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Parasitología latinoamericana

versión On-line ISSN 0717-7712

Parasitol. latinoam. v.58 n.1-2 Santiago ene. 2003

http://dx.doi.org/10.4067/S0717-77122003000100018 

Parasitol Latinoam 58: 89 - 91, 2003 FLAP

COMENTARIO TAXONÓMICO

Nuttallia brasiliensis e Theileria brasiliensis, sinonímias
de
Babesia brasiliensis (Piroplasmida: Babesiidae)
hemoparasito de marsupiais Didelphidae

MARCELLO XAVIER SAMPAIO* e CARLOS LUIZ MASSARD**

Nuttallia brasiliensis AND Theileria brasiliensis, SYNONYM OF Babesia brasiliensis
(PIROPLASMIDA: BABESIIDAE) HEMOPARASITE OF MARSUPIALS

Transference of the South American opossums hemoparasite Nuttallia brasiliensis to the genus Babesia are discussed and proposed due to the pre-occupation of Nuttallia genus by mollusk species, as well as the synonym of Theileria brasiliensis to Babesia brasiliensis. Simultaneously the situation of the others members of Nuttallia and Achromaticus genus is discussed, in relation with the international rules of nomenclature and its common biologic and morphologic aspects. Also a chronological summary of B. brasiliensis reports is given.

Key words: Taxonomy, Babesia, Babesia brasiliensis, Theileria brasiliensis, Synonym.

COMENTARIO TAXONÓMICO

O gênero Nuttallia, tal como a maioria dos protozoologistas conhece1, foi proposto para um parasito intraeritrocitário, a Nuttallia herpestedis, tendo sido também incluídas no mesmo gênero a N. equi (= Babesia equi ou Theileria equi), e a Nuttallia sp. (= Theileria aristotelis2), parasitos que apresentavam como características morfo-lógicas formato ovalar ou piriforme, com formas de multiplicação em cruz (cruz-de-malta) e passando por estágios baciliformes. Baseados nestas características foi identificado um outro parasita observado em eritrócitos de Philander opossum quica3 capturada em Petrópolis, Rio de Janeiro, Brasil, e denominado Nuttallia brasiliensis, sendo descrito morfologicamente como apresentando formas anelares, piriformes, baciliformes, arredondadas ou um pouco irregulares, e sem pigmentação malárica, entre outras caracte-rísticas. Posteriormente4 o agente foi classificado como Theileria brasiliensis, apesar de não se relatar o encontro de formas de multiplicação em linfócitos ou em órgãos internos, entre outras características.

Em uma extensa revisão da classificação dos piroplasmas5 foi proposta a sinonímia do gênero Nuttallia assim como de diversos outros gêneros, entre os quais Achromaticus, em relação ao gênero Babesia, posição esta sugerida tanto previamente6 como posteriormente7 caracterizado-se os representantes da família Babesiidae como apresentando divisão binária em eritrócitos, diferentemente dos teilerídeos, que apresentariam reprodução esquizogônica nos leucócitos. Posteriormente foi proposto2 para a N. brasiliensis a denominação de T. brasiliensis sem, contudo, ser justificada esta sugestão, assim como a sinonímia dos gêneros Nuttallia e Achromaticus, além de outros, à Babesia sendo transferidos todos os representantes do primeiro a este, excetuando quatro espécies, entre as quais, a N. brasiliensis.

Ocorre, no entanto, que o gênero Nuttallia foi proposto no final do século passado8 como uma seção do gênero Sanguinolaria (Mollusca: Psamobiidae), logo anteriormente à sua publicação para organismos hemoparasitários9-10, fato este só referenciado muitas décadas depois11 estando portanto pré-ocupado em relação à sua descrição para espécies de piroplasmídeos1, conforme determinado pelo Código Internacional de Nomenclatura Zoológica12. Este considera o item seção, quando situado abaixo de gênero, com força de táxon semelhante a subgênero, situação que permitiu a proposição da transferência das espécies de parasitos de aves do gênero Nuttallia ao gênero Babesia11.

Os representantes do gênero Nuttallia parasitos de mamíferos também tiveram uma proposição de transferência de seus representantes ao gênero Achromaticus, já que algumas de suas espécies apresentam caracteres diferenciais tanto aos gêneros Babesia como ao gênero Theileria13.

