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Parasitología latinoamericana

On-line version ISSN 0717-7712

Parasitol. latinoam. vol.62 no.3-4 Santiago Dec. 2007

http://dx.doi.org/10.4067/S0717-77122007000200005 

 

Parasitol Latinoam 62:127 -133, 2007 FLAP

ARTICULO ORIGINAL

 

Anisakidae parasitos de congro-rosa, Genypterus brasiliensis Regan, 1903 comercializados no estado do Rio de Janeiro, Brasil de interesse na saúde pública

ANISAKIDAE PARASITES OF CUSK-EEL, Genypterus brasiliensis REGAN, 1903 PURCHASED IN THE RIO DE JANEIRO STATE, BRAZIL AND OF INTEREST IN PUBLIC HEALTH

 

MARCELO KNOFF*, SERGIO CARMONA DE SÃO CLEMENTE**, MICHELLE CRISTIE GONÇALVES DA FONSECA*, CAROLINE DEL GIUDICE DE ANDRADA***, RODRIGO DO ESPÍRITO SANTO PADOVANI**** e DELIR CORREA GOMES*

* Laboratorio de Helmintos Parasitos de Vertebrados, Instituto Oswaldo Cruz.
** Faculdade de Veterinaria, Universidade Federal Fluminense, Rúa Vital Brazil, 64, CEP 24230-340, Niterói, RJ, Brasil.
*** Serviço de Inspeção de Produtos Agropecuarios, Superintendência Federal de Agricultura, Rodovia AC- 40,793, CEP 69901-180, Corrente, Rio Branco, AC, Brasil.
**** Serviço de Inspeção de Produtos Agropecuarios, Superintendência Federal de Agricultura, Praça Cívica, 100, 3o andar, CEP 74003-010, Centro, Goiânia, GO, Brasil.

Dirección para correspondencia


The aim of this study was to identify the species Anisakidae, of interest to public health, parasitizing the cusk-eel, Genypterus brasiliensis Regan, 1903 purchased in markets ofNiteroi and Rio de Janeiro counties, Brazil, emphasizing their parasite indexes, sites of infection and higienic-sanitary importance. Seventy-four specimens ofG brasiliensis were necropsiedfrom October 2002 to September 2003. Twenty fish specimens (27%>) were parasitized by live larvae of Anisakidae. The collected species were represented by Anisakis physeteris, Anisakis simplex, Anisakis sp., Pseudoterranova decipiens, Pseudoterranova sp., Hysterothylacium sp., Raphidascaris sp., Contracaecum sp. and Terranova sp. The species Anisakis sp. and A. simplex presented the higher prevalences, both with 13,5% whereas A. physeteris presented the lower prevalence 1,35%. The other species, Pseudoterranova sp., P. decipiens, Hysterothylacium sp., Raphidascaris sp., Contracaecum sp. and Terranova sp. presented prevalences of 10,8%, 5,4%, 2,7%, 4,1%, 1,4% and 1,4%, respectively. The sites of infection were, the mesentery, stomach and intestinal seroses, intestine, ovary and musculature.

Key words: Anisakidae, Genypterus brasiliensis, Congro-rosa, Brazil.

RESUMO

O objetivo deste estudo foi determinar as especies de Anisakidae parasitando congro-rosa, Genypterus brasiliensis Regan, 1903 comercializados nos mercados dos municipios de Niterói e Rio de Janeiro, Brasil, de interesse em saúde pública, enfatizando seus índices parasitarios, sitios de infecção e importância higiénico-sanitária. Setenta e quatro espécimes de G. brasiliensis foram necropsiados de outubro de 2002 a setembro de 2003. Vinte peixes (27%) estavam parasitados por larvas vivas de nematóides Anisakidae: Anisakis physeteris, Anisakis simplex, Anisakis sp., Pseudoterranova decipiens, Pseudoterranova sp.,Hysterothylacium sp., Raphidascaris sp., Contracaecum sp. e Terranova sp. As especies Anisakis sp. e A. simplex foram as especies que apresentaram maior prevalência, ambos com 13,5% e A. physeteris a menor prevalência 1,35%. As demais especies, Pseudoterranova sp., P decipiens, Hysterothylacium sp., Raphidascaris sp., Contracaecum sp. e Terranova sp. apresentaram as seguintes prevalências 10,8%, 5,4%, 2,7%, 4,1%, 1,4% e 1,4%, respectivamente. Os sitios de infecção foram o mesentério, serosa do estómago e intestinal, instestino, ovario e musculatura.


