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Cuadernos.info

versión impresa ISSN 0719-3661versión On-line ISSN 0719-367X

Cuad.inf.  no.40 Santiago jun. 2017

http://dx.doi.org/10.7764/cdi.40.1059 

TEMAS GENERALES

Jovens e contextos quotidianos de consumo e apropriação de notícias

Young people and daily life contexts of news appropriation

Jóvenes y contextos cotidianos de consumo y apropiación de noticias

Maria José BritesA  B 

A Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade/UMinho, Portugal. (britesmariajose@gmail.com).

B Universidade Lusófona do Porto, Braga, Portugal.

RESUMO:

Este artigo centra-se na análise da cir culação social da notícia em espaços privados de 32 jovens portugueses que quando foram entrevistados tinham alguma forma de participação cívica diferenciada no tipo e na intensidade. Identificaram-se cinco perfis: Consumi dores informados, Consumidores pouco informados, Consumidores emergentes de informação, Consumidores em torno de um projeto do Eu e Cidadãos online. Estas tipologias revelaram a importân cia dos capitais sociais e cívicos, a liga ção intrínseca entre a vida quotidiana e os hábitos de consumo de notícias e a importância da família no consumo de notícias, muito em especial as da esfera política.

Palavras-chave: jovens; notícias; esfera privada; culturas cívicas; quotidiano; habitus

ABSTRACT:

This article analyzes the social circulation of news in the private sphere, using a sample of thirty-two Portuguese young people who were interviewed because they had some form of civic participation of different types and intensities. Through the consumption of news and political information, five profiles were identified: informed citizens, uninformed citizens, emergent consumers of information, the relevance of the self- centered and online citizens. These profiles revealed the significance of the social and civic capitals, the importance of daily life and family environments in the habits of news consumption and an important connection of family with political news.

Keywords: young people; news; private sphere; civic culture; daily life; habitus

RESUMEN:

Este artículo se centra en el análisis de la circulación social de las noticias en espacios privados, de una muestra de 32 j óvenes portugueses que fueron entrevis tados porque presentaban alguna forma de participación ciudadana de diversos tipos e intensidades. Se identificaron cinco perfiles: consumidores informa dos, consumidores no informados, con sumidores emergentes de información y consumidores en torno al proyecto Eu y Cidadãos online. Estas tipologías revelan la importancia del capital social y cívico, la relación intrínseca entre la vida coti diana y los hábitos de consumo de noti cias y la importancia de la familia en el consumo de noticias, muy especialmente en la esfera política.

Palabras clave: jóvenes; noticias; esfera privada; cultura cívica; cotidiano; habitus

INTRODUÇÃO

O jornalismo ainda pode ser entendido como um dos pilares da democracia e do interesse público (Beckett, 2008. Isto, apresar de, inegavelmente, ter perdido parte da sua posição histórica de ligação ao cidadão, de se debater com debilidades que o enfraquecem face aos públicos e de viver uma forte crise económica e de práticas (Beckett, 2008). As pluridimensões que se cru zam entre o jornalismo e as culturas cívicas e culturas juvenis constituem um foco a explorar. Considerando os jovens e o jornalismo, inserido hoje num contexto mediático reconfigurado e alargado, é possível pensar as notícias de forma a compreender como poderão faci litar o processo de estruturação cívica entre os indi víduos no seu dia a dia (Buckingham, 2006 [2000]).

O lugar particular das notícias nas vivências juvenis, com incidência nos contextos sociais de proximidade, como a família, onde se inaugura a socialização juve nil, constituem possíveis contributos para o reforço das culturas cívicas. Estas são encaradas como complexas e multiformes. Não implicam homogeneidade entre os seus membros e as suas ações. Apontam para as diferen tes formas de participação no dia a dia, nas instituições da sociedade civil, engajamento no espaço público e envolvimento na atividade política (Dahlgren, 2000b). Neste artigo, os media, particularmente os noticiosos, são entendidos através da perspetiva dos seus contextos sociais (Dahlgren, 2000a). Ou seja, repercutem-se nas pessoas, mas também ganham forma através do modo como as pessoas se apropriam deles, os interpretam e os partilham. Podemos apontar, deste modo, para a importância do consumo social das notícias, na linha do que foi proposto pelo sociólogo da Escola de Chi cago, Robert Park (2009 [1940]), quando se referia às notícias como pequenas comunicações, independen tes entre si, que suscitam a conversa e a reação social.

Esta linha de investigação é importante no contexto multidimensional das culturas latinas, muito além do olhar anglo-saxónico e dos países do Norte da Europa mais digitalizados. No contexto português - no qual cerca de um quarto das pessoas nunca usou internet, um quarto não tem internet em casa, e onde a televisão continua a ser o media hegemônico, ainda que disputado com a internet (Cardoso, Paisana, Neves & Quintanilha, 2015; Cardoso & Martinho, 2016; Entidade Reguladora para a Comunicação Social [ERC], 2016)-, assiste-se a uma notôria assimetria de acesso e uso do digital (Brites, 2015a). Além disso, há uma ambivalência que oscila entre uma série de formas de participação muito ocasionadas pela crise e uma marcada influência de 50 anos de ditadura, que ainda colocam a política na esfera do privado. É preciso não esquecer que as cinco décadas de governo ditatorial ainda se refletem na cul tura cívica portuguesa (Villaverde Cabral, 2000; Cruz, 1995; Brites, 2015b). Pinto, Pereira, Pereira & Ferreira (2011), reportando-se aos reflexos mediáticos da dita dura e suas consequências, inclusive para a educação para os media, recordam que os estes quase não tive ram voz livre e foram “amplificadores de uma mundivisão monolítica” (p. 69).

Considerando este ambiente, que perfis podem ser encontrados relativamente ao consumo de notícias na esfera privada, tendo em conta uma amostra de jovens com diferentes tipos de participação? Quais os espaços de conversa e de partilha de notícias em que se movi mentam estes jovens, designadamente no que concerne às notícias relacionadas com política?

MEDIA NOTICIOSOS E SOCIALIZAÇÃO

Nas sociedades onde a presença dos media é forte e se consubstancia numa inerência dos mesmos na vida quotidiana não existe homogeneidade entre os seus membros e as suas ações e proporciona-se espaços de florescimento de culturas cívicas sobretudo entre os jovens (Dahlgren, 2000b). Como o sociólogo Machado Pais (2001) há muito chama a atenção, “um dos aspe- tos essenciais das culturas juvenis contemporâneas deriva das lógicas antinómicas que as caracterizam: ora rígidas, uniformes, coercivas; ora flexíveis, opcio nais, sedutoras. (...) São estes movimentos oscilatórios e reversíveis que o recurso à metáfora do yô-yô ajuda a expressar” (pp. 68-69).

