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Ciencia y enfermería

On-line version ISSN 0717-9553

Cienc. enferm. vol.14 no.1 Concepción June 2008

http://dx.doi.org/10.4067/S0717-95532008000100004 

 

CIENCIA y ENFERMERÍA XIV (1): 23-31, 2008

INVESTIGACIONES

 

CONCEITOS DE SAÚDE E DOENçA SEGUNDO A ÓPTICA DOS IDOSOS DE BAIXA RENDA*

HEALTH-DISEASE CONCEPTS ACCORDING TO LOW INCOME AGED PEOPLE'S PERSPECTIVES

CONCEPTOS DE SALUD Y ENFERMEDAD DESDE LA ÓPTICA DE ANCIANOS DE BAJOS INGRESOS

 

MARÍA JOSEFINA DA SILVA** e MARÍA ELIANA PEIXOTO BESSA***

* Este artigo é parte constituinte do projeto de pesquisa "O Idoso dependente e o universo do cuidado domiciliar", financiado pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP).

** Professora Doutora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Endereco: Rúa. Gal. Silva Júnior, N° 855, Apt°. 206, Bairro de Fátima, Cep.60411-200. E-mail: mjosefina@terra.com.br

*** Mestre em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. En-fermeira do Programa de Saúde da Familia do Municipio de Pindoretama, Ceará, Brasil. Endereco: Rúa Graciliano Ramos, N° 331, Bairro de Fátima, Cep. 60415-050. E-mail: elianabessa@hotmail.com


RESUMO

Este estudo objetivou analisar os conceitos de saúde e doença dos idosos de baixa renda. É um exploratório-descritivo qualitativo focalizando 50 idosos em domicilio. Os dados foram coletados por meio de entrevista com roteiro, abordando os dados sociodemográficos e concepções sobre o que é saúde e doença. Observou-se que os conceitos de saúde relacionam-se com os seguintes aspectos: ausencia de doença, bem estar social e emocional, capacidade de realizar as atividades de vida diaria e trabalhar e condições sócio-sanitárias. Os conceitos de doença relacionam-se com aspectos subjetivos, ausencia de saúde, problemas sociais, síntomas físicos e ausencia de cuidados. Verificou-se que o processo saúde-doença está relacionado aos contextos cultural, social e de vida dos idosos, bem como conhecimentos que vao adquirindo pelo contato informações sobre saúde. As concepções de saúde orientam a busca de ajuda profissional evidenciando a importancia da compreensao destas por parte dos profissionais de saúde que lidam com idosos.

Palavras chaves: Saúde do idoso, processo saúde-doença, fatores culturáis, pobreza.


ABSTRACT

This study aimed to analyze the concepts of health and illness of elders with low income. It is a qualitative exploratory-descriptive study focusing 50 elders in their residence. The data had been collected using a struc-tured interview with script, approaching the sociodemographics data and health and illness conceptions. It was observed that the health concepts are related with the following aspects: absence of illnesses, state and emotional wellness, capacity to carry through the activities of daily life and to work besides partner-sanitary conditions. The illness concepts are related with subjective aspects, absence of health, social problems, physical symptoms and carelessness. It was verified that the health-illness process is related to the cultural and social context; life of the elders, and the knowledge they acquire through contact they have with health professionals. The conceptions of health guide the search of professional aid highlighting the importan ce of these concepts as part of the knowledge of those ones who deal with the elders.

Key words: Aging health, health-disease process, cultural factors, poverty.


RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivo analizar los conceptos de salud y enfermedad de los ancianos de bajos ingresos. Es un estudio exploratorio-descriptivo cualitativo en 50 ancianos en su domicilio. Los datos fueron recolectados por medio de una entrevista, abordando los datos sociodemográficos y concepciones sobre lo que es salud y enfermedad. Se observó que los conceptos de salud se relacionan con los siguientes aspectos: ausencia de enfermedades, bienestar social y emocional, capacidad de realizar las actividades de vida diaria y trabajar y condiciones socio-sanitarias. Los conceptos de enfermedad se relacionan con aspectos subjetivos, ausencia de salud, problemas sociales, síntomas físicos y ausencia de cuidados. Se verificó que el proceso salud-enfermedad está relacionado con los contextos cultural, social y de vida de los ancianos, así como conocimientos que van adquiriendo por el contacto con informaciones sobre salud. Las concepciones de salud orientan la búsqueda de ayuda profesional evidenciando la importancia de la comprensión de éstas por parte de los profesionales de salud que trabajan con ancianos.

Palabras claves: Salud del anciano, proceso salud-enfermedad, factores culturales, bajos ingresos.


 

INTRODUÇÃO

A preocupação atual com a população idosa surge pela constatação de que urna das maio-res conquistas sociais do século XX foi o aumento dalongevidade. Esse fenómeno se configura como urna verdadeira revolução no curso de vida das pessoas, redefinindo relações de género, arranjos e responsabilidades familiares, bem como alterando o perfil das políticas públicas.

O aumento percentual do número de ido-sos na população geral e o decréscimo da pro-porção de criancas e jovens configuram-se como envelhecimento populacional. Envelhe-cimento é o processo de progressivas mudan-cas no ámbito biológico, psicológico e na es-trutura social e individual. É um longo processo que se inicia antes do nascimento e se prolonga no decorrer da vida (Stein & Moritz, 1999). No Brasil, de acordó com o Instituto Brasileiro de Geografía e Estatística/Pesquisa Nacional de Amostra por Domicilios (IBGE/ PNAD, 2004) o percentual que assume esta característica, é de 9,7% e no Estado do Ceará é de 9,5% (Instituto de Pesquisa e Estrategia Económica do Ceará [IPLANCE], 2004).

No caso do Brasil, á semelhanca de outros países latino-americanos, o envelhecimento populacional ocorreu devido á mudanca no perfil de mortimortalidade, predominando as doença crónicas com conseqüente aumento dos custos com tratamento, hospitalização e reabilitação.

A populacão idosa acarreta mais gastos públicos, devido aos agravos á saúde serem crónicos e múltiplos, além de perdurem por anos, requerendo pessoal qualificado, equipe multidisciplinar, equipamentos e exames complementares. Exigindo, portante, o máximo de tecnología produzida pelo complexo médico industrial. Um dos componentes relevantes na avaliação do processo de envelhecimento é o estilo de vida da pessoa que envelhece.

Estilo de vida pode ser entendido como a forma como as pessoas vivem e as escolhas que fazem. Falar em estilos de vida é o mes-mo que falar em como o sujeito se relaciona com ele mesmo, com os outros e com a natu-reza. Representa um padráo de vida que se manifesta em atividades, interesse, opinióes e que retrata a pessoa em sua completude, in-teragindo com seu meio circundante. Os hábitos mais importantes estáo relacionados com a alimentação, trabalho, exercícios, se-xualidade, sonó e repouso, lazer, uso de medicamentos, bebidas alcoólicas e fumo, ativi-dade mental, social e espiritual, dentre outros (Stein & Moritz, 1999).

O envelhecimento ativo está intimamente ligado ao estilo de vida assim como os conceitos de saúde e de doença. Envelhecimento ativo é o processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e seguranca, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida a medida que as pessoas ficam mais velhas. De acordó com o capitulo II da lei 8.842/94 que institui a Política nacional do Idoso, destaca-se como principios e diretrizes a garantia dos direitos de cidadania do idoso, que deve ser assegurada pela familia, pela sociedade e pelo Estado, defendendo a dignidade, o bem estar e o direito a vida (Brasil, 1994).

