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Parasitología latinoamericana

versión On-line ISSN 0717-7712

Parasitol. latinoam. v.57 n.3-4 Santiago jul. 2002

http://dx.doi.org/10.4067/S0717-77122002000300012 

Parasitol Latinoam 57: 149 - 157, 2002

ARTÍCULO ORIGINAL

Prevalência e intensidade de infecção de cestóides
Trypanorhyncha de elasmobrânquios nos estados do
Paraná e Santa Catarina, Brasil

MARCELO KNOFF*, SÉRGIO CARMONA DE SÃO CLEMENTE**,
ROBERTO MAGALHÃES PINTO* e DELIR CORRÊA GOMES*

PREVALENCE AND INTENSITY OF INFECTION OF CESTODES TRYPANORHYNCHA FROM ELASMOBRANCHS IN THE STATES OF PARANÁ AND
SANTA CATARINA, BRAZIL

Twenty-nine specimes (32.2%) of elasmobranch fishes, out of 90 captured in the south coast of Brazil in the States of Paraná and Santa Catarina, represented by six families, seven genera and nine species, were parasitized with cestodes of the order Trypanorhyncha: Heptranchias perlo and Squalus sp. parasitized with Progrillotia dollfusi; Isurus oxyrinchus with Nybelinia lingualis and Gymnorhynchus isuri; Prionace glauca with Tentacularia coryphaenae, Hepatoxylon trichiuri, Molicola horridus, Floriceps saccatus and Callitetrarhynchus gracilis; Carcharhinus signatus with Heteronybelinia yamagutii, H. nipponica and P. dollfusi; C. longimanus and C. obscurus with T. coryphaenae; Sphyrna zygaena with Heteronybelinia rougetcampanae and Callitetrarhynchus speciosus; Dipturus trachydermus with Mixonybelinia beveridgei. Prevalences and intensities of infection are presented as well as the analysis of the hosts sex-related parasitism, in single or concomitant infections. Data are discussed and compared with previous available reports on these hosts, mainly those referring to the species I. oxyrinchus, P. glauca and C. longimanus.

Key words: Trypanorhyncha, prevalence, intensity, elasmobranchs, Brazil.

INTRODUÇÃO

Na década de 70 inicia-se um prévio levantamento dos cestóides existentes em peixes do Brasil quando foi chamada atenção para a necessidade de se realizarem mais estudos sobre este grupo de parasitas1-3. Na costa de Pernambuco foi registrada três espécimes adultos de Tentacularia coryphaenae na válvula espiral de um Cacharhinus longimanus1.Pouco mais de uma década depois, estudos com esta ordem de cestóides para-sitando elasmobrânquios foram realizados no litoral da Região Sul do Brasil4-7.

Na década de 90 foi realizado o primeiro levantamento de cestóides Trypanorhyncha que ocorrem em elasmobrânquios no litoral sul do Rio Grande do Sul, Brasil7, onde foram deter-minadas as prevalências e intensidades parasitárias em 154 espécimes, pertencentes a oito espécies diferentes de tubarões, Carcharhinus brachyurus, Mustelus canis, M. schmitti, Notorhynchus pectorosus (= Notorynchus cepedianus), S. lewini, Sphyrna zygaena, Galeorhinus vitaminicus (= G. galeus) e Squalus megalops. Os autores relataram que os espécimes das três últimas espécies não encontravam-se parasitadas por espécies desta ordem de parasitos. Das outras cinco espécies foram determinadas as prevalências e inten-sidades de infecção por cestóides Trypanorhyncha. Nybelinia lingualis apresentou prevalências de 10,8% e 5,7%, e intensidades médias de infecção de 1,25 e 2, respectivamente para M. canis e M. schmitti, a espécie Nybelinia rougetcampanae (= Heteronybelinia rougetcampanae) apresentou prevalência de 20% e intensidade de infecção de 5 em S. lewini e Callitetrarhynchus gracilis apresentou prevalência de 5,4% e intensidade média de infecção de 1 em M. canis. Da espécie pertencente a família Carcharhinidae, foram coletados quatro C. brachyurus, dos quais um estava parasitado com dois Dasyrhynchus pacificus, constatando que os níveis de parasitismo dos peixes fêmeas estavam maiores do que os machos, tanto em número de espécimes como nas prevalências.