A investigadora norte-americana Doris Graber (2002) reafirma a importância da informação, ainda na infância e juventude, como meio de facilitação da transmissão de conhecimentos que podem contribuir para as deci sões quotidianas. A informação ainda que possa ficar de certa forma latente, sendo especialmente importante a socialização da infância e juventude, acaba por dar substrato a decisões posteriores. Ter cidadãos infor mados é um valor incontestado e pode contribuir para uma diminuição do declínio da participação (Milner, 2009). Este facto é tanto mais relevante se pensarmos em estádios juvenis de socialização cívica e mediática. A aproximação à educação cívica e mediática deve incluir a dimensão política em vez de a excluir. Justin Lewis (2006) aponta para a necessidade de uma “cidadania informada como valor notícia” (p. 310) e considera ainda que mais do que pensar se as notícias estão a entreter ou a informar, se deve atentar às suas implicações na cidadania. Susan Moeller (2012) vê de forma constru tiva a possibilidade de a literacia para as notícias afetar positivamente a qualidade de vida dos jovens, partindo do princípio de que quanto melhor informados estive rem os cidadãos mais poderão intervir. Parece haver, assim, uma variação bastante positiva entre um maior grau de instrução e os graus de participação. Ferreira e Silva (2005) consideram que “jovens mais instruídos são mais ativos, têm mais consciência cívica e fazem mais uso dos direitos de cidadania” (p. 146).

A atualidade marcada pelo avanço das tecnologias digitais e de proximidade inclui o papel da família, que continua a ser decisivo na estruturação da socialização política (Graber, 2002; Brites, 2010, 2012). Estudos dos contextos familiares apontam para uma dinâmica da tradicional televisão que não deve ser ignorada mesmo na era do digital (Lemish, 2007; Ponte, 2011). O con texto mediático oferece oportunidades para interação e acesso à informação sem precedentes que podem contribuir para melhorar problemas da vida familiar contemporânea (Clark, 2011). Já não é possível pensar a sociabilidade sem perceber as dimensões mediatizadas que lhe estão próximas. Como aponta Lia Pappámikail (2011), é fundamental encarar o impacto que as novas tecnologias têm exercido nas últimas décadas sobre os quotidianos juvenis, mesmo tendo em conta que este fenómeno complexifica os possíveis panoramas de interação juvenil.

Estas complexidades atrás indicadas quanto à dimen são mediática e à familiar tornam-se mais relevantes se pensarmos que a socialização política vai afetar a qualidade da interação entre os cidadãos e o sistema e deve começar desde cedo, na infância (Graber, 2002; Patterson, 2007). O papel da família na socialização dos jovens tem sido partilhado com outras instâncias como a escola, os media e os amigos, mas é preciso não esquecer que as condições sociais e económicas agra vadas (financeiras e de acesso ao emprego) e o prolon gamento (efetivo ou a sua perspetiva) da vida em casa dos pais contribuem para essa proximidade ao espaço familiar (Conde, 1990; Schmidt, 1990).

Segundo Bourdieu (1987), o capital cultural (os recursos, competências e apetências em matéria de cultura), transmitido pela família, vai-se acumulando e impõe-se como hipótese essencial para entender, por exemplo, as diferenças dos resultados escolares em classes sociais distintas. A importância da mediação destes fatores, designadamente através da internet, é uma condição integrante do conceito de cultura cívica e também de uma espécie de habitus cívico (Dahlgren, 2010). Assim, ao habitus teríamos inevitavelmente de agregar a capacidade de o indivíduo se emancipar das estruturas adjacentes, o que está relacionado com a interação social, retórica, aptidão para organizar, criar lobbies e definir o que é politicamente relevante (Dahlgren, 2006). As sociologias da vida quotidiana são muito influenciadas por teorias e metodologias que estão, sobretudo, ligadas a microprocessos da vida social. Se é verdade que o social se materializa com os indivíduos, também é uma realidade que estes são produto e produzem habitus sociais (Machado Pais, 2002). O consumo é entendido como um facilitador do empoderamento. Appadurai (2003 [1996]) consi dera que o habitus de Bourdieu (baseado em reprodu ção de práticas) é superado pelas relações politizadas entre familiares, que muitas vezes são o combustí vel para espoletar as emoções e as identidades. Jesús Martin-Barbero (2003 [1987]) aponta mesmo que um dos desafios estratégicos da sociedade da informação implica pensar a revolução tecnológica e a exclusão social. Esta forte componente tecnológica atual man tém a necessidade de ponderar diferentes contextos sociais e vivências juvenis, que se mantêm apesar de uma aparente horizontalidade da sociabilidade juvenil, em função de uma ideia de democratização tecnológica.

METODOLOGIAS E ESCOLHAS

Nesta investigação1 optou-se por metodologias qua litativas, pois considerou-se que são as que servem melhor os propósitos de compreender discursos, atitu des e posições subjetivas da vida quotidiana. Em Por tugal, a linha de investigação nos estudos dajuventude tem-se pautado pelo uso exclusivo ou praticamente exclusivo de métodos quantitativos, tanto no estudo da participação (Ferreira & Silva, 2005; Magalhães & Sanz Moral, 2008) quanto na investigação sobre o con sumo mediático (Rebelo, 2008; Cardoso, Espanha & Lapa, 2007; Cardoso, Espanha, Lapa & Araújo, 2009). Além disso, nenhuma pesquisa se centrou particu larmente nas notícias exceto Leote e Serrão (2009) e Brites (2010; 2012; 2015b). Pretendia-se que a amos tra fosse representativa de um tipo de jovens que de alguma forma participa nos seus contextos de vida, em atividades de participação não-convencional ou con vencional. Em paralelo, queria-se que esses “b ons infor madores” - para usar a terminologia de Birgitta Höijer (2008, p. 279) que trabalhou a validação nos estudos qualitativos - representassem diferentes ambientes económicos, educativos e socioculturais. A pesquisa dora sueca (2008, p. 279) questiona desde logo quem são os entrevistados e o que representam eles mesmos para serem escolhidos? A que grupos sociais perten cem? O grupo social que representam pode, segundo a autora, indicar um valorativo na validação das escolhas, quer pelo que representam na sua individualidade quer pelo que representam no coletivo. A homogeneidade que um grupo pode apontar para dentro de uma cultura ou subcultura não é uma crença na indicação univer sal, que pode ser encontrada numa amostra de grande escala, mas sim uma identificação cultural, que entre si apresenta uma saturação da amostra. Os “bons informa dores” neste caso possuem experiências coletivas que facilitam a possibilidade de encontrar dialéticas sociais além da situação em si mesma da entrevista (Höijer, 2008, p. 279). Jensen (2002) sugere que uma forma de justificar a amostra é a indicação de grande diversidade do conjunto, como veremos de seguida, para captar a maior variedade possível do fenómeno em estudo, o que procuramos fazer pelas diversidades de formas de participação capturadas. Pensando nas questões que se colocam na validação das pesquisas qualitativas, e reportando-se a uma amostra qualitativa de 27 entre vistas, Kim Schrøder (1999) criou perfis de consumo mediático que não tendo representatividade estatística, envolveram um trabalho de reflexão constante, tendo como pano de fundo a ideia de serem representativos de tipos sociais, como tal, apontando o autor para a natureza da validação e da generalização da pesquisa (Schrøder, 1999). Escrutinando ainda as questões da validação e da credibilidade da pesquisa, João Amado e Cristina C. Vieira (2014) destacam a importância de as pesquisas implicarem tempos diferenciados e ao longo do tempo no terreno, manter a fiabilidade dos dados recolhidos, sobretudo com o objetivo de parti cularizar e não tanto de generalizar.