O idoso, na nossa realidade de trabalho em enfermagem na atenção básica de saúde em áreas periférica da capital do Estado, encon-tra-se em um contexto familiar empobrecido, com poucos recursos e com padrões culturáis que divergem daqueles que governavam o cotidiano do idoso na sua juventude; onde as responsabilidades filiáis para com os pais eram compreendidas como parte das obriga-ções familiares. Havia a seguranca de ser cuidado na velhice pelos filhos ou netos como simples decorréncia dos lacos familiares. Estes padrões culturáis se modificaram e, de um modo geral, de forma desfavorável para o ido-so. As famüias sao pequeñas, os filhos saem de casa e se distanciara do lugar de origem em busca de urna formação profissional que possibilite melhor acesso ao mercado de trabalho. Ñas capitais, para onde migraram ido-sos e famüia, os costumes distanciara as gera-ções, fazendo com que os idosos passem a cuidar de si mesmos e, frequentemente, dos netos ou mesmo assumindo as tarefas domésticas de modo a liberar os filhos para o trabalho.

Assim, a preocupação com a saúde pode ficar em um segundo plano frente as demandas que a famüia ainda poe sobre o idoso. Esta preocupação, sentida no nosso cotidiano as-sistencial, nos remeteu as preocupações que geraram este estudo. A questáo era: Qual o significado de saúde e doença para o idoso em seu contexto de vida?

Deparamonos com idosos que residem sozinhos ou com familias que têm pouca ou nenhuma condição de promover o cuidado com a saúde deste e, por outro lado, o sistema de saúde não é capaz de dar conta das demandas, cada vez maiores, deste grupo etário. Portante, promover o empoderamento deste quanto ao seu cuidado com a saúde é de relevancia para sua qualidade de vida.

Saúde e doença sao conceitos polissémicos. Cada etapa da vida, contextos sociais e baga-gem cultural provocam olhares e percepções diversas. O idoso, por apresentar múltiplos problemas decorrentes do processo de envelhecimento, apresenta peculiaridades no que entende por saúde/doença. A avaliação dos problemas de saúde no ámbito da gravidade e relevancia está mais afeto a capacidade de enfrentamento destes que do problema em si (Uchoa, Firmo & Lima-Costa, 2002).

Assim, para o profissional de saúde, em especial o enfermeiro, cujas competencias in-cluem educação em saúde e promoção da saúde do idoso, é necessário ter conhecimento do universo cultural dos idosos e das suas con-cepções sobre os eventos do seu cotidiano, dentre eles o adoecimento. Dessa forma o objetivo deste estudo é compreender o sentido de saúde e doença dos idosos de baixa renda, pela importancia que estas concepções adquirem no autocuidado ou na busca dos servicos de saúde em agravos e doença neste grupo.

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo se apresenta como exploratorio, pois tem como finalidade descortinar o tema, aglutinar informações gerais acerca do objeto de estudo. Ao mesmo tempo, busca apre-ender os elementos constituintes do objeto, esclarecendo o que é, do que se compoe sua localização no tempo e espaco, configuran-do-se, também, como descritivo (Rodrigues, 2007).

O estudo foi desenvolvido junto aos ido-sos residentes no Bairro do Planalto Pici localizado em área periférica da cidade de Fortaleza, capital do Estado do Ceará, Nordeste do Brasil. A área faz parte da Secretaria Exe-cutiva Regional III (SER III), segundo divi-sáo administrativa da cidade. No bairro, está localizado o Centro de Desenvolvimento Familiar (CEDEFAM) da Universidade Federal do Ceará onde o Curso de Enfermagem realiza atividades de prática curricular e duas docentes coordenam um grupo de idosos intitulado Grupo Vida: adaptação bem sucedida e envelhecimento feliz.