No Texas, EUA, 128 espécimes pertencentes a 12 espécies diferentes de elasmobrânquios (53 raias e 75 tubarões), foram identificadas 18 espécies diferentes de cestóides; dentre estes tubarões, de Carcharhinus leucas foi registrada N. lingualis, com prevalência de 4,5%. Em um Isurus oxyrinchus coletado nenhuma espécie de Trypanorhyncha foi encontrada8.

Em Caleta Cochoa, Chile foi registrada a presença de "uns" dez espécimes de Dibothrio-rhynchus grossum (= Hepatoxylon trichiuri) no fígado de uma fêmea de Prionace glauca capturada38. Também no Chile em várias localidades, registrouse 11 espécies diferentes de tubarões, onde 6 destas espécies apresentaram-se parasitadas por 13 espécies diferentes de cestóides; dentre elas H. trichiuri na cavidade do corpo, serosa do estômago e fígado de um P. glauca10 e posteriormente foi registrado o encontro de cestóides Trypa-norhyncha de peixes teleósteos e elasmo-brânquios, do Arquipélago de Juan Fernández, sendo assinalado simultaneamente em um único P. glauca coletado, de 16 espécimes de T. coryphaenae, na válvula espiral, e de dois espécimes de H. trichiuri, aderidos à capsula do fígado11. No litoral do estado do Rio Grande do Sul, Brasil, foi registrada a prevalência de 86,4% e intensidade média de 9,1 de H. trichiuri em P. glauca12.

Em Newfoundland, Canadá, a presença de uma única pós-larva de H. squali (= H. trichiuri) foi assinalada na cavidade do corpo de P. glauca13.

Na Baía de Humbolt e costa pacífica da Califórnia, EUA, foi relatado o parasitismo por Trypanorhyncha em cinco espécies diferentes de tubarões, onde 14 pós-larvas de H. trichiuri estavam infectando o fígado de um único espécime de P. glauca14.

Em Makara, Estreito de Cook, Nova Zelândia foram assimalados diversos teleósteos e elasmobrânquios, onde uma espécie nova de Trypanorhyncha foi descrita, Gymnorhynchus isuri, a partir de um único espécime adulto coletado da válvula espiral de um Isurus glaucus (= I. oxyrinchus)15.

Quatro I. oxyrinchus de 19 examinados (prevalência de 21,05%) apresentavam o parasito G. isuri, onde três tubarões estavam com um espécime e um tubarão com dois espécimes (intensidade média de 1,25), coletados de Montauk, Long Island, Nova York, EUA16.

Devido ao reduzido número de trabalhos existentes versando sobre os índices parasitários de Trypanorhyncha em elasmo-brânquios o presente estudo teve como objetivo calcular a prevalência e intensidade de infecção das espécies e/ou gêneros encontrados dos cestóides pertencentes a ordem de parasitos nestes peixes, coletados em duas viagens de pesquisa realizadas nos litorais dos estados do Paraná e de Santa Catarina.

MATERIAL E MÉTODOS

Em março de 1998, 46 peixes elasmo-brânquios, 1 (macho) Hexanchus griseus) (132 cm comprimento total-ct), 7 (6 fêmeas e 1 macho) Heptranchias perlo (87-107,4 cm ct), 16 (10 fêmeas e 6 machos) Squalus sp. (41-67 cm ct), 9 (5 fêmeas e 4 machos) Scyliorhinus haeckelii (41,5-54,5 cm ct), 5 (1 fêmea e 4 machos) Carcharhinus signatus (120-150 cm ct) e 8 (1 fêmea e 7 machos) Dipturus trachydermus (133.5-176 cm ct) foram capturados a, aproximadamente, 125 milhas do litoral do Estado do Paraná (25º50'S-25º52'S e 45º23'O-45º25'O; 200-500 m de profundidade), com espinhel de fundo, com dois lances por dia, por pescadores profissionais do barco de pesca Icanhema VI. Em março 1999, mais 44 peixes elasmobrânquios, 4 (fêmeas) Isurus oxyrinchus (165-221cm ct), 30 (18 fêmeas e 12 machos) P. glauca (206-287 cm ct), 2 (machos) C. signatus (143-190 cm ct), 2 (1 fêmea e 1 macho) C. longimanus (170-209 cm ct), 1 (macho) C. obscurus (247 cm ct) e 5 (4 fêmeas e 1 macho) S. zygaena (190-250 cm ct) foram capturados a, aproximadamente, 190 milhas do litoral do Estado de Santa Catarina (27º08'S-28º38'S e 45º30'O-46º53'O; ~25-50 m de profundidade), com espinhel de superfície, com um lance por dia, por pescadores profissionais do barco atuneiro Kiyomã. Em ambas as viagens os peixes foram capturados aleatóriamente.