A amostra inicial foi, na linha do enunciado, pen sada de forma a considerar um conjunto de jovens com proveniências e formas de participação diversificadas entre si. Este conjunto de participantes esteve envolvido em formas de participação cívica, embora com graus/ níveis diferenciados (Parlamento dos Jovens; assembleia mensal de bairro de habitação social; juventudes partidárias; jornais escolares; graffiti; música). A opção por estas formas de participação teve como critério ter um leque variado de intervenientes, facilitando o acesso a jovens que tinham muitos outros interesses além da política tradicional (das juventudes partidárias). De destacar ainda que, em alguns casos, estas formas de participação pelas quais de início os escolhemos se reve laram casuísticas (por exemplo, relativamente à assembleia mensal do bairro de habitação social) e noutros intensas e permanentes, como pudemos verificar nos dois momentos de entrevistas. Além disso, a paleta de formas de participação intensificou-se em relação às formas de participação pelas quais foram selecionadas, pois como antecipamos tinham outros interesses que se complementavam e em alguns casos suplantavam os iniciais, como de resto podemos ver na análise de dados. Estas opções e situações em muito contribuí ram para a existência de diversidade no conjunto, o que evita uma possível contaminação dos resultados em favor de uma das formas de participação. De modo a reforçar esta necessidade de facilitar processos de abertura na investigação, asseguramos que a amostra evidenciava ainda backgrounds familiares muito distin tos, sob o ponto de vista da escolaridade, das formas de participação, da capacitação individual e do poder económico e social dos pais.

O contacto com este grupo diversificado de jovens processou-se em dois momentos centrais, ao longo de um período muito politizado e marcado por eleições em Portugal (Presidenciais e Legislativas) e ainda por manifestações de rua, sobretudo contra a crise econó mica que se iniciou por volta de 2008/2010. Em março de 2010 iniciámos a primeira fase de entrevistas (32 jovens: 15 raparigas e 17 rapazes, entre os 15 e os 18 anos); em janeiro de 2011 começou a segunda ronda de entrevistas, que envolveram então 30 dos 32 jovens2.

No início da primeira entrevista, em 2010, foi expli cado a todos os entrevistados, que foram criados três grandes grupos de questões: 1) Opiniões e atitudes para com a política e os media (em particular o jorna lismo); 2) Comportamento político; 3) Sensibilidades em relação aos media e ao jornalismo (o que conside ram ser jornalismo e o que consomem). No início de 2011, as entrevistas centraram-se nas motivações para participar e consumir notícias (inclusive pensar as notí cias para jovens), na cobertura das eleições e na envolvência familiar, dando seguimento a temas levantados previamente pelos informantes. A proximidade do ato eleitoral para a Presidência da República (23 de janeiro de 2011) permitiu que os informantes falassem das elei ções com maior proximidade temporal e que pudessem corresponder ao desafio pedido na altura da marca ção das entrevistas. No início da segunda entrevista, também apresentamos a cada jovem um resumo dos resultados da fase anterior, com indicação das reações e dos temas que se destacaram. Explicámos ainda que o desenho da segunda entrevista tinha sido influen ciado pelos resultados da primeira, no que concerne à ênfase evidenciada pelos jovens aos contextos familia res3. Isso constituíra um facto inesperado, pois tínha mos a expectativa de que os contextos de sociabilidade entre pares seriam mais proeminentes.

Além de pretendermos um contexto social diversi ficado, também procuramos encontrar um equilíbrio de género, pensando em Morley (1988), que identifi cou que os homens gostavam mais de notícias (p. 45), e em Iris Marion Young (1996), que reconheceu uma propensão para as mulheres falarem menos do que os homens e tenderem mais a fornecer informação do que a propor argumentos controversos (p. 123).

Como avançámos no início do artigo, tendo em conta o contexto político que se viveu na altura da realização das notícias e também as consequências da ditadura para a cultura cívica, que perfis podem ser encontra dos relativamente ao consumo de notícias na esfera privada, tendo em conta uma amostra de jovens com diferentes tipos de participação? Quais os espaços de conversa e de partilha de notícias em que se movimen tam estes jovens, designadamente no que concerne às notícias relacionadas com política?

Todas as categorizações foram feitas através das res postas dadas pelos entrevistados, pensando na história contada (Dahlgren, 2006; Buckingham, 2006 [2000]). Começamos por ler as transcrições, de seguida identifi caram-se semelhanças por grupos nas respostas relativamente ao consumo de notícias em geral, consumo de notícias de política e formas autorreportadas de partici pação, como sendo centrais em relação ao jornalismo e à participação e os que se destacavam na análise ao longo do tempo como marcadores diferenciados das tipologias. Só nessa fase, e com recurso a um programa de análise qualitativa de discurso (MaxQda), passámos ao traba lho mais detalhado dos perfis. Assim sendo, depois de identificada a base dos perfis, baseados em semelhan ças entre si, foram feitas novas leituras dessas mesmas transcrições na íntegra, para identificar formas de dis curso complementar (identidades, confiança, valores, conhecimento) e respostas não diretas.