INTRODUÇÃO

Nematóides Anisakidae com destaque para as especies Anisakis simplex e Pseudoterranova decipiens1 são de grande importância em saúde pública por causarem a anisaquíase ou anisaquiose em humanos, após ingestão acidental de pescado cru, mal cozido, defumado e salgado contendo a larva L3 infectante2. Apesar de não ser comum, a especie Hysterothylacium aduncum também está envolvida em um caso humano no océano Pacífico3.

Os peixes teleósteos por estarem envolvidos no ciclo biológico dos anisaquídeos como hospedeiros intermediarios vem sendo investigados no intuito de se encontrar as suas formas larvares. No Brasil, embora não se tenham relatos de anisaquíase, diversos autores retratam a presenaça dessas larvas em especies de peixes marinhos e de agua doce. Foram listados 50 especies de peixes teleósteos da costa do Brasil e relatado a presenaça de larvas de anisaquídeos em 44 destas especies analisadas4.

Estados sobre a presenaça de anisaquídeos em Genypterus bvasiliensis vem sendo realizados no Brasil5,7. O primeiro registra a presenaça de larvas dos gêneros Pseudoterranova sp. (=Terranova sp.) e Hysterothylacium sp. neste hospedeiro, analisando seus índices parasitarios e sitios de infecção5. Nos outros dois, um relata a presenaça deAnisakis sp. na musculatura e sua importância na inspeção sanitaria6 e o outro sobre a avaliação da resistencia das larvas de Anisakis sp., quando submetidas ão processo de irradiação7.

Na América do Sul, também já foram investigadas outras especies pertencentes ão gênero Genypterus, como G. blacodes, na Argentina8, Genypterus capensis, no océano Atlántico e Genypterus chilensis, no Chile, no Pacífico9.

O objetivo do presente trabalho foi detectar a presenaça das especies de anisaquídeos em G brasiliensis comercializados no estado do Rio de Janeiro, Brasil, analisando os índices parasitarios (prevalência, intensidade e/ou intensidade media, amplitude de variação da intensidade, abundância media e sitio de infecção).

MATERIAL E MÉTODOS

Entre o período de outabro de 2002 a setembro de 2003 foram adquiridos 74 espécimes de G brasiliensis, de mercados dos municipios de Niterói e Rio de Janeiro. Os peixes foram adquiridos inteiros, e mediam entre 41,5 a 93 cm de comprimento total. Após a coleta foram transportados ão Laboratorio de Helmintos Parasitos de Vertebrados do Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro em caixas de isopor com gelo. A identificação dos peixes foi realizada de acordó com Figueiredo & Menezes10. Após a necropsia, os órgãos internos foram transferidos para placas de Petri contendo solução fisiológica a 0,65% de NaCl e observados através de estereomicroscópio. Os files foram obtidos da musculatura, através de urna incisão próxima ãos opérculos até a inserção da nadadeira caudal, e inspecionados utilizando um negatoscópio. Os nematóides foram coletados, fixados, clarificados e preservados em álcool 70 °GL a 5% glicerinado11. Para identificação das larvas de nematóides Anisakidae foram utilizados os trabamos de alguns autores1214. Os índices parasitarios utilizados seguem os conceitos de Bush et al15. Espécimes representativos das especies encontradas foram depositadas na Coleção Helmintológica do Instituto Oswaldo Cruz (CHIOC), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

RESULTADOS

Dos 74 espécimes estudados, 20 (27%) estavam parasitados por larvas vivas de Anisakidae: Anisakis sp., A. physeteris, A. simplex, Pseudoterranova sp., P decipiens, Hysterothylacium sp., Raphidascaris sp., Contracaecum sp. e Terranova sp. Os seus índices parasitarios, sitio de infecção e número dos depósitos na CHIOC encontram-se na tabela 1.