A população de idosos é de 1990 (IPLAN-CE, 2004), compreendendo 5,29% da população total do bairro. Os participantes da pesquisa foram 50 idosos. A coleta de dados deu-se, inicialmente, junto a onze (11) idosos participantes do Grupo Vida. Estes, em sistema de rede, indicaram os 39 idosos restantes que compoem os sujeitos da pesquisa. Esta técnica de coleta de dados é útil quando não se consegue chegar a população de estudo com facilidade. A coleta de dados foi encerrada quando os conteúdos das falas se tornaram repetitivos, urna vez que nos interessa não o quanto de repetição, mas as variadas dimen-sões do evento em foco.

Foram realizadas entrevistas abertas com as seguintes questões: o que é saúde e o que é doença, além dos dados sociodemográficos dos idosos. A coleta de dados ocorreu entre outubro de 2003 a Janeiro de 2004, por duas académicas de enfermagem, sendo urna bolsista do Programa de Iniciação á Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PIBIC/CNPq) e urna aluna voluntaria do projeto. Os dados foram organizados por categorias: os numéricos, em tabelas e analisados por meio de estatística descritiva. As falas foram analisadas buscando o sentido dos discursos dos idosos participantes no contexto de vida de cada um, sendo organizadas de acordó com as categorias emergidas.

Esta pesquisa foi submetida e aprovada pela Comissáo de Ética em Pesquisa do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará de acordó com os preceitos da Portaria 196/96 do Ministerio da Saúde que regula-menta a ética na pesquisa com seres humanos. Todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

RESULTADOS E DISCUSSões

O conjunto dos idosos participantes da pesquisa tinha o seguinte perfil sociodemográfi-co: predominantemente mulheres na faixa etária entre 60 e 70 anos; a maioria originaria do interior do Estado; alfabetizados, o que significa saber escrever o próprio nome; muitos viúvos, chamando a atenção para o alto per-centual de mulheres nesta condição; renda pessoal originaria da aposentadoria, em torno de um salario mínimo (aproximadamente 100 dólares americanos); metade deles morando com filhos e parentes, sem o cónju-ge; com familias de até 4 membros; com renda familiar de até 2 salarios mínimos, demonstrando a importancia da renda do ido-so para a composição da renda familiar.

Quanto ás percepções dos idosos sobre saúde-doença, os discursos indicam varios sentidos: saúde como ausencia de doença; como bem-estar social e espiritual; autonomía para viver o cotidiano; condições socio-sanitárias. doença, segundo os discursos, as-sume os sentidos de algo subjetivo; como ausencia de saúde e relacionado com problemas sociais; e com a presença de síntomas físicos.

Definir saúde é urna tarefa muito difícil, pois não se trata somente de urna parte do conhecimento científico adquirido, não é um objeto, urna parte ou função do corpo; saúde é, sobretudo, um estado de ser, que cada pes-soa define em relação aos seus próprios valores, um processo adaptativo que não se declara, assumindo um caráter oculto: [...] "a doença, e não a saúde, é o auto-objetivante" (Gadamer, 2006, p. 117). doença, na contem-poraneidade, assume a perspectiva biocultural (Galda & Berganasco, 2004). A saúde e o ado-ecer sao formas pelas quais a vida se manifesta. Correspondem a experiencias singulares e subjetivas, impossíveis de serem reconhecidas e significadas integralmente pela palavra (Czeresnia, 2003).

Concepções de Saúde e Doença
  O conceito de saúde torna-se um fator vivo no sentido de que ele forma a base do julga-mento de saúde das pessoas [...] (Nordenfelt, 2000, p. 157).