As espécies de elasmobrânquios que mediam mais de 1,0 m de comprimento padrão-cp foram identificadas pelo sexo, etiquetadas, medidas, pesadas, e necropsiadas na própria embarcação e as de menor tamanho só foram etiquetadas, para posterior necrópsia. Com a cavidade aberta, retirou-se os estômagos, as válvulas espirais, amarrando as extremidades, e os pedaços de fígados (contendo pós-larvas). Cada órgão ou pedaço foi etiquetado e colocado em sacos plásticos, assim como as cabeças dos grandes tubarões e os espécimes menores de 1,0 m de cp, acondicionados em caixas plásticas contendo gelo. No Laboratório de Biologia Pesqueira do Instituto de Pesca, Santos, SP, os espécimes menores de 1,0 m de cp foram identificados pelo sexo, pesados e necropsiados, e seus estômagos e válvulas espirais coletados e transportados para o Laboratório de Inspeção e Tecnologia de Pescado da Faculdade de Veterinária da Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, RJ onde procedeuse ao exame dos órgãos e a coleta dos helmintos.

A identificação dos peixes foi realizada pelo Dr. Alberto Ferreira de Amorim do Instituto de Pesca, Santos, SP. Pelo menos um espécime de cada espécie de peixe foi depositado na coleção deste instituto, sob a seguinte numeração: D. trachydermus - IP 1961; C. signatus - IP 1962; H. perlo - IP 1963; Hexanchus griseus - IP 1964; Squalus sp. - IP 1965; S. haeckeli - IP 1966; P. glauca - IP 1967; I. oxyrinchus - IP 1968; S. zygaena - IP 1969; C. longimanus - IP 1970; Carcharhinus obscurus - IP 1971.

No laboratório, os estômagos e as válvulas foram abertas, o conteúdo foi lavado em tamis de 100 mm, coletando, assim, os helmintos existentes. Em seguida os diferentes helmintos foram identificados por classes, separando-se os cestóides da ordem Trypanorhyncha, objeto de estudo do presente trabalho. Ainda a bordo, as pós-larvas de cestóides presentes na superfície do figado de P. glauca, vísiveis a olho nu, foram retiradas manualmente.

Após a coleta, os cestóides foram colocados em placa de Petri contendo água destilada e mantidos em refrigerador, por 24 horas, para relaxarem a musculatura e extroverterem seus tentáculos. Após a contagem, foram fixados em AFA (Álcool 70% - Formalina - Ácido acético) a frio, seguindo-se a coloração pelo carmim de Mayer, Langeron ou hematoxilina de Delafield, diferenciados pelo álcool clorídrico a 0,5%, desidratados pela série alcoólica crescente, clarificados pelo creosoto de Faia e montados em bálsamo do Canadá.

Para elaboração de tabelas e gráficos, o sexo dos hospedeiros foi considerado. Os cálculos de prevalência (P) e da intensidade ou intensidade média de infecção (I/IM) foram realizados com base nos conceitos de BUSH et al17.

RESULTADOS

Da amostragem de elasmobrânquios pescados no litoral Sul do Brasil (Estados do Paraná e de Santa Catarina), totalizando 90 espécimes, identifica-se dez gêneros que incluem onze espécies (Tabela 1). Os exemplares de H. griseus e S. haeckelii não estão parasitados por cestóides Trypanorhyncha. Nas outras nove espécies encontra-se um total de 29 peixes parasitados por Trypanorhyncha o que corresponde a 32,2% da amostragem total dos espécimes.


Considerando as nove espécies em que o parasitismo é observado, a captura dos peixes resulta que, na maioria, em cinco das espécies o número de peixes fêmeas examinados é maior. Em uma das espécies, o número foi igual entre peixes fêmeas e machos e, em três das espécies, o número de peixes machos examinados foi maior (Tabela 1). Analisando o parasitismo por Trypanorhyncha em relação ao sexo dos hospedeiros, constata-se em cinco espécies, H. perlo, Squalus sp., I. oxyrinchus, C. longimanus e S. zygaena onde somente os peixes fêmeas estão parasitados, correspondendo a prevalência de 14,3%, 6,25%, 100%, 50% e 40%, respectivamente, do total de peixes examinados em cada uma dessas espécies (Tabela 1). Calculando a prevalência por sexo dos hospedeiros infectados, os valores são respectivamente, 16,7%, 10%, 100%, 100% e 50% (Tabela 1). Lembrando que em I. oxyrinchus somente fêmeas foram capturadas.