Assim, num primeiro nível, seguimento da pro posta de Stokes (2003), para o reforço da constituição e validação dos perfis - grupos de informantes que têm práticas e atitudes semelhantes entre si relativa mente ao jornalismo (consumos gerais e de política) e à participação (formas e contextos) -, fizemos uma análise de reforço de micronível, com a história que cada pessoa quis contar, cruzando isso com os perfis identificados, para aferir se estavam coesos entre si. O segundo nível foi o da conjugação dos elementos indi viduais no coletivo, reforçando os perfis pelas seme lhanças entre si, mas também pelas dissemelhanças entre eles (Ganito, 2010).

Porque os contextos são importantes na leitura fina dos dados, e correspondendo ao apontado por Bourdieu (1987), depois destas fases iniciais e de estarem agru pados os perfis, fazemos a sua caracterização com os indicadores prévios de capitais, baseando-nos na escolaridade, profissão e uso das tecnologias por parte dos pais e também centrando-nos no que constituem as aspirações de futuros dos informantes, bem como as suas ligações às tecnologias digitais.

Na reflexão em torno destas questões a partir da análise dos testemunhos recolhidos ao longo deste tempo, chegamos a cinco perfis, baseados nas respostas con cretas dos jovens sobre estes elementos já identificados: consumo geral de informação noticiosa e também sobre consumo particular de informação política. Estas informações foram cruzadas, posteriormente e como já explicitámos, com o contexto familiar e a forma como as notícias eram vivenciadas pelos jovens nesse mesmo espaço. No que respeita ao consumo geral ele refere-se ao consumo autorreportado de notícias sejam elas de acidentes, cultura, ciência, celebridades, atualidade ou política, por exemplo. Na realidade, foi tido em conta o que eles mesmos evidenciaram nos seus discursos. O olhar sobre a informação política teve que ver com a forma como era experimentada no contexto de casa. Se os jovens entravam ou não nas conversas dos adul tos, se estavam interessados nessas conversas ou, entre outros fatores, se preferiam falar de política entre portas de família ou num espaço social mais vasto. Foram, assim, identificados cinco perfis diferenciados entre si: Consumidores informados, Consumidores pouco informados, Consumidores emergentes de informação, Consumidores em torno de um projeto do Eu e, ainda, Cidadãos online.

PERFIS SOBRE O LUGAR PARTICULAR DAS NOTÍCIAS NAS VIVÊNCIAS JUVENIS

O grupo de aficionados pelas notícias é o dos Consumidores informados - todos eles com elevados níveis de participação, designadamente política, e forte consumo e produção de informação, inclusive em jor nais tradicionais. Inclui jovens (três raparigas e qua tro rapazes, com idades entre os 15 e os 18 anos; com formas de participação autorreportada consistente e intensa de 2010 para 2011: partidos políticos, juventu des partidárias, jornais regionais, blogues, associação de estudantes, manifestações de rua, petições, volun tariado, conversar com diferentes pessoas) com capital económico e cultural desde baixo a médio/alto e alto. O que existe de uma forma transversal e que potencia o interesse por estarem informados é um capital social e cívico. Beneficiaram de um ambiente que, mesmo esca pando a capitais económicos altos, permitiu e permite contactos/ambientes familiares (ou mesmo com ami gos) que propiciaram e propiciam o reforço (familiar, sobretudo) e a construção pessoal (amigos e colegas) de capitais cívicos. Estes favoreceram a autocapacitação e subsistem independentemente do capital económico e cultural adjacente. Estes laços de convivialidade social, com reforço de redes de conhecimento, são fundamentais; quanto mais alargadas, maior é a possibilidade de reforçar o capital social que beneficia do reforço das redes de convivialidade (Bourdieu, 1983). Os avós, aliás, são elementos positivos do discurso dos jovens deste grupo, mesmo quando não moram juntos.

Há uma marcada importância das redes de sociabili dade para consumir informação, falar e criar circulação de conhecimento. Neste grupo, as redes de sociabilidade são causa e efeito de interesse e participação e atuam autonomamente em relação ao capital económico e cul tural existente na família. Apesar de uma parte do grupo ter um capital familiar muito elevado no sentido cultu ral, económico, social e também cívico, uma outra parte não tem essa valência económica e em alguns casos até cultural, mas compensa-a com esforço na construção pessoal e também beneficia de um capital social e cívico desenvolvido em casa com pais e/ou avós.

Verificámos que as conversas sobre notícias ultra passam a dimensão familiar, dos amigos e escola e são uma constante diária em diferentes redes. Con tudo, claramente este não é o grupo que representa uma maioria, mas sim um nicho de cidadãos em contracorrente. Constituem-se e de forma algo evidente assumem-se como uma espécie de “marginais/alternativos”, configurando-se na ideia de outro, o que, em contracorrente, se interessa pela sociedade em que vive e pelas notícias. Interessados em participar na dinâ mica sociopolítica, recorrem à linguagem bélica para se referirem à relevância da informação. Como diz Joaquim “A informação é a base de tudo. É poder. Ter informação é estar à frente, é ter vantagem” (Entrevista 1). A relevância da informação é em si mesma um valor social que facilita os processos sociais, como tínhamos apontado (Lewis, 2006; Moeller, 2012).

A busca de informação é um estado de espírito, uma ferramenta para intensificar formas de raciocínio e de participação. Este perfil apresenta poucas oscilações ao longo do tempo, tanto na intensidade da participa ção quanto nas formas de consumo noticioso e uso de novos media. Há evoluções, mas não alterações. Neste grupo, há quatro media essenciais, a internet, os jornais (impressos e digitais), a televisão e por fim a rádio. Encontrámos aqui a afirmação do círculo virtuoso, concentrado no consumo noticioso, a que se referia Pipa Norris (2000), mas esse círculo é necessariamente alargado, ou seja, não se centra apenas nas notícias.

As notícias sobre política seguem a mesma linha de diversidade, muito em especial em 2010. Implica ver diferentes media, participar em debates, ver debates televisivos (o jornal televisivo nestes casos é insuficiente), ver informação de outros partidos e ir aos sites dos partidos. Não sendo este o objeto do presente artigo, é de anotar que encontrámos traços distintivos sobretudo neste perfil quanto às tendências políticas com as quais se identificam, na linha do que há mais de duas décadas foi igualmente detetado por Manuel Braga da Cruz (1990). Quanto à confiança nos media, os elementos de partidos mais à esquerda disseram não confiar, um deles ligando essa desconfiança ao capital financeiro e empresarial que de certa forma condiciona osjornalistas. Dahlgren (2009a) considera que é importante um balanceamento entre confiança e desconfiança para que a democracia funcione - esta discussão ficou bem patente nas entrevistas.

