SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.62 issue3-4Parasites of pigeons (Columba livia) in urban areas of lages, Southern Brazil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Parasitología latinoamericana

On-line version ISSN 0717-7712

Parasitol. latinoam. vol.62 no.3-4 Santiago Dec. 2007

http://dx.doi.org/10.4067/S0717-77122007000200015 

 

Parasitol Latinoam 62: 188 -191, 2007 FLAP

COMUNICACIONES

 

Prevalence of slaughter and liver condemnation due to Fasciola hepática among sheep in the state of Rio Grande do Sul, Brazil 2000 and 2005

 

FABIOLA OPITZ VIEIRA DA CUNHA* ; SANDRA MARCIA TIETZ MARQUES ** e MARY JANE TWEEDIE DE MATTOS***

* Médica Veterinaria, Faculdade de Veterinaria (FAVET), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Monografía apresentada como requisito para obtenção do grau de Médica Veterinaria.
** Profa. MSc, Dr., Departamento de Patologia Clínica Veterinaria, FAVET, UFRGS. Rúa Aneron Correa de Oliveira, 74, ap. 201, Bairro Jardim do Salso, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. CEP: 91.410-070.
***Profa. MSc, Dr., Departamento de Patologia Clínica Veterinaria, FAVET, UFRGS, Brasil.

Dirección para correspondencia


ABSTRACT

The aim of this study is to determine the prevalence of Fasciola hepática among sheep in the state of Rio Grande do Sul, Brazil, by reviewing slaughter and liver condemnation data obtained from the Federal Inspection Service, afflliated with the Brazilian Ministry of Agriculture, Animal Husbandry and Supply, for years 2000 to 2005. Liver condemnation amounted to 14.57% (18,072/ 124,078) in 2000,10.14% (11,998/118,332) in 2001,10.96% (11,372/103,762) in 2002, 9.96% (10,802/ 108,461) in 2003, 5.42% (6,245/114,596) in 2004, and 2.27% (2,750/121,172) in 2005. The overall prevalence of liver condemnation due to F. hepática corresponded to 8.87% (61.239/690.361). In conclusion, fascioliosis was found to be prevalent among sheep in the state of Rio Grande do Sul and to account for major economic losses to farmers, meat packing plants and to the government.

Key words: Fasciola hepática, sheep, liver condemnation, prevalence

RESUMO

O objetivo deste trabalho foi determinar a prevalência de Fasciola hepática em ovinos no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, através de laudos de abate e condenação de fígados ovinos. Os dados de condenação de 2000 a 2005 foram obtidos do Servico de Inspeção Federal (SIF) do Ministerio da Agricultura, Pecuaria e Abastecimento (MAPA). No ano de 2000 foi de 14,57% (18.072/124.078); em 2001 foi de 10,14% (11.998/118.332); em 2002 foi de 10,96% (11.372/103.762); em 2003 foi de 9,96% (10.802/108.461); em 2004 foi de 5,42% (6.245/ 114.596) e em 2005 foi de 2,27% (2.750/ 121.172). A prevalência geral de condenação de fígados por F. hepática foi de 8,87% (61.239/ 690.361). Conclui-se que a fasciolose ovina é prevalente no Rio Grande do Sul, acarretando perdas para os produtores, frigoríficos e para o Estado.


INTRODUÇÃO

A fasciolose é urna zoonose parasitaria produzida pelo trematódeo Fasciola hepática e de importancia económica devido as perdas causadas por condenações de fígados em abatedouros-frigoríficos, mortalidade, redução na produção de la, carne e leite, infecções secundarias, perda de peso, interferencia na fertilidade e custos com tratamentos antihelmínticos1, 2. A mortalidade é importante em ovinos e bovinos e pode representar, em locáis contaminados, perdas significativas em torno de 15 a20%3.

No Brasil, as áreas mais atingidas pela F. hepática estao localizadas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Goiás4-8.

Fasciola hepática tem alta freqüência no Rio Grande do Sul, especialmente no sul e sudeste do Estado, onde a fasciolose é endêmica. A ocorrência desta parasitose está ligada a presença de moluscos do gênero Lymneae, hospedeiro intermediario, bem como de ovinos e bovinos parasitados, hospédenos definitivos, os quais são disseminadores de ovos. A topografía, hidrografía, como a presença das Lagoas dos Patos, Mirim e Mangueira, banhados, pastagens alagadiças e restevas da orizicultura irrigada, contribuem na disseminação e manutenção da alta freqüência de fasciolose o ano todo 9-10 .