Nesta sessáo apresentamos os discursos sobre saúde. Perguntamos aos idosos "o que é ter saúde" e encontramos diversos sentidos: Saúde como ausencia de doença; "me sinto com saúde quando não estou doente"; como bem-estar social e espiritual:" dada por Deus, é ter felicidade" (EOC); "é urna das coisas me-lhores, saúde e paz" (SMS); "é a gente viver a vida alegra, ter físico sadio" (POS); "eviverbem em urna casa boa, padráo de vida razoável, ali-mentação e saneamento bom (JAR)"; saúde como autonomía para administrar o cotidiano: "Etertrabalho"(ELS); "E a gente ter saúde para trabalhar" (MN); "£ importante, conse-gue fazer as coisas, trabalhar"(AAP); saúde dependente das condições sócio-sanitárias: "Ter saúde parte da higiene, se tem higiene tem saúde" (MUA); "é ter cuidados médicos, ali-mentação" (LSS); "... ser alimentar bem... dormir bem" (MOA); "alimentação boa, sonó bom, poder caminhar" (RFSR); "élimpeza..., se tratar" (MSM).

Quando a referencia é doença, os sentidos emitidos ñas falas foram: doença com algo subjetivo: "não gosto nem de pensar, quando fico doentesófaltomorrer" (EOC); "éhorrível, não tem alegría na vida" (SMS); "é um senti-mento ruim" (MUA); "é sofrimento" (TCM); relaciona-se com a ausencia de saúde: "a doença é a falta de saúde"; relaciona-se com os problemas sociais: "morar em lugar sem condigno de vida, pobreza, sem se alimentar, ter vicios "(JAR); "não poder trabalhar, não viver bem, é a morte"(MSM); doença como a presenta de sintomas físicos: "é dor ñas costas, é estar cegó" (EOC); "é a invalidez" (RFSR); "é os meu problema, de vida, de próstata, é ser incapaz de fazer minhas atividades" (MAO).

O conceito da Organização Mundial de Saúde de que saúde é um estado completo de bem-estar físico, mental e social, não meramente a ausencia de doença é hoje questio-nado. É urna concepção finalística que se apóia em urna perfeição inatingível, distingue soma, psique e sociedade e não deixa claro o que é bem-estar, que pode significar múltiplas e contraditórias significações (Badéia, 1984; Serger & Ferraz, 1997).

A atitude pessoal em relação a saúde en-volve muito mais do que a ausencia de doença, de incapacidades ou da qualificação de um pensamento científico muito difundido nos dias atuais. O misterioso, o inexplicável ou o indizível complementam as concepções que orientam a tomada de decisões quanto as questões de saúde (Cezersnia, 2003). Esta compreensáo da multifatorialidade e comple-xidade do que significa saúde e doença deve ser buscada pelos profissionais para a abor-dagem do seu cliente, o que vale dizer: saúde/ doença como conceitos culturáis e heterogéneos e como experiencia individual decorren-tes de varios fatores que váo além dos proces-sos biológicos (Langdon, 2005).

Saúde como ausencia de doença se configura como urna concepção lógico-formal, a qual é tomada aqui como estado absoluto, como ausencia de doença, e como situação estática e ideal (Badéia, 1984). Saúde, no sen-so comum, é mais urna questáo prática que urna construção teórica. Além disso, é pragmática, pois é um conhecimento que contribuí para execução da cotidianidade (Albaracín, 2002).

A relação saúde e condições sócio-sanitárias se assemelha ao conceito social de saúde, segundo o qual saúde/doença sao projeções sociais, cujos processos resultam das relações vitáis de produção material dessa sociedade, que determinam as formas de estar-no-mundo (Badéia, 1984; Canesqui, 2003). O "cuidado de si" como urna forma de administrar a própria vida, pode ser considerado urna ética, urna ciencia da condição da própria vida numa perspectiva filosófica (Gallo, 2006).

