma coisa que até eu não percebi, mas depois eu constatei que realmente tinha mudado, esse lado da humanização, de evitar o sofrimento da família, passar mais informações possíveis, chamar a família para ver, pra ela poder entender o que está acontecendo (E2).

Fica evidenciado pela fala que o entrevistado só despertou para a necessidade de dar atenção aos familiares após ter tido uma experiência negativa por ocasião da internação de seus familiares e que até mesmo os funcionários perceberam mudanças em seu comportamento. Este profissional após refexões sobre o ocorrido e constatou que a humanização foi despertada em sua vida profissional.

A UTI é considerada um ambiente estranho e estigmatizado, assim os familiares vivem o medo do desconhecido e da morte, sendo imprescindível que o enfermeiro que tem a habilidade de comunicar-se com os familiares o faça sempre que possível para diminuir a insegurança, o medo, o temor, humanizando a assistência não somente ao paciente, mas a todos os envolvidos.

A cultura que os familiares têm a respeito das UTIs está diretamente relacionada à questão da morte, estando sob a responsabilidade do enfermeiro e ou equipe de enfermagem o atendimento holístico e personalizado ao paciente e também aos envolvidos com o mesmo. Assim é importante que seja prestada informações aos familiares sobre o paciente e também o ambiente da UTI, proporcionando um atendimento humanizado, tornando o ambiente menos agressivo e traumatizante (16).

Os familiares ao entrarem na UTI se não estiverem orientados podem ficar chocados com o cenário e saírem desesperados e assim nada contribuirão para a melhora dos pacientes. É fundamental prepará-los para obter a sua ajuda com o paciente e também equipe de saúde (17).

Com esse entendimento o enfermeiro intensivista e a equipe de saúde que não estiverem atentos para este fato, devem ater-se ao mesmo, visto que os familiares quando se sentem informados e participando dos acontecimentos podem gerar benefícios para o paciente, os próprios familiares e equipe de saúde em todos os sentidos.

3. Prazer no trabalho em equipe: nos depoimentos constatamos que os enfermeiros vivenciam sentimentos de prazer ao realizar o trabalho com a equipe; o trabalho parece fuir com maior tranqüilidade, trazendo be-nefícios para os pacientes como podemos constatar nas falas:

E a equipe que eu trabalho, é uma equipe muito alegre, muito animada, então é assim, não existe aquele clima pesado, aquele clima ruim, é um clima de alegria, é um prazer trabalhar com minha equipe (...) é bom para os pacientes (E1).

(...) esse é prazer muito grande, uma realização pessoal, você conseguir fazer com melhor qualidade, você ter uma equipe tranqüila, uma equipe que se sente bem com você e realizar o melhor serviço (E2).

No processo de trabalho da enfermagem é competência do enfermeiro o planejamento para a equipe de enfermagem, sendo que a liderança desta equipe é de sua responsabilidade. Quando é permitida uma interação efetiva entre o enfermeiro e a equipe, compartilhando e estimulado-se a participação de todos os membros, as decisões são tomadas coletivamente e não há respostas prontas dividindo-se o poder e o status. Esse fato gera comprometimentos da equipe e consequentemente proporciona a melhora do cuidado aos pacientes (18).

O enfermeiro ao gerenciar sua equipe com humanismo eleva o respeito e integração dos valores humanos. O trabalhador é visto como um indivíduo atuante no proces-so organizacional elevando suas potencialidades, tornando o labor menos rígido, maior confabilidade nas interações, proporcionando crescimento pessoal e profissional, contribuindo para que o aumento da motivação e do reconhecido profissional (19).

Trabalhar em equipe é importante, pois propicia a ajuda mútua e o companheirismo, seja no momento de cuidar dos pacientes, ou na hora de cuidar de um colega. Ao se trabalhar em equipe desenvolve-se a comunicação contínua, estabelece-se a cooperação, propicia-se a democracia e a concentração nos objetivos comuns (3).

Entretanto, cada equipe é ímpar, cada momento tem suas peculiaridades, cada situação ou problemas são também únicos, não sendo possível uma receita ou um modo de trabalhar em equipe igual para todos. O trabalhador em equipe está sempre diante de obstáculos e desafos que, permanentemente, devem ser administrados e superados.

4. Prazer no resultado do trabalho desenvolvido: as falas a seguir revelam os sentimentos de prazer que o enfermeiro vivência quando têm a percepção que o seu trabalho obteve resultados satisfatórios, em especial quando outras pessoas já não acreditavam na possibilidade do paciente sair do quadro em que se encontrava. É o que está evidenciado nas expressões:

(...) me dá prazer aqui na UTI é quando eu chego aqui, vejo que o paciente saiu do respirador, ouvir a voz do paciente, é uma coisa que dá até arrepio de falar [ ] valeu o esforço do nosso trabalho (E5).

O que me dá prazer também na UTI é ver o paciente melhorar, mesmo que às vezes o índice, o percentual não seja dos mais altos, mas quando a gente vê progressos no paciente, então isso me dá bastante prazer (E6).

A recuperação do individuo hospitalizado é um fator de prazer, sendo enfatizado que a finalidade de qualquer trabalho é o objetivo final do mesmo, a transformação desejada e seu produto final (14).

As mesmas autoras afrmaram que o prazer pela recuperação do paciente é uma manifestação que pode ser interpretada como recompensa pelo trabalho realizado, recompensa não material, mas a que invade a alma de prazer ao ver o seu objeto transformado, ou seja, o projeto arquitetado foi atingindo.

Os enfermeiros entrevistados do presente estudo sentiram prazer ao se depararem com os pacientes recuperando-se e perceberam que e que foram profissionais importantes para que isso pudesse acontecer.