Informações sobre condenações de fígados parasitados por F. hepática em animáis são baseados em dados fornecidos pelos frigoríficos abatedouros, através do Servicos de Inspeção Federal (SIF), Servico de Inspeção Estadual ou Municipal.

A Região Sul do Brasil tem um plantel ovino de 4.515.766 cabecas, totalizando 29,99% do efetivo entre as 5 regiões geográficas n. Por Estado da federação, o Rio Grande do Sul detém o ranking de maior rebanho ovino no período de 2005,  totalizando em torno de 4 milhões de cabecas. No crescimento percentual do rebanho de ovinos, por região, no período de 1998 a 2004, a Região Sul teve um decréscimo de 23,74%, enquanto as outras regiões tiveram um crescimento medio de 31,46% 12 .

Em 2005, o número de abates de ovinos sob controle do Servico de Inspeção do Ministerio da Agricultura, Pecuaria e Abastecimento foi de 121.180 cabecas e foi estimado, para o ano de 2006, o abate de 63.830 cabecas 13 .

O Rio Grande do Sul apresenta um percentual de condenações de fígados que tem aumentado. Entre os anos de 1958 a 1963, a fasciolose bovina obteve índices de 8% e para os anos 1974 até 1977 foi de 11,5% 14. Em 1984 a prevalência foi de 14,7%, quando 142.980 fígados foram condenados devido á F. hepática, com prejuízo para a industria e produtores 3.

Levantamento sobre fasciolose bovina no Estado do Rio Grande do Sul, dos anos de 1993 a 1997, demonstrou prevalência geral de 13,2% de fígados condenados em matadouros-frigoríficos e percentuais elevados nos municipios de Santa Vitoria do Palmar (38%). Cristal (37,8%), Camaqua e Herval (19%). Nos municipios de Bagé, Dom Pedrito, são Lourenco do Sul, Rio Grande, Arroio Grande, Tapes, Ulha Negra, Pinheiro Machado, Canguçú, Encruzilhada do Sul, Caçapava do Sul, Candiota, Lavras do Sul, Amaral Ferrador e Cruz Alta, a prevalência variou entre 10 a 15%. Para ovinos, aprevalência de condenação de fígados parasitados foi de 4%, entre os anos de 1993 e 1997 15 .

Para as especies bovina e bubalina, as prevalências de condenações de fígados parasitados por F. hepática foram de 10,34 % e 20%, respectivamente. Por procedencia das amostras, representou umapositividade de 63,6% e de 80%, respectivamente, de municipios do Rio Grande do Sul, a maioria deles com relatos anteriores da presença da F. hepática 16 .

Os dados mais recentes, divulgados para o Rio Grande do Sul, para a especie bovina, foram dos anos de 2004 e 2005 com prevalência de 19,11% e 19,60%, respectivamente. Entretanto, dados na literatura sobre a condenação de fígados por fasciolose ovina no Rio Grande do Sul e no resto do país são escassos. Os dados são gerados, porém o acesso ás informações é restrito á industria e aos produtores. Um dos raros relatos em condenação de fígados por fasciolose em ovinos, são dos anos de 1983 e 1984, com prevalência de 11% e 9,1%, respectivamente 5.

O objetivo deste trabalho foi determinar a prevalência de condenações de fígados ovinos parasitados por F. hepática, de animáis provenientes de diversas regiões do Estado, dos anos de 2000 a 2005.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram coletados dados de planilhas de controle de abate e de condenações de fígados ovinos, em matadouros-frigoríficos no Estado do Rio Grande do Sul, avahados pelo Servico de Inspeção Federal do Ministerio da Agricultura, Pecuaria e Abastecimento, entre anos de 2000 a 2005. As informações foram obtidas de animáis de ambos os gêneros e idades variadas, totalizando 690.361 abates.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O resultado do número de ovinos abatidos e de condenação de fígados por F. hepática, obtidos do Servico de Inspeção Federal (SIF) do Ministerio da Agricultura, Pecuaria e Abastecimento do Estado do Rio Grande do Sul é mostrado na