A saúde como capacidade para trabalhar é a concepção vulgar de saúde, ou seja, voltada para a funcionalidade do corpo. O idoso, ao se deparar com as limitações físicas provocadas pelas alterações fisiológicas e também com o fato de estar aposentado, acaba se sentindo urna pessoa "inútil". A situação de renda na qual se encontra o obriga a continuar traba-lhando como forma de complementar a renda familiar, conforme vimos no perfil socio-demográfico dos sujeitos deste estudo. Ele ain-da é o aporte financeiro importante da familia. Saúde é um fator de produtividade e urna necessidade para o trabalho e o desenvolvi-mento. Assim, a saúde torna-se um meio de regularização da produção, utilizada tanto em economia de mercado. Num país ainda com problemas de saúde, de educação, de previdencia e de assisténcia social não equaciona-dos, o quadro é desolador para os pobres. Mais ainda para os idosos pobres (Goldman,2005). O beneficio previdenciário é um componente bastante representativo da renda total familiar, mesmo para os idosos residentes em famüias situadas ñas faixas superiores de ren-dimentos (Camarano, 2001). Este não é um fenómeno nacional. Na Franca, 60% da riqueza nacional está ñas máos de pessoas ácima de 50 anos (Peixoto & Clavairolle, 2005).

A capacidade funcional de atender as denominadas necessidades básicas diarias pela realização das atividades de vida diaria (AVDs), se assemelha a concepção vulgar de saúde na qual está representada a capacidade de "tocar a vida". Autonomia e velhice saudável estáo intimamente relacionadas. Ser velho (incapaz) ou idoso (ciclo vital) é demarcado pela capacidade de gerir seu próprio cotidiano (Silva, 2001). A saúde

[...] se revela num tipo de bem-estar, e ainda mais, quando nos mostramos dispostos a empreendimentos, aberto ao conhecimento, podemos nos auto-esquecer [...] quando quase não sentimos mesmo fadigas e esferas isso é saúde (Gadamer, 2006, p. 118).

A concepção de saúde com o bem-estar emocional e espiritual remete ao ámbito on-tológico, á esséncia do ser. Resulta da satisfa-ção interior, da paz resultante da resolubili-dade das intercorréncias cotidianas e da sa-tisfação íntima de ser quem se é. No entanto, saúde, no seu sentido mais abrangente, é um estado dinámico no qual o individuo se adapta ás mudancas do ambiente interno (variáveis genéticas, fisiológicas, psicológicas, intelectu-ais e espirituais) e externos (físicas, sociais e económicos), para manter-se bem e adaptado. Pode ser considerada como urna questáo filosófica (Albarracín, 2002), pois o fenómeno da saúde não pode ser contabilizado e nem condicionado. É algo que faz parte da existencia humana e é vivenciado silenciosamente, manifestando-se apenas com a dor e com sofrimento, características da doença.

O que observamos no cotidiano durante o contato com o idoso, seja na participação em grupos ou ñas visitas domiciliares, é que a saúde não está vinculada diretamente a não-doença, mas á autonomia. A doença, quando presente, se compensada, é considerada saúde. É essa concepção que o idoso denuncia entre ser idoso e ser velho (dependente), mesmo com a presença de agravos e doença.

Em relação á outra questáo abordada no estudo, quais sejam as concepções de doença expostas pelos idosos sujeitos da pesquisa, estas sao expressas não se constituindo so-mente ñas alterações corporais, mesmo que muitas vezes se iniciem com a presença de evidencias físicas, somáticas. Trata-se de um estado anormal no qual as funções físicas, in-telectuais, emocionáis, socioculturais ou espirituais estáo diminuidas. De acordó com Galda & Berganasco (2004), a doença diz mais que a saúde por aquela ser urna manifestado. A quebra do silencio dos órgáos é a ex-pressáo do corpo na busca do auxilio.

Temos aqui urna distinção entre tres conceitos: doença (illness), que é a perspectiva da pessoa, o significado que o doente confere ao que ele senté, enfermidade (disease), significando que o órgáo afetado tem, e o de sickness entendida como uma desordem, num sentido genérico, em relação as forcas macrosociais (Helman, 2003; Silva, 2001).