Anisakis sp. e A. simplex foram as especies que apresentaram os maiores índices parasitarios e também a maior diversificação dos sitios de infeção, ambos com 13,5% de prevalência, e as intensidades medias de infecção foram 5,9 e 8,4 larvas por hospedeiro, respectivamente, e amplitude de variação da intensidade de infecção de 1-23 e 1-15, respectivamente, sendo que A. simplex apresentou a maior abundância media (1,13) entre todas as especies coletadas. Em Anisakis sp. as larvas estavam presentes no mesentério, serosa intestinal e estómago. Em Anisakis simplex estavam presentes na serosa do estómago, mesentério, serosa intestinal, ovario e musculatura este último sitio de infecção tem especial importância por apresentar risco ão consumo humano, onde foram encontradas duas larvas em um hospedeiro. Este trabalho dá continuidade a investigação sobre a presenaça de larvas de anisaquídeos na musculatura de G brasiliensis comercializados no estado do Rio de Janeiro6, onde havia sido registrado Anisakis sp., agora determinado como A. simplex, onde após 74 hospedeiros analisados apenas um estava parasitado com duas destas larvas. Urna outra especie pertencente ão gênero Anisakis, A. physeteris, apresentou índices parasitarios mais baixos, com 1,35% de prevalência, intensidade media igual a 4 e amplitude de variação da intensidade de variação foi 1-4, sendo encontrada em apenas um sitio de infecção, o mesentério. Se levarmos em conta a presenaça como um todo percebemos que as larvas das especies pertencentes ao gênero Anisakis apresentaram os maiores índices parasitarios e também amaior diversificação dos sitios de infecção, com 25,7% de prevalência, intensidade media de 8,26 por hospedeiro e amplitude de variação da intensidade de infecção de 1-30 e abundância media de 2,12. Pseudoterranova sp. foi a terceira especie de larva que apresentou os maiores índices parasitarios, com 10,8% de prevalência, e amplitude de variação da intensidade de infecção de 1-9, com exceção da intensidade media que foi igual a 2,75 sendo encontradas no mesentério e intestino. Urna outra especie pertencente a este gênero, P decipiens, apresentou 5,4% de prevalência, intensidade igual a 1,25 parasito por hospedeiro. Hysterothylacium sp. e Raphidascaris sp. estavam presentes somente no mesentério, apresentando prevalências de 2,7% e 4,1% com intensidades medias de 2 e 1,33, respectivamente. Já Contracaecum sp. e Terranova sp. foram encontradas em um espécime cada com apenas urna larva, e apresentando mesma prevalência, 1,4% e tendo como sitios de infecção o mesentério e o intestino, respectivamente.

Infecções simples ocorreram em 11 peixes, sendo cinco com Anisakis sp., cinco com A. simplex e um com Pseudoterranova sp.

Infecções múltiplas de duas especies ocorreram em quatro peixes, sendo tres com Anisakis sp. e Pseudoterranova sp.; e um com A. simplex e Pseudoterranova decipiens.

Infecção múltipla de tres especies ocorreu em um peixe, com A. simplex, Pseudoterranova sp. e Raphidascaris sp.

Infecções múltiplas de quatro especies ocorreram em tres peixes, sendo um com A. simplex, Pseudoterranova sp., P decipiens e Raphidascaris sp.; um com A. simplex, A. physeteris, Raphidascaris sp. e Hysterothylacium sp.; e um com Anisakis sp. Pseudoterranova sp., P decipiens e Terranova sp.

Infecção múltipla de seis especies ocorreu em um peixe, com A. simplex, Pseudoterranova sp., P. decipiens, Hysterothylacium sp., Raphidascaris sp. e Contracaecum sp.