Neste grupo, a família tem uma importância enorme na socialização política e de consumo noticioso, apesar de qualquer um deles ser capaz, e fazer questão de reforçar isso mesmo, de autonomamente efetuar escolhas muito além das preferências familiares. Quando questionados sobre o motivo de verem notícias, encontramos de novo identificativos familiares, necessidade de corresponder em termos de saber e de capacidade de conversação e argumentação. Carlos destacou o facto de ter começado a ver notícias desde cedo, salientando a influência dos avós:

Não sei... eu desde muito cedo me lembro de estar habituado a ler e a ouvir notícias, a ir almoçar aos meus avós e a televisão estar ligada no telejornal da tarde. Se não vejo o noticiário num dia já acho esquisito. É sentir que estou ao mesmo nível que as outras pessoas (Car los, Entrevista 2).

Nas suas casas existe um ambiente informal de dis cussão das notícias e todos conseguem (e querem) dar a sua opinião. “Não há regras, cada um dá a sua opinião” (Carlos, Entrevista 2); “É descontraído!!!” (Joaquim, Entrevista 2); “Liberdade e alegria!” (Natércia, Entre vista 2); “Em casa tenho um discurso mais para a brin cadeira, comento ironicamente o que a minha avó diz” (Lito, Entrevista 2).

Sobressai, por exemplo em comparação com respos tas de outros grupos, uma potenciação da importância simbólica das notícias em casa que favorece os laços sociais com as mesmas. A família (nuclear e alargada) surgiu como um pilar construtivo da vontade de se informarem, mas a partilha de informação (política ou não) é aberta a outros grupos, inclusivamente a pes soas que não conhecem. A família é um espaço social onde encontraram o fertilizante para se interessarem por notícias e por participar. Mesmo quando estamos perante capitais económicos baixos, os capitais cívi cos e sociais superam essas dificuldades. Em todo o caso, os seus espaços de ação são muito mais vastos do que o contexto da família, os amigos, os colegas e até desconhecidos são encarados como interlocutores válidos e relevantes.

Por oposição, em relação ao perfil anterior, notamos o grupo que denominamos de Consumidores pouco informados, que reúne cinco jovens, dois do sexo femi nino e três do masculino, três deles com 15 anos e os outros com 17 e 18 anos em 2010. Todos têm comum viverem em bairro de habitação social. A escolaridade dos pais não ultrapassa o ensino básico e é dominada pelo primeiro ciclo, as suas atividades profissionais têm baixa qualificação e o seu acesso à internet é pratica mente nulo, denotando um baixo capital tecnológico (Rojas et al., 2011). Podemos assim dizer que o capital adjacente prevalece em diferentes níveis, embora seja de destacar que nem todos os jovens entrevistados resi dentes no bairro foram inseridos neste perfil.

Para estes jovens (com formas de participação autor- reportada inconsistentes de 2010 para 2011: assembleia de bairro, desporto, ajudar em casa, blogue, manifestação na escola), em termos de consumo de informação noticiosa, a televisão é o meio mais valorizado (mesmo sendo ocasional), em diferentes contextos. Tal é visível quando os informantes se referem a notícias e quando lhes é perguntado como tomam conhecimento dos assuntos que os preocupam. Além disso, as notícias são motivo de conversa (apesar de pouco intensa e diversificada é relevante em contexto de escassez) em família e são associadas a prevenção de risco e de perigos, na lógica de proteção que referimos (Lemish, 2007). A televisão serve para ilustrar os perigos, o desvio e a norma, está na sala, à vista de todos, o seu conteúdo torna-se exemplo fácil para prevenir. Por parte dos pais e mesmo de alguns dos jovens, os novos media são encarados como espaço de risco associado ao uso (desconhecido) e a conteúdos.

Neste perfil, em 2010, o meio usado para obter infor mação era sobretudo a televisão, ligada na sala ou na cozinha. Beatriz diz que a mãe usa a televisão como meio orientador quando refere os hábitos de ver e comentar as notícias televisivas em casa:

- Sim, vejo [notícias] com a minha mãe e o meu irmão. Comentamos, a minha mãe quando são os perigos diz: vês? Ainda no outro dia falavam dos perigos das pisci nas e no dia seguinte eu ia e a minha mãe disse: vês, não te atires assim com a cabeça. A minha mãe alerta-me tanto a mim como ao meu irmão. (Beatriz, Entrevista 1)

Tendencialmente, a falta de diálogo é visível nes tes contextos familiares. Dino (o único sem conta de email por altura da primeira entrevista) evidencia esta situação quando sugere que o pai gosta muito de ver as notícias em silêncio, reforçando que não falam sobre isso; refere que gosta de ver filmes no centro social, apesar de poder aceder em casa, porque ali se sente mais acompanhado e tem a possibilidade de conver sar sobre o que vê e ouve:

Bem, e pelo menos à noite vês com os teus pais, é? Sim. O meu pai nao quer outra, só ver notícias. Porque dizes isso? Porque ele gosta de ver tudo. Gosta de ver as notícias na televisão. Falam sobre o que veem? Não, não... não. (Dino, Entrevista 1)

Estes jovens passam os olhos nos jornais que os pais compram (os mais referenciados são o Jornal de Notícias - jornal diário centenário nacional e que já foi regio nal - ou um diário desportivo) ou acedem aos mesmos quando vão ao café. As revistas cor-de-rosa, de nove las e dos Morangos com Açúcar (série juvenil) são tam bém assinaladas como elementos que vão povoando as referências noticiosas deste grupo, inclusive entre os rapazes. As revistas identificadas envergonhadamente como sendo “cor-de-rosa” e sensacionalistas (TV Guia, a Maria, a Cuore), e compradas pelas mães ou amigas, são também apontadas como fontes de notícias.

Outra das características deste primeiro grupo foi a falta de acompanhamento das notícias de política, designadamente no período eleitoral. Quando existe é feito de forma ocasional com o recurso à televisão (sobretudo telejornais), como foi o caso durante as elei ções de 2009 e de 2011. A conversa sobre política faz-se casualmente em família e os jovens são mais ouvintes do que participantes nas conversas. Ainda assim cons titui um foco de circulação de informação política que não deve ser desconsiderado. Claramente houve um défice de acompanhamento das eleições, assim como a não utilização de conversas como forma de discutir as eleições. Há elementos que denotam o afastamento opcional de temáticas de política.