Em duas espécies pertencentes a família Carcharhinidae, P. glauca e C. signatus a ocorrência de cestóides da ordem Trypanorhyncha é observada tanto em peixes machos como em fêmeas. Calculandose a prevalência entre os peixes parasitados, e por sexo, em P. glauca constata-se os valores de 50% para ambos os sexos, e em C. signatus de 100% para fêmeas e 33,3% para machos (Tabela 1). Onde ocorrem as percentagens de 30% e 14% para fêmeas de P. glauca e C. signatus, respectivamente, sobre o total de peixes examinados; e em peixes machos as percen-tagens são de 20% e 29% para P. glauca e C. signatus, respectivamente, sobre o total de peixes examinados.

Nas outras duas espécies, C. obscurus e D. trachydermus, somente os peixes machos estão parasitados, correspondendo à prevalência de 100% e 12,5%, respectivamente, do total de peixes examinados em cada uma dessas espécies. Calculando a prevalência para o sexo do hospedeiro onde se comprovou o parasitismo, os valores são respectivamente, 100% e 14,3% (Tabela 1). Lembrando que em C. obscurus somente um macho foi capturado.

Pela análise dos peixes examinados, os níveis constatados do parasitismo demonstram que, na maioria, cinco das nove espécies de hospedeiros, os peixes fêmeas, estão mais parasitados em quantidade e em valor relativo, prevalência (Tabela 1). Entretanto apresenta exceções para as espécies C. signatus, C. obscurus e D. trachydermus, onde peixes machos demonstram em quantidade, ou seja, número de exemplares e, nas espécies C. obscurus e D. trachydermus demonstram estar mais parasitados em valor relativo, prevalência (Tabela 1). Prionace glauca apresenta maior quantidade de peixes fêmeas parasitados do que machos, entretanto, demonstra estar igualmente parasitado em relação a prevalência tanto nas fêmeas como nos machos (Tabela 1).

As prevalências parasitárias de cada espécie de parasito que ocorre em cada espécie hospedeira (por sexo e total) é demonstrada (Tabela 2).


A intensidade ou intensidade média de infecção dos peixes parasitados demonstra que os peixes fêmeas estão com maior número de cestóides da ordem Trypanorhyncha que os peixes machos, em cinco das nove espécies de hospedeiros: H. perlo (parasitado com Pro-grillotia dollfusi), Squalus sp (parasitado com P. dollfusi), P. glauca (parasitados com Molicola horridus e C. gracilis), C. signatus (parasitados com Heteronybelinia nipponica) e C. longimanus (parasitado com Tentacularia coryphaenae); que tanto peixes fêmeas como machos estão com o mesmo número destes cestóides, em uma das nove espécies de hospedeiros: P. glauca (parasitados com T. coryphaenae e F. saccatus); que os peixes machos estão com maior número destes cestóides que os peixes fêmeas, em quatro das nove espécies de hospedeiros: P. glauca (parasitados com H. trichiuri), C. signatus (parasitados com H. yamagutii e P. dollfusi) e D. trachydermus (Tabela 2).

Nas nove espécies de elasmobrânquios em que se comprova o parasitismo, estão identi-ficadas doze espécies da ordem Trypanorhyncha em infecção uniespecífica e, seis espécies de cestóides estavam em simultaneidade de parasitismo de no máximo duas espécies (Tabela 2).

Em P. glauca onde ocorrem cinco espécies de Trypanorhyncha, o parasitismo por F. saccatus está comprovado em 39% dos espécimes infectados, sendo essa espécie de cestóide a mais prevalente, com infecções simples. Também, 34% dos parasitados deste hospedeiro estão parasitados com T. cory-phaenae. Considerando as infecções simples e simultâneas observa-se que 27% dos P. glauca parasitados apresentam somente T. coryphaenae; 7% estão parasitados por T. coryphaenae e H. trichiuri. Hepatoxylon trichiuri que está presente em 27% deste hospedeiro, aparece associado como citado acima ou em 20% em infecção simples. Também, o parasitismo em infecção simultânea pode ser observado com M. horridus e C. gracilis em 7% dos espécimes infectados de P. glauca .