DISCUSSÃO

Pesquisas anteriores sobre a ocorréncia de especies de Anisakidae em G. brasilensis na América do Sul demonstram que no Brasil, no estado do Rio de Janeiro foram encontradas larvas de Pseudoterranova sp.(= Terranova sp.), Contracaecum sp. e de Hysterothylacium sp.5, e na Argentina foram registradas larvas deAnisakis sp., P. decipiens e H. aduncums. Como em geral acontece nos trabalhos que versam sobre larvas de anisaquídeos, também pode-se observar que a determinação específica destas larvas destes dois artigos, somente foi possível em algumas especies e ñas outras não foram além do nivel genérico, portanto as comparações destes resultados com os obtidos no presente trabalho foram realizadas de acordó com as especies identificadas, ou a nivel genérico. Quando comparados os registros anteriores ãos resultados obtidos no presente trabalho, observa-se que o número de especies de larvas de nematóides anisaquídeos encontradas agora foi maior, sendo Anisakis sp., Pseudoterranova sp., Hysterothylacium sp.,Raphidascaris sp., Contracaecum sp. e Terranova sp. As larvas encontradas, estavam presentes em outros sitios de infecção, inclusive na musculatura, enquanto que os autores anteriores registraram a presenaça destas larvas apenas no mesentério e estómago.

Em 2006 Tavares & Alejos16, fazem uma reavaliação sistemática das larvas de Anisakidae que foram registradas em Alves et al5 modificando a determinação para Terranova sp. daquelas que haviam sido determinadas como Pseudoterranova sp. (comunicação pessoal do Dr. L. E. R. Tavares) o que possibilitou a comparação dos dados obtidos anteriormente5 com as larvas pertencentes ão gênero Terranova.

Comparados os índices parasitarios obtidos para larvas de anisaquídeos encontradas 5 em G brasiliensis, constatou-se que, as prevalências apresentadas anteriormente foram maiores em duas especies, sendo 5,4% para Pseudoterranova sp.(= Terranova sp.) e 11% para Contracaecum sp., e menor em Hysterothylacium sp. com 1,8%; as intensidades e/ou intensidades medias foram pouco maiores para Terranova sp. com 1,6 e Contracaecum sp. com 3,6 e menor em Hysterothylacium sp. com 1, porém similares pois todos os valores se mostraram baixos também no presente trabalho, respectivamente, 1, 1 e 1,33; e as abundâncias medias para tais larvas apresentaram-se similarmente baixas.

Os registros de larvas de Anisakidae coletadas na Argentina em G. brasiliensiss, quando comparados com os resultados do presente trabalho, demonstram que Anisakis sp. apresentou índices mais elevados tanto para prevalência (64,5%), para intensidade media (12,3), como para abundância media (7,9); Hysterothylacium aduncum, foi a segunda especie de anisaquídeo mais prevalente com 9,7%, 1,7 de intensidade media, e abundância media de 0,1 e teve o sitio de infecção o estómago, se compararmos com os registros de Hysterothylacium sp. coletados no presente trabalho, esta especie foi a quinta em ordem de prevalência em vez de ser a segunda mais prevalente com 2,7%, com a intensidade media um pouco mais elevada, de quatro larvas em dois hospedeiros e menor abundância media com 0,05 e em um outro sitio de infecção, o mesentério.

Quando comparados os resultados dos índices parasitarios de larvas de Anisakidae registrados em outra especie de Genypterus, G blacodes, na Argentina8 com os do presente trabalho, podemos observar que entre as especies de anisaquídeos coletadas, Anisakis sp. também foi a especie mais prevalente (55,4%), com maior intensidade (29) e maior abundância media (16,1), ressaltando porém que estes índices se apresentaram mais elevados, e estas larvas só foram observadas parasitando o mesentério; Contracaecum sp. apresentou maiores prevalência (6,9%), intensidade media (5,7) e abundância media (0,4), para G. blacodes esta foi a segunda especie de anisaquídeo que apresentou estes índices mais elevados, enquanto no presente trabalho as larvas desta especie apresentaram estes índices mais baixos; Pseudoterranova decipiens apresentou índices menores de prevalência (3,9%), intensidade media (1,5), mas com abundância ligeiramente maior (0,1), próximo do valor apresentado em nosso trabalho (0,06), para G blacodes esta foi a especie que apresentou os menores índices parasitarios, enquanto que no nosso trabalho foi a terceira especie que apresentou estes índices mais elevados.

Ao analisar G chilensis, no océano Pacífico9, percebe-se uma diferenca com o presente trabalho, onde há apenas o registro de uma especie de anisaquídeo, Pseudoterranova decipiens apresentando maiores prevalência (50%) e intensidade media (1,8), e o sitio de infecção foi a musculatura.