Os municipios com maior percentual de fasciolose, nos anos amostrados, e obtidos através de condenação de fígados foram: Santa Vitoria do Palmar, Santo Antonio da Patrulha, Osório, Terra de Areia, Tapes, Vacaría e Cachoeira do Sul. Ao analisar estes dados, nota-se um decréscimo nos índices percentuais, o que é satisfatório, embora não seja um dado realista, pois urna parcela significativa de ovinos não se encontra neste percentual, como animáis de cabanha, animáis ainda em fase de crescimento e terminação para o abate. Além disso, o consumo de carne ovina é preferencial ñas fazendas, é de menor custo e praticado tradicionalmente na propriedade, com abates in loco. Falta, no entanto, estrutura para abate. É preocupante, principalmente pelo fato dos abates clandestinos ocorrerem e serem em número elevado. De acordó com o Ministerio da Agricultura, Pecuaria e Abastecimento do Rio Grande do Sul, é estimado que para cada 10 animáis abatidos em matadouros-frigoríficos, outros 6 são abatidos clandestinamente13. Mesmo recebendo denuncias, os fiscais do Servico de Inspeção pouco ou nada podem fazer. É difícil confirmar as denuncias tendo em vista que as propriedades abatem para consumo próprio.Muitas vezes o abate é dificultado pelapróprialegislação, que só permite a entrada dos fiscais com ordem judicial. Urna solução para estes casos, seria a institucio-nalização de abates comunitarios, que reduziriam os problemas sanitario e financeiro, e ajudaria o faturamento de estabelecimentos legalizados. O empecilho deste tipo de abate é antes de tudo convencer os proprietaries dos animáis a abater em locáis apropriados e conscientizá-los dos perigos dos abates clandestinos.

A demanda por carne ovina vem apresentando crescimento considerável ñas grandes cidades brasileiras, porém este consumo ainda é considerado baixo, em relação ao consumo de carne de bovinos, frangos e suínos. Perdas também em relação ao abate, ocorrem por vantagens competitivas de outros estados, tais como: solo, pasto, melhores cañáis de distribuição, incentivos fiscais e infra-estrutura de maior aporte para abates.

Frente a isto, existe também a inseguranca alimentar quanto a ingestao de produtos cárneos ovinos e sua possível transmissão de doenças para humanos.


Em algumas regiões do Estado, as características geográficas contribuem para amanutenção do hospedeiro intermediario. O manejo de criação, que coloca animáis a pasto por longos períodos e o consorcio de pastejo com bovinos também são importantes na manutenção da fasciolose.

O controle eficiente da fasciolose requer urna correta integração na redução do número de hospedeiros intermediarios, pelo emprego de métodos químicos, físicos e biológicos. O combate ao molusco é praticamente impossível pelo seu alto poder biótico; sua erradicação é difícil porque o uso de molusquicidas representa grande perigo de contaminação para o meio ambiente; e a drenagem, que nem sempre é possível, devido á extensão das áreas contaminadas e mesmo porque, em muitos casos, essas áreas consistem dos próprios cañáis de irrigação da lavoura agrícola 3 .

Para o controle eficiente desta parasitose é necessário o uso de fasciolicidas que sejam de fácil aplicação, de baixo custo, não sejam tóxicos, que não deixem residuos e que sejam altamente eficazes no combate ás fases adultas e imaturas da F. hepática. A freqüência das medicações irá depender da eficiencia do medicamento e do grau de exposição dos animáis em áreas altamente contaminadas.

Ao adquirir animáis em feiras, exposições ou compra direta do pecuarista, o criador deve exigir a certificação da sanidade dos ovinos quanto ás verminoses. Deverá, ao introduzir animáis novos na propriedade, fazer a dosificação estratégica e a quarentena dos animáis. Na prática, o controle supressivo se torna muito caro, entretanto deveria ser utilizado em áreas contaminadas, como em algumas regiões do Rio Grande do Sul, onde a epidemiología da doença é conhecida e a ocorrência de fasciolose é aguda.

Normalmente na Região Sul do Rio Grande do Sul, existe a indicação de duas medicações anuais para controlar a fasciolose, urna no final de outono e outra no inicio da primavera, possibilitando aeliminação de infecções adquiridas durante o verao e invernó. Além dessas medicações, é recomendada urna terceira dose estratégica, administrada no verao (dezembro ou Janeiro). Este programa estratégico permite que os animáis, durante a fase de boa disponibilidade alimentar no campo nativo ou forragens (setembro a abril), estejam em boas condições sanitarias, para melhor conversão alimentar e assim, reduzir perdas de produção, condenações de visceras, aproveitamento de ció, lactação e la de melhor qualidade. Entretanto, são recomendações de ordem geral, porque em diferentes regiões do Estado, existem propriedades com diferentes níveis de parasitismo, cabendo ao médico veterinario, baseado em informações de abate e de exames parasitológicos, a recomendação específica para cada propriedade.