Parece não ser possível então, até o momento, a adoção de uma posição única em relação à nova denominação das espécies descritas originalmente no gênero Nuttallia, fato este já citado14 em uma extensa revisão do ciclo evolutivo dos piroplasmas na qual se relatam diferenças morfológicas e biológicas entre Babesia e Theileria, propondo-se apenas que espécies como B. microti e B. equi, que possuem caracteres diferenciados dos outros representantes do gênero, sejam mais bem estudadas para que possam ser adequadamente classificadas.

Entre os diversos autores que observaram ou situaram taxonomicamente a N. brasiliensis, foram adotadas três posições, todas variando quanto ao nome genérico do parasito: N. brasiliensis3-15-18, T. brasiliensis2-4-19 e B. brasiliensis20-22. O agente foi também descrito com outro nome específico, B. ernestoi23-24 tendo no entanto sido sugerida a sinonímia júnior do mesmo25 quanto à B. brasiliensis.

Em relação à N. brasiliensis deve ser adotada para o parasito a denominação de Babesia brasiliensis em função da extinção do gênero Nuttallia para piroplasmídeos, como concordam outros autores11-13. Apesar da opiniões que situaram o agente no gênero Theileria2-4-19, não foram descritas até o momento as características que poderiam justificá-la. A proposição13 da passagem de todas as espécies parasitas de mamíferos do gênero Nuttallia ao gênero Achromaticus, sugerida anteriormente26-27, não deve ser mantida uma vez que o mesmo já foi considerado como sinonímia de Babesia2-5-6, situação estendida mais recentemente também ao gênero Nicollia28. A não observação de formas parasitárias leucocitárias por quaisquer dos trabalhos já publicados, assim como o achado de formas tipicamente em reprodução binária (assincrônica), e não esquizogônica21, fortalecem a posição sistemática do parasito no gênero Babesia, devendo ser esta posição mantida até que novos estudos (filogenéticos, ultraestruturais, evolutivos, de transmissão nos vetores, de receptores de superfície, da bioquímica do parasito, e outros), permitam determinar características que justifiquem uma revisão da mesma. O Tabela 1 apresenta uma súmula cronológica dos relatos publicados da B. brasiliensis com as denominações originais dos diversos autores.

Tabela 1. Súmula cronológica dos
relatos publicados de
Babesia brasiliensis


Denominação Original
dada ao Parasito

Autor/Ano

N. brasiliensis Regendanz e Kikuth, 1928
Nuttallia sp. Garcia, 1945
N. brasiliensis Deane e Deane, 1961
N. brasiliensis Ayala et al., 1973
T. brasiliensis Pérez e Montarroso, 1973
N. brasiliensis Lopes et al., 1973
B. ernestoi Serra Freire, 1979
B. ernestoi Serra Freire, 1982
B. brasiliensis Herrera e Urdaneta, 1991
B. brasiliensis Sampaio, 1993
B. brasiliensis Sampaio et al., 2001

RESUMO

É discutida a posição taxonômica do hemoparasito de marsupiais sul-americanos, descrito como Nuttallia brasiliensis, propondo-se a sua transferência ao gênero Babesia devido à préocupação do gênero Nuttallia por espécies de moluscos, propondo-se também a sinonímia de Theileria brasiliensis em relação a Babesia brasiliensis. Simultaneamente é discutida a situação de representantes de outros gêneros como Nuttallia e Achromaticus, em relação às normas internacionais de nomenclatura, e a seus aspectos morfológicos e biológicos comuns. Também é apresentado um sumário cronológico dos relatos de B. brasiliensis.

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Agradecimentos: Ao Dr. W. Lobato Paraense (FIOCRUZ - Rio de Janeiro) e ao Prof. C. Diniz de Freitas (Universidade Santa Úrsula - Rio de Janeiro) pela colaboração nas regras de sistemática. Aos Profs. Sérgio A. Furtado Machado (UNIRIO - Rio de Janeiro) e Adivaldo Henrique da Fonseca (UFRRJ - Rio de Janeiro) pela revisão do manuscrito e sugestões.


* Departamento de Microbiologia e Parasitologia, Instituto Biomédico, Universidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ. Endereço: Rua Frei Caneca 94, Centro, Rio de Janeiro/RJ, Brasil. CEP: 20211-040. Fone/Fax: +55 (21) 2242-7739. E-mail: mxsampaio@unirio.br.
** Departamento de Parasitologia Animal, Instituto de Veterinária, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ. Endereço: BR 465, KM 7, Seropédica/RJ, Brasil. CEP: 23890-000. Fone/Fax: +55 (21) 2682-1617. E-mail: carlosmassard@ufrrj.br.