Comparando 2010 com 2011, neste perfil há ausên cia da informação e de conversa sobre eleições e sobre política. O tema pode ocorrer na esfera privada, entre familiares e, quando muito, entre amigos da escola, embora as conversas sejam superficiais e muitas vezes marcadas pelo insólito. Há ainda uma tendência para a escassez de notícias sobre política, embora seja um assunto sobretudo falado dentro de portas e em família. A Rute, que votou pela primeira vez, disse ter abordado o assunto com a avó, deixando-lhe o ónus da decisão. “[Falei] com a minha avó. Ela disse: vota no Manuel Alegre, e eu votei” (Rute, Entrevista 2). Como aponta Magalhães (2008), “os efeitos da participação de mem bros da rede social na decisão de votar por parte de um dado eleitor são amplificados quando esses inter locutores são pessoas cuja relação com o eleitor é sufi cientemente próxima para facilitar a coordenação de comportamentos” (p. 50).

No segundo ano do nosso contacto, esta propensão para um baixo consumo de notícias continuou a ser notória, quando se referiram a quem/o quê os incen tiva a consumir notícias.

Em suma, e pensando nos dois anos, relativamente ao consumo geral de informação e à informação polí tica, neste perfil, a família teve um papel de destaque (embora nem sempre dialogante nos dois sentidos, em especial nos assuntos políticos), também ligado à prevenção de determinados perigos. As notícias são associadas ao contexto privado da família, apesar de nem sempre isso significar uma aposta no reforço do consumo ou numa interação familiar que possibilite um diálogo aprofundado em que os jovens sejam par ticipantes ativos.

Já no perfil que respeita aos Consumidores emergentes de informação (constituído por seis rapa rigas e três rapazes, entre os 16 e os 17 anos; com for mas de participação autorreportada de 2010 para 2011 muito centrada nas atividades escolares: Parlamento dos Jovens, jornal de escola, voluntariado, partido polí tico, blogue), podemos reconhecer dois grupos. O dos jovens que têm pais com ensino secundário e superior e que são todos oriundos da escola 2 e o dos jovens com pais apenas com a escolaridade primária e básica; os primeiros são utilizadores de internet ao contrário dos segundos progenitores. No que concerne ao consumo de informação noticiosa, em 2010 a televisão ainda tem uma relevância importante, muito em especial em época de eleições, em certa medida influenciada pelos pais. Na verdade, e atestando a atualidade dos dados deste artigo, continuando a ser os mais atuais em Portugal, em especial sobre jovens e resultantes de um estudo qualitativo, a televisão continua a surgir como o media preferência para consumo de notícias em Portugal, apesar de haver um reforço paralelo do con sumo online, como atestam estudos nacionais e inter nacionais recentes (Cardoso et al., 2015; Cardoso & Martinho, 2016; ERC, 2016). Pedro Magalhães (2008) relembra que as eleições são pretextos para reavivar a política nos discursos quotidianos. Pelo menos tempo rariamente, os níveis de politização das discussões do quotidiano e “as discussões políticas informais podem, apesar de tudo, constituir a principal fonte de infor mação política para os eleitores” p. 480). As fontes de influência de proximidade e até pessoais, membros da rede social de cada um de nós, constituem-se como elementos de facilitação.

A internet é igualmente indicada desde 2010, desta cando-se o acesso a jornais que migraram do impresso para online, mas também outros espaços, como o YouTube. Há uma convergência de meios inclusive para consumo de informação e um reforço do pri meiro para o segundo ano de pesquisa, sobretudo na fase final, quando já estavam ou na universidade ou mais próximos de entrar na mesma.

Há uma outra referência a assinalar sobretudo no grupo de jovens com maior capital educativo, econó mico e cultural: a utilização das notícias como potenciadoras de sociabilização quer na escola quer em casa. As notícias, sobretudo à hora do jantar, são pretextos para se informarem e constituem fonte para conversa rem. São alimento de conversa. Os familiares acabam por corresponder a verdadeiras caixas de ressonância de notícias. Há também uma procura de informação nos jornais impressos (embora em menor grau do que televisão e internet), mas de referência: o semanário Expresso, o diário Público, revistas semanais destes jor nais e o diário Jornal de Notícias.

Especificamente em relação à informação política, e em particular à cobertura de eleições, em 2010 este grupo evidenciou uma utilização com maior inten sidade da televisão, mas também de sites de partidos políticos e do governo (principalmente no primeiro grupo constituído por jovens da escola 2). Na passa gem para 2011, a televisão continuou a ser o media mais relevante para informação sobre as presiden ciais e as conversas sobre informação com os pais tornaram-se muito presentes. A Marta, particular mente, acabou por ser influenciada também negati vamente pelo facto de a mãe estar a passar uma fase mais desinteressada e a evitar notícias, o que a penali zava nas conversas, assim como a indicação de ainda não ter idade para votar.

Nos dois anos a propensão encontrada no perfil foi a mesma: falar com a família, embora com amigos à mistura, alargando-se a rede social em relação ao perfil que mostraremos de seguida. Em algumas situações, os amigos, a escola e os professores foram igualmente mencionados. Entre os progenitores, o pai é represen tado como sendo conhecedor de política e notícias sérias. Conversar com o pai é sinónimo de falar com alguém que sabe o que diz e que tem uma opinião. Por exemplo, em 2010 e em 2011, a Marisa dá respos tas com a mesma centralidade: “Com o pai, porque o meu pai tem uma opinião muito formada sobre polí tica” (Marisa, Entrevista 1). A política é situada numa esfera tradicional e masculina.

Comparativamente com os Consumidores pouco informados, este perfil ainda se foca na televisão para consumo de notícias, mas não exclusivamente, os jovens são parte ativa das conversas em casa e o espaço familiar é o mais indicado para falar de temas de política. O papel da família aparece sobretudo como incentivador e potenciador do consumo e conversa sobre notícias. Apesar de neste conjunto as conversas se alargarem ao grupo de colegas na escola e amigos e de isso acontecer também na informação política, esta mantém ainda um cariz mais caseiro e sobretudo centrado na figura masculina. O pai (ou o padrasto) é identificado como uma figura influente.

Nos Consumidores em torno de um projeto do Eu (perfil constituído por rapazes entre os 15 e os 18 anos; com formas de participação autorreportada relacionada com a satisfação de um bem próprio, como indicaram: graffiti, MC, torneio de retórica, partido político, des porto de competição, blogue, conversar com o pai, debates na escola), a escolaridade dos pais (embora com exceções) é média/elevada, sobretudo com o secun dário e o superior. Podem aceder sem dificuldades à internet e os pais não condicionam o acesso, apesar de nem todos terem tido internet cedo: possuem outras capacidades de participação que permitem ultrapassar essa dificuldade inicial.