O trabalho quando traz benefícios ao trabalhador por meio do processo organizativo, é motivo de inspirar sentimentos de prazer, ou seja, as expectativas geradas no labor quando alcançadas, desperta vivências prazerosas. Ainda quando o trabalhador experimenta, percebe, julga que foi útil, que serviu, colaborou e auxiliou vivência sentimentos de prazer (20).

Vale destacar que as vivências do prazer dos entrevistados podem ter sido decorrência da infuência do binômio vida e morte e

também na subjetividade dos enfermeiros à medida que verbalizaram o prazer diante dos esforços do trabalho ou sucesso da execução das tarefas. Isso significa que houve resultado positivo advindo do emprego de energias para recuperar o paciente.

5. Prazer ao ser reconhecido como profissional: os enfermeiros vivenciam sentimentos de prazer ao serem reconhecidos como profissionais, demonstrado nos depoimentos:

Tem bastante paciente que voltam para rever a gente, um simples obrigado já é tudo. Também é prazeroso quando os colegas reconhecem o que fzemos (E3).

É um prazer quando retornam para nós principalmente os pacientes neurológicos, que saem sonolentos, com déficit motor, não conseguindo verbalizar e eles voltam para conhecer onde ele esteve ali por meses conosco. Então isso é muito gratificante, ele reconhece as pessoas, ele fica meio que pasmo em saber, agradecido, isso é muito prazeroso para nós (E8).

Quando o trabalho é reconhecido pelos usuários dos serviços de saúde, pelos membros da equipe de enfermagem e saúde, pela instituição, pelos familiares, pela sociedade em geral o trabalhador entende a sua importância como agente de saúde. Percebe o valor e o quanto o seu labor é importante, reconhece que apesar da energia despendida “valeu a pena”.

O processo de valorização do esforço e até o sofrimento investido para a realização do trabalho, quando é reconhecido trás prazer para o indivíduo, bem como proporciona o crescimento das características próprias das pessoas (21).

Desta maneira é fundamental que o trabalhador seja reconhecido e valorizado ao desempenhar suas funções, quer seja pelos pacientes, familiares, equipe de trabalho, instituição e sociedade.

Quando o trabalhador sente que contribuiu com o seu trabalho por meio de suas competências, habilidades, paixão e o processo de trabalho permitem a que o trabalhador explore suas potencialidades, vivenciam sentimentos de prazer. Porém, estes sentimentos ainda estão correlacionado com cada indivíduo, com as concepções de mundo, suas crenças, seus valores, dentre outros (6).

O reconhecimento do trabalho quer seja por colegas, pela sociedade, pela instituição, entre outros é fator imprescindível para que o indivíduo obtenha identidade, continuidade e historização (20).

6. Prazer com a identificação profissional: Os enfermeiros expuseram que gostam do local que trabalham que sentem prazer, que amam trabalhar na UTI, ou seja, há uma identificação profissional com o local de trabalho conforme as seguintes falas:

É um prazer muito grande trabalhar na UTI, porque eu amo isso. Não saberia trabalhar em outro local (E7).

Ao escolher a profissão não significa necessariamente trabalhar numa área que tem certa inclinação. Porém, o indivíduo ao desenvolver seu labor em uma área que realmente gosta e deseja há necessidade da ressonância simbólica, para que seja realizado com satisfação e prazer (5).

O prazer no trabalho, o bem estar do trabalhador está associado à escolha do seu local de labor que, por conseguinte, vinculam-se as características da personalidade dos mesmos (21, 22).

No presente estudo acreditamos que os enfermeiros entrevistados ao verbalizarem que gostam de trabalhar nas UTIs é porque encontraram motivação, realização profissional, abertura no processo organizativo do trabalho, ou seja, espaço para fazer o que gostam, sentido-se realizados com sua identidade profissional e pessoal. Desta forma, o labor passou a ter significado ímpar para cada um deles.

O trabalho enquanto valor de uso é a construção de significado pessoal, individual e intransferível, pois a maneira, a dedicação e o empenho que cada trabalhador investe em seu trabalho são diferentes (3).

CONCLUSÃO

Por meio dos resultados deste estudo é possível afrmarmos que os enfermeiros vivenciaram sentimentos de prazer em seu processo de trabalho nas UTIs, mesmo sendo este um ambiente com grande rotatividade de pacientes, sendo que a maioria das internações é súbita ou aguda, se convive com a gravidade dos indivíduos hospitalizados, o sofrimento dos seus familiares e há convivência constante dos trabalhadores com a vida e morte.

Mesmo com todas as dificuldades que surgem no cotidiano desses profissionais o prazer foi manifestado quando: o enfermeiro direcionou o cuidado direto aos pacientes e houve recuperação dos mesmos; quando seu trabalho foi reconhecido pelos usuários do serviço; por trabalhar no local que gostam, propiciando-lhes a identificação como pro-fissional; com o resultado do seu trabalho; ao realizar o trabalho em equipe e desenvolver ações junto aos familiares dos pacientes.

Assim ao vivenciarem sentimentos de prazer, os enfermeiros alcançaram realização no trabalho que aconteceu de forma integral, participativa, isto é, um trabalho que permitiu ir para além das normatizações e orde-nações das ações. Além de atender as necessidades assistenciais dos pacientes, ficou explícito que é permitido a esses profissionais ser participantes e não simples executores de tarefas.

Fica então revelada a importância do trabalho estar voltado não somente para os pacientes e familiares, mas também para as necessidades naturais e subjetivas do homem, permitindo seu pleno desenvolvimento e consequentemente revertendo em benefícios aos pacientes, familiares, instituição e sociedade.

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Fecha recepción: 25/11/07 Fecha aceptación: 19/07/09