Em I. oxyrinchus, onde ocorrem duas espécies de parasitas, o parasitismo por N. lingualis está comprovado em 100% dos espécimes infectados, 50%, em infecções simples e em 50% em infecções simultâneas com Gymnorhynchus isuri. Sete espécies de elasmobrânquios apresentam infecções simples com cestóides da ordem Trypanorhyncha. Em S. zygaena, 50% dos peixes infectados estão parasitados com C. gracilis e 50% com H. rougetcampanae. Espécimes de C. signatus estão infectados com três espécies parasitas: H. yamagutii, H. nipponica e P. dollfusi na proporção de 33,3% para cada uma das espécies. As outras cinco espécies de elasmo-brânquios apresentam infecções uniespecíficas por Trypanorhyncha. Em H. perlo e Squalus sp. comprovam-se infecção com P. dollfusi; em C. longimanus e C. obscurus constatam-se a ocorrência de T. coryphaenae e em D. trachydermus de M. beveridgei (Tabela 2).

A associação de espécies de Trypanorhyncha em mais de uma espécie dos elasmobrânquios parasitados, ocorreu com a presença de duas espécies infectando três espécies distintas de hospedeiros, ou seja T. coryphaenae em P. glauca, C. longimanus e C. obscurus; e de P. dollfusi em H. perlo, Squalus sp. e C. signatus. (Tabela 2).

DISCUSSÃO

Os dados citados na literatura referentes às prevalências e intensidades de infecção parasitária podem ser comparados com as espécies de elasmobrânquios, I. oxyrinchus, P. glauca e C. longimanus examinadas neste trabalho. O mesmo não se pode dizer das outras espécies de elasmobrânquios examinadas, onde não são citadas em nenhum trabalho da literatura especializada. Não obstante, estes resultados podem ser comparados com os obtidos por outros autores em outras espécies.

Os dados sobre prevalência de adultos de T. coryphaenae, obtidos de um C. longimanus, de dois coletados e de um C. obscurus coletado neste trabalho, se apresentam bem elevados, 50% e 100% respectivamente, similar ao resultado obtido no litoral de Pernambuco, coletado de um C. longimanus, também parasitado por T. coryphaenae1. Entretanto, o índice apresentado, agora no litoral de Santa Catarina, por T. coryphaenae de 16,7% em P. glauca estava bem mais baixo. No litoral do Rio Grande do Sul, onde já haviam sido coletados 4 espécimes de C. brachyurus, porém, apresentaram-se negativos para tal espécie de parasito7.

Os dados sobre N. lingualis, puderam ser comparados com aqueles obtidos no Texas, EUA, onde foi registrado prevalência de 4,5% em C. leucas8 e no litoral do Rio Grande do Sul, Brasil, onde foram registrados 10,8 % e 5,7%, respectivamente, em M. canis e M. schmitti7, sendo estas prevalências bem menores que a achada no presente trabalho que foi de 100% em I. oxyrinchus. Também no Texas foi registrado que, de um I. oxyrinchus coletado, nenhuma espécie de Trypanorhyncha foi encontrada8, contrastando com os dados obtidos no presente trabalho, onde 50% desses hospedeiros encontramse parasitados com G. isuri.

Para Heteronybelinia rougetcampanae a prevalência de 20% em S. zygaena, resulta em um índice coincidente ao obtido no litoral do Rio Grande do Sul, que registrou a mesma prevalência para esta espécie em S. lewini36.

Em relação aos dados de prevalência de C. gracilis, foram comparados com os obtidos no litoral do Rio Grande do Sul, onde foi registrado 5,4% em M. canis, sendo esta prevalência bem próxima da achada no presente trabalho que foi de 3,3% em P. glauca, e menor na outra espécie de Callitetrarhynchus, C. speciosus, que foi de 20% em S. zygaena, lembrando que S. zygaena e S. lewini, coletados por naquele trabalho, apresentaram-se livres deste para-sito7.

O registro de 50% de prevalência para adultos de G. isuri em dois I. oxyrinchus, de quatro coletados, apresenta-se com um índice bem elevado, mas não tão alto, quando com-parado com aquele obtido em Makara, Estreito de Cook, Nova Zelândia, onde foi registrado G. isuri com 100% de prevalência, a partir de um único adulto coletado da válvula espiral de um I. glaucus (= I. oxyrinchus)15. Entretanto, tais indíces apresentam-se maiores, quando comparados com os dados obtidos em Montauk, Long Island, Nova York, EUA, onde foi registrado G. isuri (4 de 19 coletados) com 21,05% de prevalência coletados de I. oxy-rinchus16.