Uma das características deste perfil apenas consti tuído por rapazes é a centralidade em torno das von tades do Eu. A informação noticiosa reveste-se de uma relevância particular e ligada às suas vontades pessoais valorizadas em relação ao coletivo (em 2010 e em 2011), mesmo entre os que de início respondem que não estão interessados em notícias. Analisando as entrevistas percebe-se como, quer nas suas atividades quotidianas quer na necessidade de construir uma identidade pró pria a ser valorizada socialmente, estes jovens acabam por ter de estar informados para se autovalorizarem pessoalmente nos seus grupos de convivência (tanto através do jornalismo como através de outras formas de informação mais focalizadas nas suas necessidades pessoais). Quando questionado sobre se tem tempo para estar a par das notícias, Simão responde de ime diato: “Como é óbvio” (Simão, Entrevista 1). O primeiro impulso é falar da televisão, mas ao longo da conversa refere-se à importância que o jornal em papel tem na sua vida, considerando que informação que sai é credível. O Simão é um ávido consumidor de notícias em canais diferenciados e em momentos diferentes do dia e a informação acaba por facilitar o seu desta que entre os colegas.

Relativamente à informação política, nas eleições 2009, os pais e a televisão foram os meios mais iden tificados pelos elementos do grupo, com a exceção de Brown, Guilherme e Dário, que disseram não seguir as de 2009. Nas eleições de 2011, o Simão esteve muito ativo no consumo de informação, “Neste caso, todos, a rádio, a internet, a televisão e os jornais, nomeadamente o DN [jornal nacional centenário e de referência] que teve pesquisas sobre gastos dos ministérios” (Simão, Entrevista 2), e o Júlio destaca a leitura da newsmagazine semanal Visão para ver a opinião política e a televisão para as eleições em particular. Fausto quase não procurou informação sobre as eleições, apesar de ser con sumidor de outro tipo de informação.

Pensando no modo como os media e a informação é falada em casa, Simão (que gosta de falar desses assun tos sobretudo com o pai) indica, em todo o caso, como a mãe, que tem um cargo de relevância numa entidade nacional para jovens, tem capacidade para lidar com problemas e manter a mente aberta para os assuntos dos jovens. Refletindo sobre as relações de confiança, no comparativo entre media, família e amigos, o Fausto, o Simão e o Júlio associam as conversas sobre notícias e assuntos sérios com o pai (como de resto aconteceu com outros participantes como a Tânia, a Estela, a Marisa). Estes jovens têm uma maior centralidade neles mesmos. As suas formas de participação são proces sos autocentrados e marcados por diferentes vontades pessoais que esperam que contribuam para uma ima gem positiva das suas capacidades nos grupos em que se movimentam. O consumo de notícias opera-se em consonância nas suas vontades e interesses pessoais e não tanto em informação que vise um grupo mais vasto e a coletividade.

Por fim, incidimos num perfil muito específico que evita a todo custo a informação tradicional. Os Cida dãos online (quatro raparigas com idades entre os 16 e os 18 anos; com formas de participação autorreportada sobretudo não-convencional: vegetarianismo, blogue, Facebook, música, conversar com amigos, partido polí tico), com uma exceção, já têm internet há vários anos.

Claramente afastadas da informação tradicional, em termos de consumo de informação noticiosa optam por encontrar a que necessitam na internet, procurando sobretudo causas que consideram serem sociais, por exemplo sobre ONG, racismo e direitos humanos. A informação que consomem serve sobretudo para refor çar as ideias pré-existentes, na linha do apontado por Doris Graber (2002). Cândida, que prefere andar na rua com os amigos a ficar em casa, considera a inter net um vício [“É como café. Bebe-se um café, bebe-se outro e depois queremos outro. Torna-se um vício” (Cândida, Entrevista 1)]. Centra-se na internet e nos jornais, nunca teve o hábito de ver televisão para se informar, uma vez que antes de existir a internet lia as notícias no jornal que o pai comprava: “Quando não tenho aulas de manhã, e não me apetece estar a ligar o computador e a estudar, nem a ver televisão, pego no jornal e leio” (Cândida, Entrevista 1). A Cândida, que durante a primeira entrevista fez questão de afirmar não ter hábitos regulares de consumo de informação, acabou por os referenciar e por indicar que estava a par dos temas. Lê os jornais de referência que o pai compra, costuma ver sites de notícias. Neste caso, a identificação foi feita com a escolha de canais de tele visão específicos.

No que toca à informação política e tendo como exemplo concreto a cobertura das eleições de 2009, não se verificou esta preferência clara pela internet, ao contrário do que acontecia com notícias gerais ou relativas a assuntos particulares que lhes interessam. Neste caso, as notícias de política afunilam-se em con sumos sociais da esfera privada e familiar.

Sobre quem os incentiva a consumir notícias, não foi encontrada uma centralidade nas vivências familia res, ao contrário dos outros perfis já apresentados. Mas relativamente à informação sobre eleições, a situação é inversa, nos dois anos. A família é notória, embora, é preciso reforçar, não exclusiva, como acontece nou tros perfis. Relativamente às circunstâncias em que os media noticiosos são falados em casa, há uma afirma ção das suas vontades no seio da família. A Cândida afirma não haver uma hora específica para se falar de informação em casa, mas sim uma prática de conversar abertamente sobre temas específicos de atualidade. A Tânia diz: “Eu é que mando sempre os bitaites. [ri-se] Crio os debates” (Tânia, Entrevista 2); a Jade refere as diferenças geracionais com os pais.

Em comparação com os perfis anteriores, não foi verificada uma prevalência da família nas conversas sobre notícias em geral e na utilização da televisão como meio de informação. O consumo de notícias relacionou-se particularmente com os interesses de participação, como ONG, cultura ou, por exemplo, vegetarianismo e direitos dos animais. Em todo caso, as notícias com uma componente particular de polí tica ainda foram identificadas num domínio (apesar de não exclusivo) do espaço familiar (alargado a avós e tios). Neste particular das notícias de política, há uma relação de semelhança com os perfis anteriores no que refere à prevalência do espaço familiar.

CONCLUSÕES

Na tentativa de resposta às questões de partida, e sem querer extrapolar uma representatividade, mas sim apresentar tendências que cruzámos com outros estudos de caráter mais quantitativo, identificaram-se cinco perfis com diferentes convivialidades através da notícia e verificou-se a centralidade da família como espaço para alimentar (ou não) o interesse de jovens sobre notícias e sobre política. Mesmo quando há menor incidência de processos comunicacionais entre jovens e pais (como no perfil dos Consumidores pouco informados), a família parece ser uma caixa de ressonância de notícias (que vai colmatando o desinteresse dos jovens envolvidos por notícias e notícias sobre política no perfil dos Consumidores pouco informados e incentivando o gosto no perfil dos Consumidores emergentes de informação), com as notícias televisivas a tomarem a primazia. Esta posição de relevo do espaço familiar e dos jovens que o constituem denota um campo de pes quisa que merece um aprofundamento futuro. Como limitação da pesquisa, podemos identificar o facto de não ter contemplado um trabalho de investigação junto dos pais e até dos contextos escolares. Esse reforço da investigação poderá vir a ser feito pensando na invulgaridade e relevância da família, enquanto espaço pri vado, na socialização mediática e política, bem como nas relações de poder e também através de uma melhor compreensão das relações de género.