A doença também está dimensionada no tempo da historia, dentro de um caráter filo-génico, e conta o caráter ontogénico (de sua fisiopatologia) representada pelo tempo orgánico (na sua evolução) (Badéia, 1984). As-sim podemos afirmar que as pessoas não sao doentes, mas estáo doentes, uma vez que há uma causalidade social primitiva, dinámica e mutável, segundo as épocas históricas, que torna a doença necessariamente não repetitiva e a saúde uma condição refletida na adequa-ção social de vida.

O enfoque social da doença nos conduz ás seguintes conclusóes: 1) a saúde e a doença se refletem no modo de vida do individuo; 2) distribuem-se como estratos populacionais; 3) a doença, por si mesma, não é repetitiva no tempo, pois é projetada a partir das relações da sociedade com a natureza e, assim como os homens, mudam segundo o modo como produzem ou constroem a sua vida, ou seja, cada época vai refletir certa nosologia característica das relações sociais existentes, como fenómeno social e histórico, não apenas individual, em nivel biológico; e, 4) cada época vai refletir, por seu turno, ações sobre as doença ou ações de saúde conforme a política em vigor, ou seja, a prática médica ou odontológica se diferencia ou assume uma característica típica em relação a cada época histórica, dicotomizada, segundo as categorias sociais nos tempos antigos e modernos (mas é a mesma, segundo sua natureza) (Silva, 2001).

Um sentido atribuido pelos participantes á doença está relacionado com os síntomas físicos, isto é, o individuo se percebe doente quando senté algo. Pela sua concretude e por ter um significado cultural, a doença não é só um evento biológico, mas uma experiencia individual que encontra eco na experiencia coletiva, entre individuos, grupos e institui-ções (Alves & Rabelo, 1999). É carregada de linguagens, de simbologias, define papéis, altera estruturas culturáis e familiares.

Para o idoso entrevistado, estar doente altera sua estrutura familiar de forma significativa. Ele passa a se sentir como um "peso", uma situação que o constrange e, reciprocamente, constrange também a famüia.

É o momento também em que o idoso pode perder sua autonomía, por vezes de forma definitiva mesmo que sua doença não o seja. Quando um entrevistado se refere á doença como "um sentimento ruim" expressa o espectro da dependencia, do medo da perda de status que até entáo o idoso possuía.

COMENTARIOS FINÁIS

Definir saúde é uma tarefa muito difícil, pois não se trata somente de uma parte do conhe-cimento científico, já que saúde é um estado de ser, que cada pessoa define em relações aos seus próprios valores. Através dos discursos emitidos pelos participantes do estudo, podemos perceber que saúde e doença sao conceitos polissémicos, dependente do contexto cultural e social do idoso. Eles emitem sentidos de ausencia de doença, e doença ausencia de saúde, numa visáo lógico-formal. Por ou-tro lado, a saúde-doença está relacionada aos eventos cotidianos, como poder ou não tra-balhar, sentir-se disposto, fazer "as coisas". A subjetividade emerge no discurso de sentirse bem, de ser algo bom, dádiva divina ou, seu oposto, quando a doença emerge. Dessa forma, podemos perceber que doença não se constituí somente ñas alterações corporais, mas também diz respeito a um estado anormal, no qual as funções físicas, intelectuais, emocionáis, socioculturais ou espirituais estáo diminuidas.

Por meio deste estudo verificouse o quanto o processo saúde-doença está interligado com os aspectos culturáis de cada individuo.

Instrumentalizar a enfermagem e os outros profissionais de saúde com estes conhe-cimentos podem contribuir para a elabora-ção de estrategias de intervenções mais próximas ao universo cultural, social e emocional dos idosos que convivem com a pobreza e com as dificultades materiais para solucionar seus problemas de saúde.

A partir desses resultados, a discussáo de como intervir junto ao idoso deve considerar o que ele compreende como saúde e doença, de modo a alcançar resolubilidade e coope-ração para o cuidado institucional e autocui-dado, finalidade da intervenção de enferma-gem.

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Fecha recepción: 26.10.05. Fecha aceptación: 28.04.08.