Conclui-se que a fasciolose ovina é prevalente no Rio Grande do Sul, acarretando perdas para os produtores, matadouros-frigoríficos e para o Estado.

 

REFERENCIAS

1.- ROSS, J.G.; DOW, C; TODD, J.R. A study of Fasciola hepática infections in sheep. Veterinary Record 1997; 80: 543-6.        [ Links ]

2.- DALTON J P. Fasciolosis. 1. ed. Cambrige, UK: University Press, 1999. p. 113-149.        [ Links ]

3.- ECHEVARRÍA F A M. Mesa Redonda sobre fasciolose Bovina. A Flora Veterinaria, Ed. Extra, n.1, p.27-31,1995.        [ Links ]

4.- UENO H, GUTIERRE VC, MATTOS M J T, MULLER G. Fasciolosis problems in ruminants in Rio Grande do Sul, Brazil. Veterinary Parasitology, 1982; 11(2-3): 185-91.        [ Links ]

5.- ECHEVARRÍA F A M. Fasciolose. ocorrência, diagnóstico e controle. Agroquímica Ciba- Geigy 1985; 27: 4-9.        [ Links ]

6.- AMATO S B, REZENDE H E B de, GOMES D C, SERRA- FREIRÉ N M. Epidemiology of Fasciola hepática infection in the Paraíba River Valley, São Paulo, Brazil. Veterinary Parasitology 1986; 22: 275-84.        [ Links ]

7.- SERRA-FREIRE N M, BORDIN E L, LESSA C S S, et al. Reinvestigação sobre Fasciola hepática no Brasil. A Hora Veterinaria, Ed. Extra, n. 1, p. 19-21, 1995.        [ Links ]

8.- SERRA-FREIRE N M. Fasciola hepática. A Hora Veterinaria, Ed. extra, n. 1, p. 13-18, 1995.        [ Links ]

9.- MATTOS M J T de, UENO H, GONCALVES P C, ALMEIDA J E M de. Ocorrência estacional e bioecologia de Lymnaea columella Say, 1817 em habitat natural no Rio Grande do Sul. Revista Brasileira de Medicina Veterinaria, 1997; 19: 248-52.        [ Links ]

10.- MÜLLER G, JESUS L P de, PAULSEN R M M, SOUZA C A. Prevalência de fasciolose no sul do Rio Grande do sul. In: II Congresso de Medicina Veterinaria do Cone sul, XII Congresso Estadual de Medicina Veterinaria e XXV Congresso Brasileiro de Medicina Veterinaria, 1997, Gramado. Resumos. Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Medicina Veterinaria.        [ Links ]

11.-EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuaria. 2006. Disponível em:< http://www.cnpc.embrapa.br/catalogo.htm> Acesso em: 20 .set. 2007.        [ Links ]

12.- BRASIL, Instituto Brasileiro de Geografiae Estatística/Sidra. 2006. Disponível em: < http:// www.sidra.ibge.gov.br/bda/ pecua> Acesso em: 20. set. 2007.        [ Links ]

13.- BRASIL, Ministerio da Agricultura, Pecuaria e Abastecimento. 2006. Disponível em: <http://www.agricultura.gov.br/pls/portal/docs/page/mapa/estatisticas/pecuaria/3.5.xls> Acesso em: 20. set. 2007.        [ Links ]

14.- REZENDE H E B de. Retrospectiva da fasciolose bovina no Brasil. In: Seminario Nacional Sobre Parasitoses dos Bovinos, 1979, Campo Grande. Resumos. Campo Grande: Empresa Brasileira de pesquisa agropecuaria/ Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte, 1979, p. 133-43.        [ Links ]

15.- MULLER G, BERNE M E A, RAFFI L L, et al. Influencia da temperatura na longevidade de metacercárias de Fasciola hepática. Revista Brasileira de Agrociéncia, 1999; 5(2): 164-5.        [ Links ]

16.- MARQUES S M T, SCROFERNEKER M L. Fasciola hepática infection in cattle and buffalões in the State of Rio Grande do Sul, Brazil. Parasitología Latinoamericana 2003; 58(3-4): 169-72.        [ Links ]

 

Correspondencia a:

Autor para correspondencia.
sandra.marques@ufrgs.br
.