Com relação à intensidade de infecção, o registro de cinco espécimes adultos de T. coryphaenae em um C. longimanus, de dois necropsiados, resulta em um índice muito próximo ao achado na costa de Pernambuco que cita o encontro de três espécimes adultos de T. coryphaenae.1

Para N. lingualis o registro de adultos com intensidade média parasitária de 6,7 espécimes em I. oxyrinchus, resulta em um índice um pouco mais elevado, porém baixo, comparado aos achados no litoral do Rio Grande do Sul, onde foi registrado intensidade média de 1,25 e de 2 espécimes pós-larvares em M. canis e M. schmitti, respectivamente7.

Três pós-larvas de Heteronybelinia rouget-campanae foram encontradas em um S. zygaena, de cinco coletados, resultando em um índice bem próximo ao apresentado no litoral do Rio Grande do Sul, que citam a intensidade média de 5 espécimes adultos em S. lewini7.

O encontro de H. em P. glauca, no litoral de Santa Catarina, sendo 1 macho com 11 parasitos e de 3 fêmeas cada uma com 1, 2 e 3 parasitos, respectivamente, com o índice de 4,25 de intensidade média, resulta em dados bem próximos a outros encontrados na literatura. Em Caleta Cochoa, Chile foi registrada a presença de ("...unos diez...") dez (?) espécimes de Dibothriorhynchus grossum (= H. trichiuri) no fígado de uma fêmea de P. glauca capturada9; em Newfoundland, Canadá foi regisratado a presença de uma única pós-larva de H. squali (=H. trichiuri) na cavidade do corpo de P. glauca13; na costa pacífica da Califórnia, EUA14 foi registrada 14 pós-larvas de H. trichiuri no fígado de um único P. glauca. Entretanto, os registros de H. trichiuri em P. glauca coletados do litoral do Rio Grande do Sul, apresentaram prevalência de 86,4% e intensidade média de 9,1%12, índices bem acima dos registrados por nós, no litoral de Santa Catarina, com prevalência de 13,3% e inten-sidade média de 4,5%.

Associação parasitária foi encontrada em um dos P. glauca coletados neste trabalho, que apresentou um espécime de T. coryphaenae, na válvula espiral, e de dois espécimes de H. trichiuri, no fígado, resultado similar ao encontrado no Arquipélago de Juan Fernández, Chile, onde foi registrado encontro simultâneo de 16 espécimes de T. coryphaenae, na válvula espiral, e de dois espécimes de H. trichiuri, aderidos à capsula do fígado de um único P. glauca coletado11.

No presente trabalho as espécies C. gracilis coletados em P. glauca e C. speciosus em S. zygaena, apresentaram índices de intensidade de parasitismo de 2 e de 1, respectivamente, resultados tão baixos quanto aquele coletado no litoral do Rio Grande do Sul, onde foi registrado a intensidade média de infecção de 1 em M. canis7.

Para a espécie G. isuri o encontro de um espécime adulto, na válvula espiral, em cada um I. oxyrinchus, de dois parasitados, resulta em um índice coincidente ao registrado em Makara, Estreito de Cook, Nova Zelândia, registrando o encontro de um único espécime adulto de G. isuri, coletado da válvula espiral de um I. glaucus (= I. oxyrinchus)15; e similar àquele registrado em Montauk, Long Island, Nova York, EUA, que citou o encontro de G. isuri na válvula espiral de I. oxyrinchus, onde três tubarões estavam com um espécime e um tubarão com dois espécimes (intensidade média de 1,25)16.

Estabelecendo uma comparação com os dados de prevalência e intensidade de infecção obtidos no litoral do estado do Rio Grande do Sul onde foram coletados 154 espécimes de 8 espécies diferentes de elasmobrânquios, com os 90 espécimes de 11 espécies diferentes de elasmobrânquios coletados dos estados do Paraná e de Santa Catarina no presente trabalho, verificou-se apenas uma espécie em comum a ambas as coletas, S. zygaena, entretanto, nenhum dos 16 espécimes desta espécie de tubarão martelo coletados no Rio Grande do Sul, estava parasitado por cestóides da ordem Trypanorhyncha7, diferentemente do presente trabalho, onde nos 5 espécimes coletados do litoral de Santa Catarina, 2 fêmeas estavam parasitadas, sendo uma delas com 3 espécimes de H. rougetcampanae e a outra com l espécime de C. speciosus.