Pesquisas anteriores relatando larvas de anisaquídeos no tecido muscular de peixes marinhos comercializados frescos dos hemisferios norte e sul têm em sua maioria registros das especies do gênero Anisakis, envolvendo também em menor número outras como de Pseudo-terranova e Contracaecum 6-17,23. As intensidades medias de infecção segundo os trabalhos anteriores, incluindo estudos em peixes brasileiros, sugerem variáveis consideráveis, e o valor baixo registrado para o hospedeiro examinado no presente trabalho se encontra entre os valores registrados anteriormente. Isto vem de encontró ão observado por Torres et al9, que cita que as variacoes nos parámetros de infecção por especies de anisaquídeos nos peixes, em parte, estão relacionadas com a presenaça de mamíferos marinhos que atuam como hospedeiros definitivos, fatores ambientáis como a temperatura que influí sobre o desenvolvimento dos ovos destes parasitos, as populacoes de crustáceos que servem de hospedeiros intermediarios ou paraténicos, assim como, a idade, tamanho e alimentação dos peixes também influenciam um papel determinante nos parámetros de infecção.

A presenaça de larvas vivas de anisaquídeos na carne do pescado sugere que estas não foram suficientemente congelados e portante constituem um risco imediato para a população consumidora de pescado cru, defumado e mal cozido. Fato semelhante ocorrido no Chile enfatiza especialmente especies de congros, G. chilensis, e linguados, Paralichthys microps, que registraram as maiores densidades de infecção na musculatura9.

No Brasil ainda não existe nenhum caso de infecção humana por anisaquídeos. Mas algumas pesquisas já foram realizadas em peixes brasileiros de importância comercial onde foram detectadas a presenaça de larvas vivas de Anisakidae7. A prevenção da anisaquíase deve orientar-se desde a educação sanitaria da população, criando consciéncia pelo consumo de pescados previamente congelado ou cozido.

A Organização Mundial de Saúde2 (OMS) informa que a infecção humana pode ser prevenida pela não ingestáo da carne crua de peixes, salientando que a maioria das especies de anisaquídeos que são perigosos ão homem morrem quando expostas a temperaturas de -20°C por 24 horas ou 60°C por 1 minuto, e salienta que urna vez que estas temperaturas são aquelas que as larvas devem estar expostas, e desde que algumas especies são mais resistentes, recomenda que o peixe deva ser cozido a 70°C ou congelado a -20°C por 72 horas para se obter urna margem de seguraba. Informa também que a salga é eficaz quando concentrados de solucoes salinas atingem todas as partes do peixe a serem usadas. Salientando que o meio mais eficaz para o controle da anisaquíase na comunidade deva ser a proibição da venda de peixes que não sejam submetidos a estes processos, e que também é importante eviscerar os peixes imediatamente após sua captura para prevenir que as larvas de anisaquídeos passem do mesentério para musculatura.

Outros autores tém mencionado diversos procedimentos quanto ão tempo e temperatura de exposição da carne de pescado para prevenção da anisaquíase, como o congelamento a -35°C por 15 horas, ou a -20°C por 7 dias ou na cocção, se recomenda temperaturas internas de 63°C por 15 segundos ou mais, na parte mais grossa do produto, o defumado a quente pode matar os parasitos enquanto forem mantidas as temperaturas letais já assinaladas, o defumado a frío não constituí urna medida de prevenção para esta infecção1; cozinhar os files com mais ou menos 3 cm de espessura a 70°C ou 60°C por 7 a 10 minutos respectivamente, no caso de P. decipiens24; cocção em forno de microondas requer de 77°C ou mais na porção mais grossa do produto, pelo menos para A. simplex25. No Brasil, no estado do Rio de Janeiro, se utilizou o congelamento para inviabilizar larvas de nematóides anisaquídeos de Pagrus pagrus e pode observar que quando congelados por 2 horas a temperaturas de -18°C e a -15°C todas as larvas apresentaram-se mortas26 Marques et al27 puderam observar que espécimes de Trichiurus lepturus quando expostos a -18°C, ao final de 5 horas, 55,1% das larvas estavam mortas e atingiram a percentagem de 91,6% de mortandade ão final de 24 horas. Quando expostas por 24 horas a -13°C, 91,6% as larvas de anisaquídeos apresentaram-se mortas e após 5 horas expostas a -5°C, apenas 55,1% das larvas estavam mortas. Em 1996, São Clemente et al28, submeteram espécimes de T. lepturus ãos processos de salmouragem e cocção, onde o efeito da salmoura a 20° Bé (Baumé) demonstrou que ão final de 72 horas de exposição, todas as larvas de nematóides anisaquídeos encontravam-se mortas, e que nos peixes submetidos á cocção a temperatura de 100°C, 5,9% das larvas permanecerán! vivas ão final de 30 minutos e todas as larvas morreram ao final de 60 minutos, sugerindo que o melhor método para inviabilização das larvas de nematóides anisaquídeos é a cocção. O que se constata pela observação dos trabalhos anteriores1,2,21,24,25-28 que o tempo de inviabilização das larvas, através dos processos de temperatura de congelamento, cocção e salga são variáveis entre as especies de larvas de anisaquídeos provenientes de hospedeiros variados, tendo muito que ser pesquisado sobre este tipo de controle físico.