Recordamos que os jovens associaram tendencialmente (embora não exclusivamente) o pai a uma maior capacidade para falar de notícias e de política, mantendo a necessidade do debate em torno destas questões de género (Morley, 1988; Young, 1996), mesmo estando a considerar discursos de jovens. Como pudemos constatar, ainda, o consumo de notí cias está ligado a elementos emocionais e identitários que potenciam ou desmotivam a ação (influenciados até pelas vivências e oscilações e interesses noticioso dos familiares, sobretudo nos perfis Consumidores pouco informados e Consumidores emergentes de informação). A escolha de notícias subordinou-se mais às emoções de proximidade do que às questões da racionalidade. Por isso mesmo, este poderá ser um campo de pesquisa futura.

De salientar ainda que no perfil de Cidadãos online se evidencia que a família não é o núcleo central da convivência através das notícias (embora nas notícias sobre política seja núcleo importante); este aspeto é, porventura, potenciado porque os membros do grupo são ativistas sobretudo em ações de participação não tradicional. No perfil dos Consumidores informados, é evidente a ligação entre as culturas cívicas e o con sumo de notícias. Também o facto de este grupo ser constituído por jovens fortemente empenhados cívica e politicamente fez com que o espaço de ação da notícia, mesmo notícias de caráter político, se tenha alargado muito além da esfera privada.

O capital cívico esteve presente em quase todos os casos positivos de melhoria de consumo ao longo do tempo. Em alguns casos esse habitus cívico (Bourdieu, 1987; Dahlgren, 2010), que se enraizou junto de alguns jovens, extrapola a parte familiar e provém de apren dizagens da individualidade construída, despertada pelo self numa trajetória mais recente. Esta capaci dade de resiliência do self e a importância do capital cívico constituem fatores relevantes a aprofundar em pesquisas futuras.

Apurámos também que há vantagens em pensar numa conjugação efetiva da literacia para os media e da literacia para a cidadania. Por muito que falar de literacia para os media já implique falar de literacia para a cidadania, a junção efetiva de ambas parece ser frutífera. Esta ideia é reforçada pelos pontos de confluência entre o consumo social de notícias e a sua ligação com a capacitação de empoderamento do self. Recorde-se que alguns jovens consideraram a notícia como fonte de poder (Milner, 2009) e, numa outra perspetiva, as notícias não tradicionais tiveram des taque junto dos jovens do terceiro perfil, mais inte ressados em temas que não têm tanta relevância na agenda dos media tradicionais, mas que correspon dem a necessidades de informação cívica. Tendo em conta a natureza do tipo de consumo mediático em Portugal, ainda dominado pela televisão, apesar de cada vez mais disputado com os consumos digitais (Cardoso et al., 2015; Cardoso & Martinho, 2016; ERC, 2016), consideramos que a internet, que se afi gura como o futuro, e a televisão, que está enraizada (Lemish, 2007; Ponte, 2011), não devem ser descon sideradas quando se pensa em propostas de melho ria dos tipos de consumos e de participação e em propostas de educação para os media que cheguem a diversos tipos de jovens.

Os consumos sociais da notícia são, desta forma, impor tantes elementos de contributo para pensar novas for mas de literacia cívico-mediática, mais centradas nos processos sociais do que apenas na quantificação de conhecimentos e capacidades. As notícias, como espe ramos ter indiciado, continuam a ter um papel relevante na construção do pensamento e ação cívica e política. Isto verifica-se tanto entre os jovens que veem nas notí cias (em stricto sensu) uma orientação para o desenvol vimento dos seus quotidianos nas mais diversas facetas de sociabilidade, como entre os que se constituem como absorvedores do que vai correndo no ecrã, passando ainda pelos que encaram as notícias como importantes elementos para pensar as suas vidas (futuras).

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1Durante o período de recolha de dados, a autora era estudante de doutoramento, com bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, SFRH/BD/47530/2008. Atualmente, é pós-doutoranda, também com bolsa da FCT, SFRH/BPD/92204/2013.

2Para além destes dois momentos absolutamente centrais, a investigação mais vasta sobre Jovens, jornalismo e participação, de onde se fez o corte que apresentamos neste artigo, incluiu observação direta e duas fases de grupos de foco (grupos de foco tradicionais=15 jovens; grupos de foco participatórios=10 jovens). A observação direta teve como objetivo fundamental facilitar o contacto com a realidade e procurar que estes jovens tivessem algum conhecimento prévio e quotidiano sobre a presença da investigadora nos seus espaços. Já os grupos de foco tiveram como objetivo particular percecionar as interações coletivas e também abrir espaço de forma exploratória para considerar a investigação participativa mais aprofundada dos jovens envolvidos na pesquisa, que nesta fase foram convidados a fazer eles mesmos entrevistas exploratórias e a partilhá-las com todos nos grupos de foco. Assim sendo, as entrevistas focaram-se mais no que é trabalhado neste artigo em particular.

3Todo o trabalho de ajuste teórico, conceptual e empírico teve inspiração na grounded theory (Seale, 2004), sem dela se servir de forma exaustiva. Apesar de ter havido um diálogo entre os dados e a teorização, não houve uma completa subjugação da segunda à primeira. Em todo o caso, os dados foram falando ao longo da recolha e análise, provocando, inclusive, alterações incisivas de rumo da pesquisa (por exemplo, na substancialidade que veio a ser dada à prevalência do consumo televisivo e relevância da família na leitura dos contextos).

Recebido: 19 de Novembro de 2016; Aceito: 30 de Março de 2017

Maria José Brites é Professora Auxiliar na Universidade Lusófona do Porto e investigadora integrada do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, na Universidade do Minho, onde realiza pós- doutoramento em Ciências da Comunicação (SFRH/BPD/92204/2013). Foi coordenadora em Portugal (2013-2014) do projeto RadioActive Europe (531245-LLP-1-2012-1-UK-KA3-KA3) e dinamiza o blogue ANLiteMedia (https://anlitemedia.com/).

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