Apesar dos hospedeiros encontrados parasitados com cestóides da ordem Trypano-rhyncha terem sido diferentes daqueles encontrados no litoral do Rio Grande do Sul, algumas comparações puderam ser realizadas7. No presente trabalho, considerando somente as nove espécies em que o parasitismo está comprovado, que corresponde a 32,2% da amostragem dos 90 espécimes, o resultado obtido no Rio Grande do Sul, nas cinco espécies de elasmobrânquios correspondeu a 22% da amostragem dos 154 espécimes coletados7.

A captura dos peixes resultou que, na maioria, em cinco das espécies o número de peixes fêmeas examinados foi maior (H. perlo, Squalus sp., I. oxyrinchus, P. glauca e S. zygaena), em uma das espécies o número de peixes fêmeas e machos examinados foi igual (C. longimanus) e em três das espécies o número de peixes machos examinados foi maior (C. signatus, C. obscurus e Dipturus trachy-dermus), enquanto que, na amostragem aleatória de elasmobrânquios realizada, no litoral do Rio Grande do Sul, incluindo as espécies, C. brachyurus, M. canis, M. schmitti, N. pectorosus (= N. cepedianus), S. lewini, S. zygaena, G. vitaminicus (= G. galeus) e S. megalops, onde as três últimas espécies não apresentaram cestóides da ordem Trypa-norhyncha, resultou que nas cinco espécies em que o parasitismo ficou comprovado, o número de peixes fêmeas examinados estava sempre maior do que o de machos7.

O total de peixes parasitados examinados mostrou que a maioria (cinco de nove espécies de hospedeiros, H. perlo, Squalus sp., I. oxyrinchus, C. longimanus e S. zygaena), as fêmeas, estava em maior quantidade e valor relativo (prevalência) do que os machos (de I. oxyrinchus não foram coletados peixes machos); em C. signatus as fêmeas apre-sentaram maior prevalência, porém, os peixes machos apresentaram mais espécimes para-sitados; em C. obscurus e D. trachydermus, os peixes machos estavam em maior quantidade e valor relativo (prevalência) do que as fêmeas (de C. obscurus não foram coletados peixes fêmeas) e, P. glauca apresentou maior quantidade de peixes fêmeas do que machos, entretanto, estavam igualmente parasitados em relação a prevalência tanto nas fêmeas como nos machos, resultado diferente dos obtidos no litoral do estado do Rio Grande do Sul, onde foi constatado que os níveis de parasitismo dos peixes fêmeas estavam maiores do que os machos, tanto em número de espécimes como nas prevalências7.

RESUMO

De 90 elasmobrânquios pescados no litoral sul do Brasil, Estados do Paraná e Santa Catarina, 29 espécimes (32,2%), representados por seis famílias, sete gêneros e nove espécies, achavam-se parasitados por cestóides da ordem Trypanorhyncha: Heptranchias perlo e Squalus sp. para Progrillotia dollfusi; Isurus oxyrinchus para Nybelinia lingualis e Gymnorhynchus isuri; Prionace glauca para Tentacularia coryphaenae, Hepatoxylon trichiuri, Molicola horridus, Floriceps saccatus e Callite-trarhynchus gracilis; Carcharhinus signatus para Heteronybelinia yamagutii, Heterony-belinia nipponica e P. dollfusi; C. longimanus e C. obscurus para T. coryphaenae; Sphyrna zygaena para Heteronybelinia rougetcampanae e Callitetrarhynchus speciosus e Dipturus trachydermus para Mixonybelinia beveridgei.

São apresentadas as prevalências e intensidades de infecção, onde são analisados o parasitismo em relação ao sexo dos hospedeiros, em infecçôes simples e simultâneas. Os dados são comparados e discutidos com registros obtidos da literatura sobre estes hospedeiros, prici-palmente com as espécies I. oxyrinchus, P. glauca e C. longimanus.

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* Departamento de Helmintologia, Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz. Av. Brasil, 4365, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CEP 21045-900. E-mail: dcgomes.dbbm.fiocruz.br

** Faculdade de Veterinária, Universidade Federal Fluminense. Rua Vital Brazil, Niterói, RJ, Brasil. CEP 24230-340. E-mail: higiene@urbi.com.br