No Brasil o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitaria de Produtos de Origem Animal - RIISPOA29, o Capitulo VII, Pescado e Derivados, Seção I, Pescado, Artigo 445, assinala assim sobre o assunto: «Considera-se improprio para o consumo, o pescado: 1- de aspecto repugnante,....; 4- que aprésente infestação muscular macica por parásitas, que possam prejudicar ou não a saúde do consumidor;.... Parágrafo único - o pescado ñas condições deste artigo deve ser condenado e transformado em subprodutos não comestíveis». Esta normativa como se demonstrou nos resultados obtidos deste trabalho, não se aplica em todos os casos, e por conseguinte, devemos sugerir como medida preventiva, que o pescado que se vende fresco deve ser submetido a cocção ou ser bem congelado antes de ser consumido.

A ANVISA (Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria)30 do Ministerio da Saúde do Brasil dispoe em sua portaría n° 5, de 21 de fevereiro de 2006 urna relação nacional que incluí as doencas ñas quais a notificação é obligatoria. Definindo doencas de notificação imediata e compulsoria, a relação dos resultados laboratoriais que devem ser notificados pelos laboratorios de referencia nacional ou regional e as normas para notificação dos casos. A anisaquíase não está listada na portaría n° 5, porém, ela pode ser enquadrada no Art. 2o, desta portaría, que determina que: «A ocorrénciade agravo inusitado, caracterizado como a ocorréncia de casos ou óbitos de doencas de origem desconhecida ou alteração no padrão epidemiológico de doenca desconhecida, independente de constar na lista nacional de doencas e agravos de notificação compulsoria, deverá também ser notificada ás autoridades sanitarias».

O consumo de pescado cru (sashimi, sushi e ceviche), ou defumado está cada vez mais freqüente nos grandes centros urbanos brasileiros, não só de pescados de agua doce como de marinhos incluindo especies importadas e nacionais, inclusive a possibilidade em um futuro próximo de se registrar a ocorréncia do primeiro caso de anisaquíase no homem no Brasil já havia sido aventado á urna década atrás devido a observação de urna crescente popularidade dos restaurantes e fast-food brasileiros, especializados em sashimi e sushi23.

 

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30.- BRASIL 2006. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (ANVISA). Portaría n° 5, de 21 de fevereiro de 2006. Inclui doencas na relação nacional de notificação compulsoria, define doencas de notificação imediata, relação dos resultados laboratoriais que devem ser notificados pelos Laboratorios de Referencia Nacional ou Regional e normas para notificação de casos. Diario Oficial da União de 22/02/2006.        [ Links ]

Agradecimentos: Ao Conselho Nacional para Desenvolvimento da Pesquisa - CNPq; Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo á Pesquisa do Estado Rio de Janeiro -FAPERJ, pelo suporte financeiro parcial.

 

Correspondencia a:

Marcelo Knoff
Avenida Brasil, 4365, CEP 21045-900, Rio de Janeiro,
RJ, Brasil. E-mail: knoffm@ioc.fiocruz.br.